Nakba, dia 28.493
Ou: quantos anos são necessários para aniquilar um povo?
15 de maio marca uma reviravolta que transformou o século XX. Quando o Mandato Britânico finalmente abandonou a Palestina, o sionismo emergiu com força total, dando forma a um dos mais nefastos Estados fascistas de que temos registro. A despeito da violência perpetrada por Israel contra o povo palestino ao longo de 78 anos, a “comunidade internacional” parece aceitar com uma certa tranquilidade a convivência com os piores tipos de assassinos, estupradores e criminosos de guerra, acelerada pós-outubro de 2023.
Deixo aqui, neste texto de 15 de maio, indicações do que ler, ver e ouvir sobre a Palestina no Dia da Nakba. A rememoração do luto e do trauma também tem espaço para fabular outros futuros, partindo de uma luta que é aqui, agora. Queria eu mesmo escrever algo mais substancioso, mas a rotina diária tem me tomado um tempo que não imaginei que seria necessário abrir mão. Felizmente, em breve retomo o ritmo das postagens semanais…
Pra começar, é claro que tem filme. Hanna K. (1983), do sempre político (e existe cinema não-político? Tem gente aí fazendo filme de ex-presidente com dinheiro de banqueiro, quer mais político que isso?) Costa-Gravas. Aliás, o grego deu aula quando, em 2025, assinou uma carta junto com mais outros 350 artistas denunciando o genocídio palestino.
Em Hanna K., uma advogada orgulhosamente israelense precisa defender um palestino, interpretado pelo brilhante Mohamed Bakri (a que a mostra do Palestine Film Institute homenageia, dada sua partida em 24 de dezembro do ano passado), da acusação que ele sofre de terrorismo. Como se vê, nada além do trivial sionista. Edward Said, quando atacava também de crítico de cinema, disse o seguinte:
Salim não é todo palestino, ele não é um militante, ele não é as forças da história. Ele é um palestino cuja motivação básica diz respeito à sua casa, à sua vida, ao seu destino. O fato de Costa-Gavras ter construído um filme em torno dessas preocupações é, no atual cenário estético e sociopolítico, um ato de solidariedade humana e política profundamente corajosa. Para que Hanna K. cumpra sua verdadeira missão, no entanto, deve abrir mais discussões e debates.
O filme tá disponível de graça no site do Palestine Film Institue: é só clicar no play. Por falar nisso, lá no PFI toda semana tem um filme novo acerca da questão palestina, vale a pena conferir.
Por falar em filme, aqui vai um vídeo que abraça questões primordiais que atravessam a história palestina: trauma, memória, mulheres, sumud… Fatima Abu Fanouna mantém, por 78 anos, o vestido que a mãe costurou para ela. A Nakba interrompeu sua vida, mas o vestido continua em perfeito estado:
Outro filme disponível de graça é Forargers (2022), da sempre excelente Jumana Manna, uma jovem diretora palestina que navega pelo cinema experimental com um olhar bastante peculiar, apostando na ironia e no deboche para retratar as consequências da ocupação israelense na Cisjordânia. O filme mostra o cotidiano de caçadoras-coletoras palestinas sob escrutínio da Autoridade de Natureza e Parques de Israel
(O único detalhe na plataforma d’A Flamuna é que você precisa realizar um cadastro simples pra ver os filmes. Nada demais, coisa simples — e vale a pena ficar por dentro das exibições de filmes árabes e palestinos que a plataforma realiza ao longo do ano, além das discussões sobre cinema, sociedade, política etc.)
Um genocídio sem fim
Eu não herdei a Nakba como uma lembrança. Ela consumiu toda a minha existência.
Huda Skaik
Desde 2023 discute-se o direito de Israel se defender dos “ataques terroristas” do Hamas. Creio há um tempinho não vemos mais notícias sobre a resistência armada de Gaza; por outro lado, Israel expandiu sua sanha destrutiva para o Líbano (de novo!). Desde 1948, o processo de limpeza étnica levado a cabo na Palestina nunca cessou, a despeito do que as notícias recentes e sionistas à esquerda e à direita tentam fazer parecer. A Nakba não teve um começo, um meio e um fim, e de repente voltou com outro nome, outra roupagem.
A citação que abre essa seção é de Huda Skaik, em um relato-artigo publicado no The New Arab. Ela descreve como a Nakba não é um evento histórico encerrado, mas uma realidade devastadora e contínua na vida em Gaza. O deslocamento em massa e a destruição de casas representam uma tentativa deliberada de Israel apagar a identidade palestina. Skaik explora o trauma de perder a segurança de um lar e enfatiza que a resistência nasce da reconstrução constante e da preservação da memória cultural — como, por exemplo, no uso do keffiyeh. Uma boa leitura, concisa e objetiva, para repensar questões como a esperança do retorno à terra que lhes é de direito.
Neste sentido, convido também a ler as experiências de anciãos e anciãs que sobreviveram à tentativa de extermínio em 1948, e agora enfrentam a nova empreitada colonialista de Israel. A reportagem de Mohamed Solaimane, pro Mondoweiss, traz duas personagens que são verdadeiras museus-vivos: Ismail Atiya Nasir al-Din e Fatima Ibrahim Khalfallah. O deslocamento forçado atravessa a vida dos dois, num paralelo macabro entre 1948 e 2026. Descrições da vida sob tendas sobre escombros relatam o sofrimento contemporâneo — que consegue ser ainda mais letal e devastador que o original. A fome e as inúmeras perdas (de vidas, de casas, de objetos e da própria memória) são a repetição de uma catástrofe histórica. Ismail e Fatima, resiliência e trauma, retratos de de um povo que se recusa a abandonar sua causa, como nos lembra Kanafani.
Será possível que minha vida tenha começado e termine em uma tenda? Nossa Nakba não atingiu nenhum outro povo na Terra. Devemos pagar duas vezes por sermos palestinos — de 1948 até hoje?
Fatima Ibrahim Khalfallah
Tecnologia anticolonialista
Já comentei algumas vezes por aqui as investigações da Forensic Archtecture, que se intensificaram na Palestina pós-outubro de 2023. Pois bem: uma das principais plataformas da FA é a Cartografia do genocídio, toda calcada num mapa onde podemos navegar através de padrões e camadas guiadas por acontecimentos nos últimos anos em Gaza. É uma ferramenta interessante que funciona como linha do tempo, repositório dos eventos catastróficos criados por Israel e fonte de informações e pautas para compreender o genocídio palestino.
A interface é muito fácil de ser manuseada. Nas camadas, por exemplo, é possível selecionar as transformações da estrutura urbana pós-bombardeios sionistas, ou perceber a destruição da área agriculturável e da estrutura de fornecimento de água do povo palestino. Nos padrões, as narrativas multilinguagens da FA se complexificam, apresentando contextos mais detalhados sobre as diversas formas que Israel intervém no território palestino e os efeitos devastadores das ações sionistas.
Para encerrar, um episódio do podcast Palestina em Transe, que já indiquei aqui em outra ocasião. Gravado no calor dos acontecimentos de outubro de 2023, quando Israel iniciava sua contra-ofensiva devastadora, o episódio já traz no título uma pergunta instigante que, naquele momento, trazia mais problemas e dor de cabeça do que pode parecer.
Do rio ao mar, Palestina livre!


