O que é um bloco?
Ou: o que é um "bloco"?
Todo carnaval tem seu fim etc. etc. etc…
Acho que 2026 foi o primeiro carnaval em BH com ampla cobertura no Twitter. Cobertura, não: comentários, em sua maioria completamente estúpidos, alguns por burrice, outros tantos feitos por verificados de fama duvidosa que vivem dos centavos de Elon Musk, e alguns feitos por não-verificados que estão perdendo uma grande oportunidade de ganhar algum dinheirinho com rage baits de gosto duvidoso, como esse aqui:
Eu vou começar por esse tuíte especificamente porque ele resume, bem à moda Twitter, como a ignorância se tornou motivo de orgulho para gente… ignorante. Não é questão de opinião: se o que você pensa e opina não encontra nenhum rastro na materialidade, não se ampara em nada, você não tem uma opinião, você só é burro. E em vez de fazer gracinha na internet, deveria buscar o mínimo de informação nessa mesma internet – apesar de chafurdada num lamaçal de merda, principalmente agora com a supremacia dos “agentes” de IA, a internet ainda tem bastante informação de excelência.
É fato que uma parte da ideia de que o carnaval de BH é resistência se perdeu. Ganhamos em diversidade, mas perdemos um pouquinho do caráter político da festa – mas só um pouquinho. Blocos que estavam no “renascimento” do carnaval belorizontino em 2009/2010 e dali pra frente, ainda hoje desfilam pela cidade todo ano. Tico-Tico Serra Copo, Peixoto e Approach começaram essa história lindíssima de oposição a uma determinação arbitrária e absurda do prefeito Márcio Lacerda. Ele achou que seria uma boa ideia baixar um decreto proibindo manifestações em espaços públicos da cidade, notadamente na Praça da Estação, a praça cívica de BH. A cagada do executivo municipal foi tão grande que hoje, mais de uma década depois que a Praia da Estação se estabeleceu como ponto de encontro, de irreverência, de alegria e de discussões politicas, o próprio Márcio Lacerda tenta surfar na onda da Praia.
Mas essa perda, creio, não é nem significativa, a ponto de descaracterizar nossa vocação de resistência e de política, e sequer tem a ver com os blocos carnavalescos que ainda tocam, de fato, o carnaval de rua na cidade. Ela aconteceu a despeito do desejo dos blocos, que do poder público sempre exigiram o mínimo e o justo para realizar uma festa de rua com dignidade e segurança pra todo mundo (conforto já não podemos exigir, né!? Se tá na rua, é pra se molhar…). O que era uma demanda simples – por exemplo, organização do trânsito e fornecimento de banheiros químicos, para o alívio após horas e mais horas caminhando e cantando pela cidade – se tornou, com o passar dos anos, uma grande oportunidade de negócios para o poder executivo municipal e estadual.
Foi assim que chegamos a 2026 com turistas de tudo quanto é canto do Brasil vindo passar o carnaval onde antes se exportava turistas pra passar o carnaval e tudo quanto é canto do Brasil. Quase todos os blocos se encheram, sobraram piadocas mineiras acerca do comportamento de paulistas e cariocas, trabalhadores bateram records (alô MPMG, tá certo?) de vendas de drinks dos mais diversos sabores (sério: bebam Mascate de melancia com framboesa – isso não é publi!)…
Contudo, foi assim também que chegamos a um ano em que um bocado de gente, e não creio que seja uma quantidade representativa para uma qualificação boa ou ruim do carnaval de BH, fez muito barulho sobre alguns fiascos da folia belorizontina, encarnados, talvez, no Marinada, o bloco da diva pop Marina Sena que desfilou pela Pampulha. Sobrou reclamação e burrices sobre o que é o carnaval da capital, vindas de turistas e de cidadãos daqui mesmo. Gente que já estava criando caso quando anunciaram o local do bloco, distante nove quilômetros do centro. Parecia que Marina e sua produção decidiram fazer um cortejo direto pro centro do inferno, e não num dos bairros mais tradicionais de Belo Horizonte. Gente que mora na cidade mas não sai do eixo Centro-Savassi-Zona Sul achou distante demais, já que nunca precisaram nem saber qual ônibus circular passa no eixo que costumam frequentar (e que provavelmente vivem de pegar Uber ou 99 para se locomover pela cidade).
Quando o bloco transbordou de gente e a estrela do dia atrasou mais de 2h pra começar, mais reclamações (essas um pouco mais justas, notadamente a que se refere ao atraso – pra mim, injustificável. Mas vamos manter o foco, até porque eu gosto muito da Marina Sena). Afinal, centenas de milhares de pessoas se aglomeraram pra ver, praticamente, um show – e não um bloco. Não há sistema de som que chegue pra tanta gente, como bem lembrou Ganjaman, e nao ouvir o trio da Marina foi uma das principais reclamações do público, além da falta de água suficiente (poucos vendedores ambulantes se deslocaram pra lá, ainda que quem foi, lucrou um bocado, por motivos óbvios).
Uso o trio da Marina Sena e o tuíte que abriu esse texto como exemplos para, finalmente, concluir com a maior obviedade do mundo, que (gostaríamos muito eu e uma quantidade razoável de pessoas de BH e de fora daqui) fosse levada em conta pela organização do carnaval para os próximos anos, a despeito de ser, com o perdão da repetição, a maior obviedade do mundo:
Carnaval de rua não é show.
Carnaval de rua não é serviço.
Carnaval de rua não é lucro.
Carnaval de rua é, sim, e principalmente aqui, resistência e política. E desde que nasceu em 2010, com alguns bloquinhos (aqui cabe o diminutivo, sem querer diminuir a importância e o legado dessas pessoas maravilhosas) desfilando em vários pontos da cidade, o carnaval de rua de BH mostra, ano sim, ano também, que festejar e se esbaldar pela cidade tem tudo a ver com se manter crítico e atento aos desdobramentos da política municipal, estadual e nacional.
O problema de gente que acredita que o carnaval daqui não é uma manifestação da resistência contra atrocidades de deputados e vereadores (este ano quiseram proibir crianças no carnaval, por exemplo) é que não compreendem os movimentos históricos, nem os mais fáceis de se compreender. Não conseguem enxergar para além do que lhes é ofertado por empresar que enxergam na maior festa popular do mundo mais uma oportunidade de negócios para encher os bolsos de meia dúzia de empresário que não conseguem apontar no mapa a cidade de Belo Horizonte. É gente que se acostumou a ser cliente, a pagar e receber pelo que tá pagando.
Não é a toa que num dos maiores “blocos” deste ano, patrocinado por uma marca de cerveja de um grupo bilionário, faltou água pros foliões. Vocês jamais verão uma reclamação deste tipo no Peixoto, ou no Batiza, ou no Manjericão, ou no Pisa na Fulô, n’A Roda, no Tico-Tico e tantos outros blocos (agora sem aspas mesmo) que levam alegria e irreverência nas ruas.
Para finalizar, de fato, uma resposta definitiva a quem ainda acha que o Carnaval de Belo Horizonte se confunde com mega-trios ou artistas tipo Alok e Pedro Sampaio:








