#16 — XENOS e I SIGNED THE PETITION, de Mahdi Fleifel
Ou: duas dicas rápidas para não perder o texto da semana (ou ainda: o que nos resta enquanto estrangeiros e o que fazer frente às arbitrariedades sionistas)
Este é um mini-texto, que deveria ter sido publicado há oito dias, mas os atropelos da vida acabaram se impondo sobre a escrita — que é essencialmente um hobby meu, um exercício paralelo à minha pesquisa constante das imagens palestinas que tem tomado mais tempo do que eu esperava (o que pra mim é sempre muito bom). Nada surpreendente, considerando as últimas notícias de Gaza e da Cisjordânia, especialmente as que se referem à recente descoberta de uma cova rasa coletiva com 15 médicos brutalmente assassinados por Israel.
(É claro que, a princípio e oficialmente, o exército mais humano do mundo negou que tenha executado trabalhadores de ajuda humanitária de forma tão vil; porém, as evidências foram se acumulando, até surgirem as imagens grotescas gravadas num celular de uma das vítimas — sugiro muita parcimônia e reflexão antes de ver o vídeo, é cruel ao extremo, como tantos que surgem de Gaza —, em que é possível ouvir claramente uma saraivada imensa de tiros disparados contra pelo menos três veículos: um carro de bombeiros e duas ambulâncias, todos devidamente identificados e com as sirenes ligadas, bem como seus ocupantes).
Os curtas Xenos (2013) e I signed the petition (2018), de Mahdi Fleifel, nos fazem refletir um bocado sobre o que fazer, parafraseando um clássico questionamento de Lênin. Se o revolucionário russo deixou para a posteridade praticamente um manual sobre como agir frente ao poderio do capital, Fleifel adota uma postura um tanto mais cínica, um tanto mais realista, através de seus diálogos com personagens que se mostram, cada um a sua maneira, um tanto perdidos num emaranhado de situações das quais não veem uma saída digna ou honrosa — e todas elas ligadas à força do capital.
No primeiro filme, o cineasta conversa com Abu Eyad, que foi parar na Grécia junto com alguns outros colegas refugiados palestinos em busca de uma condição de vida menos degradante. Mas os anos 2010 não foram generosos com o país: pacotes de austeridade foram aplicados num país afundado numa crise que refletiu o caos de 2008, impactando seriamente (e como sempre) os mais pobres. O resultado foi uma grave recessão e a exacerbação do sentimento xenofóbico que vemos refletido em Xenos. O que era pra ser uma possibilidade de um futuro diferente para Abu Eyad e seus companheiros de refúgio acaba se transformando em um pesadelo sem fim, marcado sobretudo pela falta de dinheiro para conseguir sobreviver com o mínimo de dignidade — o que os faz recorrer a métodos pouco ortodoxos para levantar grana…
Dá pra ver Xenos no Vimeo pagando U$ 2,50 (tá barato, vai…)
As performances anticoloniais
Já no segundo, I signed the petition, Fleifel conversa com Faris Nasrallah sobre um assunto que o está atormentando: ele assinou uma petição online criada por alguns artistas palestinos pedindo que Thom Yorke1 e o Radiohead desistissem de um show em Tel Aviv. Fleifel está em Berlim, enquanto Nasrallah, em Londres. Dois artistas palestinos diaspóricos, vivendo o eterno tempo presente interpelado pelo passado-que-não-passa de que falam Said (1999) e, mais especificamente sobre a situação da diáspora palestina, Vadasaria (2018): um tempo sempre entre, sem começos ou fins, bagunçado pela temporalidade estranha que o processo de colonização inicia em 1948. É justamente esta condição que faz com que Nasrallah diga ao amigo que pouco importa sua assinatura e menos ainda o pedido de boicote.
A performance da banda contrasta com a performance do boicote, mas Nasrallah deixa claro para o amigo que esse é um jogo em que palestinos já entram perdendo: o mundo ocidental já assimilou o poderio sionista — o simbólico, o narrativo, o econômico etc.—; de toda forma, os dois, enquanto palestinos vivendo em diáspora, não podem ser dar ao luxo (palavras de Nasrallah) de não se envolver na causa palestina, mesmo sendo uma causa sem um rosto que a represente clara e objetivamente. Assinar a petição não vai mudar absolutamente nada, mas de forma alguma é uma ideia ruim: essa é a conclusão de Nasrallah, que consegue acalentar o nervosismo do amigo cineasta.
O dilema de Fleifel, que monta o filme com seu diálogo telefônico com Faris enquanto vemos imagens de seu apartamento, de Gaza em 2018 e de arquivos da Nakba se costurando em tela, é um dilema que aflige boa parte da militância palestina, tanto intra quanto exterior. A resposta um tanto quanto cínica de Nasrallah contrasta, contudo, com a realidade, em que o movimento BDS incomoda demais o sionismo com suas ações programadas — para ficar num exemplo. O que poderia ser visto como apenas uma performance confortável (assinar uma petição online) pode se transformar numa dor de cabeça e numa ameaça real às pretensões de Israel, ainda que, de fato, e conforme vemos cada dia mais, não vai acabar com o ímpeto de violência que domina o Estado sionista.
Dá pra ver I signed the petition de graça:
Antes de encerrar, um breve comentário sobre a forma fílmica: Mahdi Fleifel usa o celular como uma grande e potente arma cinematográfica, como poucos por aí. Todos os filmes são construídos utilizando-se da potência de um dispositivo móvel para montar a narrativa — seja através de captura de imagens, seja através das ligações de voz. As imagens que literalmente tremem em Xenos, ao acompanhar o cotidiano de imigrantes vivendo suas vidas precárias marcadas pela violência e pela impossibilidade de retorno (Butler, 2019), encontram tremeliques simbólicos de I signed…, que chocam os acontecimentos traumáticos de 1948 com a realidade de pessoas a priori sem nenhum poder para mudar seu próprio destino, marcadas pela interferência colonial do começo ao fim de suas vidas.
Referências bibliográficas
Butler, Judith. Vida precária. Os poderes do luto e da violência. São Paulo: Autêntica, 2019.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.
No final do ano passado, Thom Yorke abandonou (e logo voltou) uma apresentação solo em Melbourne, Austrália, depois de ter sido confrontado com uma pessoa do público que gritou como você pode ficar em silêncio? — a pessoa se referia aos números do massacre sionista em Gaza, na época batendo 43 mil assassinatos. Apesar de Yorke constantemente apelar para liberalices como “eu não apoio Netanyahu mais do que apoio Trump” ou afirmar que é um insulto querer que artistas boicotem Israel, ele é incapaz de ao menos se manifestar enfaticamente contra a ocupação ilegal da Cisjordânia, por exemplo.


