Fantástico e a "guerra" contra o Hamas
Ou: análise do primeiro mês da péssima cobertura global do genocídio palestino
Este texto é praticamente a íntegra do artigo O Primeiro Mês da “Guerra Contra o Hamas” no Fantástico, apresentado no 15º Encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (ALCAR), realizado na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), campus de Mariana.
No dia 31 de julho de 2024, as Forças de Defesa de Israel (FDI) assassinaram dois jornalistas da Al Jazeera, Ismail Al-Ghoul e Rami Al-Rifi, num ataque no norte de Gaza próximo à casa da família de Ismail Haniyeh, líder político do Hamas. Os jornalistas reportavam ao vivo do campo de refugiados Al Shati horas após a confirmação que Haniyeh fora abatido pelo exército israelense em Teerã, capital do Irã, onde ele esperava pela posse do novo presidente do país persa. Os dois jornalistas da TV jordaniana se somam a mais de 248 profissionais já assassinados1 desde que o mais recente “conflito” Israel-Hamas começou, em 7 de outubro de 2023. Sob o pretexto de destruir o Hamas, as FDI tornaram Gaza um dos territórios mais perigosos para profissionais da comunicação.
Al Jazeera é um dos canais que tem se dedicado à cobertura diária do “conflito” desde sua eclosão. Financiada pelo Estado da Jordânia, é uma TV pública que apresenta uma visão da cultura árabe com mais profundidade, e por isso mesmo se tornou um alvo do sionismo: em maio de 2024, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou o fechamento do canal no território israelense, sob a desculpa que Al Jazeera é “um canal de incitação ao antissemitismo” (Farinelli, 2024, online).
No Brasil, suas imagens e reportagens contribuíram com várias pautas sobre Israel, Palestina e o Hamas nos mais diversos canais e empresas jornalísticas, impressos, eletrônicos e digitais. No Fantástico, da Rede Globo, não seria diferente, ainda que o viés da revista seja, conforme procuramos explicitar neste artigo, um tanto diferente do canal árabe. Se este apresenta os palestinos como sujeitos dignos de direitos dentro de um complexo contexto de um conflito armado (e bastante desigual), a revista eletrônica da Rede Globo tende ao que Edward Said (2007) caracteriza como visão orientalista — ou seja, todo o conjunto de clichês e estereótipos que associam árabes (e, aqui, especialmente palestinos) à violência, revolta injustificada, sujeira e lascívia —, além de manter uma pauta alinhada com o discurso sionista de Israel.
Coloquei três edições do Fantástico sob crítica, além de uma breve passagem pelo do dia 8 (um dia após o ataque do Hamas à rave Nova, no deserto de Neguev, e a diversas instalações militares israelenses): 15, 22 e 29 de outubro. Acredito ser o bastante para demonstrar o viés pró-sionista que as edições do dominical exibiram durante o primeiro mês de cobertura do que o próprio programa chama de “guerra Israel-Hamas” ou, um tanto eufemisticamente, “conflito” (dentre tantos outros jornalísticos da Rede Globo e de outros veículos midiáticos, do Brasil e do mundo). Esta visão é compartilhada por outros trabalhos que analisam outros prismas da revista eletrônica global, como o de Musse et al., A representação de crianças no conflito Israel-Hamas no Fantástico, que ressalta como as imagens do programa reforçam estereótipos palestinos: “As imagens dos palestinos mostram sempre multidões e confusão, há uso de drones, as tomadas são feitas à distância, sem detalhes. As imagens de Israel mostram poucas pessoas e organização, e geralmente revelam mais proximidade.” (2024, p. 698)
Imagens da Colonização Sionista
Israel foi fundado em 1948, no dia 14 de maio, num evento intimamente ligado com o fim da Segunda Guerra Mundial. A criação de um lar seguro para judeus logo após um dos maiores traumas coletivos da humanidade se deu num contexto de aumento do antissemitismo, notadamente no continente europeu. A ideia, contudo, vem do final do século XIX, quando Theodor Herzl realizou o 1º Congresso Sionista na Basileia, Suíça: criar uma pátria exclusiva para judeus. A Palestina encarnou uma série de conveniências entre o período das Guerras Mundiais: era um território em disputa entre os britânicos, franceses e otomanos ao mesmo tempo que representava a sacralidade das três grandes religiões monoteístas, e era notadamente um lugar associado à fé judaica (El Cheikh, 2022).
