Catadão de novembro
Indicações (e às vezes reflexões) com algum compromisso (parte 11/12)
Ainda que de forma errática, consegui chegar ao fim do ano com 12 publicações (sim, dezembro vai ter) que ora tangenciam o tema principal deste blog, ora se referem a indicações completamente descompromissadas com o que me motivou a criá-lo, mas que fazem parte do meu dia a dia.
Queria ter escrito um pouco sobre O agente secreto (2025) quando do lançamento do filme, no mês de novembro, de fato; mas em novembro eu tava de férias e as sessões do filme Brasil afora estavam (ainda bem!) esgotadas. Só consegui ver o novo filme do Kleber Mendonça Filho em dezembro, e pelo que vi na sala ele ainda vai ficar uns dias em cartaz (ainda bem, de novo!). Desde Aquarius (2016) acho que Kleber é dos meus cineastas favoritos, pelos temas que escolhe filmar e pelo poder que as imagens que ele cria com sua equipe têm em mim — e não digo isso porque sou adepto de tier list, pra usar o termo da moda, nem porque tenho uma hierarquização de quem acho melhor ou pior (e muito menos tenho absolutamente nada contra quem curte essas coisas, curte aí, faça suas listas, publique e brigue nas redes sociais também…); apenas Kleber ocupa um lugar central na minha vida de admirador e apaixonado por cinema.
Como o filme saiu há um bom tempo, eu vou deixar de lado um exercício de crítica para apontar apenas algumas reflexões que me tomaram conta enquanto via o filme, principalmente porque passei boa parte da vida frequentando parte daquele pedaço de Recife magistralmente recuperado pela obra de Mendonça, uma cidade pela qual tenho um enorme carinho e gostaria, agora adulto, de visitar mais vezes (até porque, uma parte fundamental de minha família ainda mora lá). Ver as imagens de uma Recife que fez parte da minha infância, ainda que deslocada no tempo, foi gostoso. Reavivou lembranças de tempos que eram, obviamente, graças à infância, mais simples, mais lúdicos. Deu vontade até de entrar naqueles ônibus elétricos que, nos anos 1990 e começo dos 2000, já estavam caquéticos.
Quando abrir a caixa de fotos dessa época eu volto a esse tema. O portal que se abriu na memória em vários momentos piscavam rapidamente, já que tinha um filme pra ver…
Uma das passagens que mais me chamou atenção, e que na verdade mais me emocionou, foi quando Armando/Marcelo, interpretado por Wagner Moura (sempre excelente, sempre bonito), lê uma cartinha de Fernando, seu filho, já nos momentos mais críticos da perseguição que sofria no Recife a mando de um empresário inescrupuloso. Ao afirmar que já estava “conseguindo esquecer a mamãe”, o menino, como é da meninice, não compreende exatamente a própria memória, tratando de forma um tanto vitoriosa um acontecimento que, aos olhos do pai (e do público) é deprimente.
Porque, afinal, e eu vou parar este texto para ver e recomendar um vídeo do meu crítico favorito, Ora Thiago, Agente secreto é um filme de, sobre e para a memória: a pessoal, pequena diante do grande contexto brasileiro e da construção da narrativa de formação/formatação da nação durante o período da ditadura civil-militar1, e ao mesmo tempo enorme, importantíssima no contexto familiar; e a, digamos, nacional, marcada pela clandestinidade forçada a que vê obrigado aderir quando começa a ser perseguido primeiro pelo Estado, depois com a morte encomendada, até, de fato, seu assassinato. Armando/Marcelo o tempo todo se vê pressionado entre dois universos que se chocam: a ameaça constante à segurança de sua família (o que restou dela) e a luta contra a barbárie estatal-militar, patrocinada por grandes empresas públicas e privadas e pela sociedade civil.
Se seu filho esquece a própria mãe, sua companheira de resistência e de vida, de quê vale(rá) seu esforço? Pra quê batalhar pela sobrevivência, pessoal, intelectual, histórica, acadêmica…?