Se o 14 de maio marca a fundação do Estado-judeu, o dia 15 é relembrado pelo povo palestino como al Nakba, a Catástrofe, quando começou o processo de limpeza étnica que até hoje — e mais ainda desde 7 de outubro de 20232 — segue seu curso por parte do exército israelense, através da ocupação do território palestino em Gaza, acordado quando da tentativa da criação de dois estados, e também por parte do projeto de assentamentos de colonos judeus sionistas na Cisjordânia, outro pedaço palestino. Não é por acaso que diversos historiadores e pesquisadores definem o sionismo como um projeto de colonização. Soraya Misleh (2017, p. 31), por exemplo, aponta uma característica fundamental para o sucesso da empreitada sionista no século XX: “A propaganda à época reflete a ideia de que os imigrantes judeus fariam florescer o deserto e para lá levariam o progresso, bem como a de que ali teriam um porto seguro contra um possível novo Holocausto”.
A ideia de levar o progresso é um dos mitos fundadores de Israel: a Palestina pré-colonização sionista não era uma terra arrasada, pobre e bárbara; ao contrário, era um entreposto comercial importante entre os continentes europeu, asiático e africano, por sua localização estratégica no Mar Mediterrâneo; além disso, contava, sim, com uma grande população agrária, mas também desenvolvia alguns centros de acordo com o espírito do seu tempo (Pappé, 2022, p. 28-33). Vejamos, por fim, como Moshe Dayan, que comandou as tropas sionistas em Jerusalém durante a “guerra de independência”3 de Israel, retrata os acontecimentos de 1948 e, portanto, o início da colonização: “Viemos para este país que já estava ocupado por árabes e estamos estabelecendo aqui um Estado hebraico judeu. [...] Não há um único lugar neste país que não tivesse antes uma população árabe.” (Dayan apud Said, 2012, p. 16).
Este contexto é crucial pois ele não está presente em nenhuma das reportagens do Fantástico durante o mês de outubro; o processo de colonização sionista não é um tema concreto nas edições do programa, que escolhe, deliberadamente, o dia 7 de outubro de 2023 como uma espécie de marco zero para explicar mais uma complexa etapa na relação entre palestinos e israelenses (e aqui é importante ressaltar que o conflito, todavia, é um problema entre palestinos e sionistas, já que nem todo israelense é sionista, e muito menos nem todo judeu é sionista — assim como nem todo judeu é israelense e vice-versa). Contudo, este processo ganha cor e texto nas cabeças das apresentadoras do Fantástico: a cada semana desde o dia 8 de outubro até o final do mês, as aberturas de cada edição edição ou alguns textos que ligam duas reportagens em sequência informam os dados de mortos escalando cada vez mais: mil, 2 mil, 4 mil mortos e mais de 13 mil feridos em Gaza, 6 mil, 8 mil mortos... Os números incluem as vítimas assassinadas pelo Hamas no dia 7 e as assassinadas pelas FDI na resposta sionista, mas a escalada da contagem de vítimas fatais é praticamente toda palestina, conforme as reportagens do Fantástico demonstram ao longo do mês.
Esta contagem, aliás, vem sempre acompanhada de um asterisco, de uma contextualização peculiar: de acordo com as apresentadoras ou as/os diversas/os repórteres que compõem cada edição, os dados de mortos em Gaza são do Ministério de Saúde de Gaza, organização controlada pelo amas. Os dados do lado israelense já não contam com tanto rigor em sua apuração: são dados naturalmente confiáveis, afinal, Israel é um país confiável. Se o Hamas é uma organização terrorista, logo, os dados de mortos vêm de uma organização terrorista, e por isso mesmo não são confiáveis. Esse é um padrão estabelecido há anos e anos, desde que Israel iniciou sua ocupação, conforme demonstram Pappé (2016) e Said (2012): palestinos (e árabes, de uma forma geral) não são dignos de confiança; são naturalmente violentos, propensos ao terrorismo e, neste caso específico, ao ódio contra Israel; suas instituições são corrompidas e corruptas. Além de tudo, ignora-se completamente o contexto histórico, social e político em que o Hamas surgiu, ganhou força, eleições e se tornou uma força de resistência à colonização sionista há pelo menos 20 anos (Foster, 2023, online).