Os emaranhados do filme registram (e voltarão, sempre e a partir de agora, para nos assombrar) um tempo que ainda não passou, recortado por um gênero e uma classe específicos, do professor universitário altamente capacitado, intelectual, inventivo e criativo, que é tratado como um inimigo da nação porque… porque sim! Este tempo que nos legou uma Constituição carinhosamente chamada de Cidadã, e que, a despeito do apelido, insiste em relegar alguns a lata de lixo da História, enquanto outros, perpetradores das maiores atrocidades imagináveis — como assassinar pessoas à luz do dia, em qualquer canto da cidade — são homenageados em praças, avenidas, parques, e seu legado se perpetua nos “empreendimentos familiares” (inclusive naquelas famílias “vocacionadas para o Estado”, sempre tão íntimas das violências que prometem combater desde 1988).
Este tempo que conecta chacinas contemporâneas promovidas pelos mesmos agentes que riam do alfaiate alemão, orgulhosos de seu passado supostamente nazista; que liga expulsões forçadas para abrir caminho para empreendimentos modernos de fachadas de vidro, ontem e hoje; que linkam Ghirottis, Armandos/Marcelos/Fátimas/Fernandos e aparatos repressivos e políticos do Estado brasileiro, garantindo aos primeiros os benefícios dos bens públicos (tangíveis e intangíveis) para usufruto privado, enquanto aos segundos cabe remar sempre contra a maré e tentar se defender da forma que conseguir.
(Enquanto escrevo este texto, o Congresso Nacional aprova a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026. Dentre tantas bizarrices, mau-caratismo e puras sem-vergonhices, deputados e deputadas acharam de bom tom retirar centenas de milhões de reais da já combalida Academia brasileira. O recado para os Armandos do presente e do futuro é claro: Ghirotti precisa ganhar!)
Não é a toa que somos atormentados há tanto tempo com o lema Brasil, o país do futuro, obviamente deturpado desde seu lançamento no livro de Stefan Zweig: a mirada para o passado é sempre vista como uma perda de tempo, nada importante. Ao mesmo tempo, o que é um tanto natural devido a essa recusa em encarar a própria história e sua feiúra, uma espécie de limbo temporal se cria hoje (e vai se fortalecer amanhã), encarnando os piores vícios herdados de séculos de colonização, exploração e violência — de fora e de dentro.
Ainda assim, há um entre nesta temporalidade aberrante, distorcida, que-não-passa: o cotidiano de um ex-professor universitário, servidor público, abalado para sempre graças à barbaridade. O que parecia banal é justamente a mola propulsora da narrativa, já que é justamente dentro do cotidiano de cada um de nós (e das grandes figuras da História) que acontece a vida.
O fantasma que não cansa de rondar…
Se em O agente secreto sobrou tempo para debochar da paranoia anticomunista, em De certa maneira (1977) Sara Gómez finca o pé no lado vermelho da força e cria um manifesto comunofeminista incontornável. O filme tá em exibição na FILMICCA2 e aproveitei pra corrigir uma falha na minha, digamos, cinefilia. Ele se passa em uma Cuba pós-revolução e é tanto uma defesa do comunismo quanto uma crítica ácida e contundente ao machismo da luta revolucionária — além de apontar como o comportamento displicente de Mario (Mario Balmaseda) prejudica inclusive os próprios camaradas trabalhadores, sobrecarregando-os com atividades extra.
Yolanda (Yolanda Cuéllar) não arreda os pés do ideal comunista enquanto defende sua tese sobre a necessidade de repensar drasticamente os papeis de gênero na nova sociedade.
A primeira vez que vi o uso deste termo foi na obra de Lucas Figueiredo, grande jornalista belorizontino que se dedicou durante um bom tempo a investigar as histórias da ditadura brasileira. Há quem não goste ou até mesmo rejeite a ideia de ditadura civil-militar, e para quem ainda não se afeiçoou a este conceito, creio que o filme de Kleber Mendonça Filho dá motivos de sobra para adotá-lo como padrão de referência a um dos períodos mais nefastos da história do país. Ghirotti, em Agente secreto, é justamente a face civil: um diretor do alto-escalão de uma das maiores empresas estatais do país, que rouba tecnologia e informação que orbita nessa corporação para enriquecer pessoalmente, enquanto dá guarida às atrocidades de militares no poder.
Hoje não tem promoção do cupom, mas do próprio serviço da FILMICCA: tá custando 99 reais por um ano, até 5 de janeiro de 2026, para pagamentos no PIX. O catálogo dela é fora de série…