Neste sentido, é notável como as imagens da “guerra” — ou, como preferimos, do massacre — são veiculadas no Fantástico. Se é falta de rigor de apuração, formal, estético ou político, precisaríamos de mais tempo para pesquisar. Vejamos, por exemplo, como Paola de Orte, repórter especializada da Rede Globo em assuntos do Oriente Médio, aparece para contar que Jerusalém está esvaziada. Ela entrevista uma israelense, que afirma estar com medo, tal qual toda a população de Israel, e também um palestino, que enfatiza a necessidade de um acordo de paz entre seu povo e os israelenses. Antes, porém, é assim que Paola de Orte faz sua passagem:
Centralizada no quadro, De Orte divide a atenção na tela com uma poderosa bandeira israelense também mais ou menos no centro da cena. No contexto apresentado, a bandeira, símbolo do Estado-nação em toda a sua grandiosidade, tremula firme, como um prenúncio da vitória sionista sobre o barbarismo de árabes/palestinos que insistem em resistir ao projeto colonial, ecoando os diálogos entre Judith Butler e Gayatri Spivak (2018, p. 37): “[...] para produzir a nação que serve como base para o Estado-nação, essa nação precisa ser purificada de sua heterogeneidade, exceto naqueles casos em que certo pluralismo permite a reprodução da homogeneidade noutra base”.
As bandeiras israelenses são uma imagem recorrente nos quatro episódios do Fantástico, e quase sempre elas aparecem junto a tanques de guerra blindados do exército sionista:
O reforço do poderio bélico de Israel não é uma coincidência: cada incursão no território de Gaza concluída com sucesso é um pedaço de terra palestina a mais anexada ao território israelense. Este é, afinal, o objetivo real4 da resposta sionista ao ataque do Hamas: aniquilar e/ou expulsar o que resta da população palestina em Gaza e tomar posse da terra, conforme Pappé (2016, p. 30-37).
Ele não está sozinho em sua caracterização do projeto sionista do Estado de Israel como do tipo colonialista: Soraya Misleh (2017) e Edward Said (2007; 2012), dentre outros, são pesquisadores que apontam as raízes da colonialidade na ideologia sionista. Ainda assim, o tema “colonização” é pouquíssimo lembrado neste primeiro mês de reportagens do Fantástico. Ainda que o foco central das edições do programa sempre parta do ataque do Hamas (frisamos: sempre tratado como um ataque despropositado, terrorista etc.), invariavelmente elas tocam nos problemas da relação entre palestinos e israelenses — ou, melhor, sionistas —, marcada pela violência desde a criação de Israel em 1948. Contudo, é notável o peso que se dá aos efeitos dessa violência sobre a população judaica, principalmente devido às escolhas das fontes e das imagens.
Uma dessas fontes é um notável sionista, André Lajst. Cientista político, Lajst é também o presidente-executivo da organização não-governamental StandWithUs Brasil, e possui formação acadêmica no Centro Interdisciplinar de Herzliya, da Universidade Reichman, em Israel. Na reportagem do dia 22 de outubro, Lajst cogita, sem apresentar nenhuma prova (e também sem muita apuração da reportagem), que os “túneis do Hamas” provavelmente empilham-se um em cima do outro. Essa ideia ecoa a de outra fonte sionista usada na reportagem, Harel Chorev, professor e historiador israelense, para quem os túneis são uma cidade embaixo das cidades. Para ilustrar o que dizem as fontes, a reportagem conta com imagens cedidas pelas FDI, algumas com mais de 10 anos de idade:
A questão “túneis do Hamas” tornou-se um ponto crucial na criação da narrativa que as FDI estão combatendo o grupo armado e livrando Gaza de sua violência. Cada vez que um míssil do exército israelense atingia uma mesquita, um hospital, uma escola ou algum edifício da ONU, as FDI informavam que túneis do Hamas tinham uma entrada no local. Chorev, na reportagem do Fantástico, enfatiza que o principal ponto de entrada dos túneis era o Hospital Al Shifa, um dos maiores e mais importantes da Faixa de Gaza.
No final da reportagem, Lajst ainda deixa no ar um questionamento que novamente nos faz refletir sobre os reais objetivos sionistas pós-7 de outubro: quem governará Gaza quando o Hamas for enfim derrotado? A pergunta ignora o que a realidade tem mostrado dia após dia: sob o pretexto de acabar com o Hamas, considerado pelas FDI um grupo terrorista, o governo de Israel está dizimando todo um povo, aniquilando sua presença física e simbólica ao destruir seus corpos e seus locais de oração, seus estabelecimentos públicos, seus prédios de serviços etc. Tanto Said (2012), quanto Pappé (2016), apontam que o objetivo final do sionismo não é derrotar um ou outro grupo que apresente qualquer tipo de resistência a seu projeto principal: tomar o território dos palestinos para criar um único território sionista. Neste sentido, é notável que, a despeito do Hamas ter sido criado no final da década de 1980 e optado pelas ações mais violentas a partir da Primeira Intifada5, colonos sionistas já aterrorizavam a população na Cisjordânia desde muitas décadas antes; na Faixa de Gaza, a população vivia sob uma ocupação militar ilegal do exército sionista, que só acabou oficialmente em 2005, com a retirada das tropas, mas mantendo um bloqueio marítimo, aéreo e terrestre. Boa parte dos túneis, aliás, surgiu neste contexto, já que transitar entre o território da Faixa de Gaza e o israelense é uma missão duríssima e altamente vigiada.
Por fim, o dia 29 de outubro marcou o fim do primeiro mês do Fantástico dedicado à cobertura do que se convencionou, no próprio programa, chamar de “guerra de Israel contra o Hamas”. Ironicamente, enquanto o “conflito” escalou drasticamente em pouco tempo, conforme registros da contagem de corpos de palestinos, o programa do último domingo de outubro dedicou muito menos tempo às reportagens dedicadas ao tema.Enquanto nos dias 8, 15 e 22 cerca de uma hora doFantástico se debruçava sobre o assunto, o dia 29 teve pouco mais de trinta minutos. Na cabeça de abertura, Maju Coutinho informa que mais de 8 mil palestinos já morreram, sempre com a ressalva que os números vêm do Ministério da Saúde de Gaza, gerido pelo Hamas; do ladoisraelense, o número estacionou nos 1400, sempre, também, sem nenhuma ressalva: os dados israelenses são naturalmente críveis.
Imagens de Gaza destruída, exibidas reiteradamente ao longo do mês, tomam a tela e dão suporte às reportagens de Paola de Orte, Julia Zaremba e Álvaro Pereira Jr. De Orte novamente usa como fontes porta-vozes das FDI. Essas imagens são recorrentes quando o objetivo é representar a situação da Palestina:
Said (2007) identificou este fenômeno como orientalismo: a ideia de que o Oriente (segundo o autor, uma invenção ocidental) é sempre atrasado, feio, violento, destinado à destruição. As imagens, portanto, são como profecias autorrealizáveis: sem identificar claramente o que é a causa da aniquilação palestina, só nos resta observar como este povo se destrói a cada dia, principalmente devido à presença da organização terrorista Hamas, de acordo com as fontes entrevistadas pelo Fantástico, que corroboram as imagens exibidas pelo programa.
Um outro jornalismo precisa nascer
Que o jornalismo é parte fundamental da interpretação da realidade, não há dúvidas; contudo, esta interpretação sempre esteve condicionada a quem comanda cada veículo. Seria ingênuo continuar insistindo na ideia que o jornalismo é isento e imparcial — com a objetividade, contudo, ainda podemos contar. O primeiro mês que o Fantástico dedicou à cobertura da “guerra contra o Hamas”, no final das contas, reforçou estereótipos árabes (o Hamas é um grupo terrorista, o islã é a regra do Hamas, são violentos, são numerosos etc.) e também ratificou a institucionalização de fontes oficiais sionistas como excelência nas reportagens. Enquanto dados palestinos sempre são contextualizados como “dados do Hamas” — o que é legítimo, já que o Hamas é (ou era) o grupo político que administra Gaza —, o dados israelenses são forças da natureza, críveis per se.
Juntando-se às fontes, e fazendo jus a sua condição de revista eletrônica, o Fantástico explora as consequências da guerra — que, conforme apontamos anteriormente, consideramos um massacre — com imagens que reforçam o que Mondzain (2022, p. 45) chama de “traços da memória colonial”: neste caso, uma memória que evoca, desde sempre, a violência, considerando a forma como se deu a fundação do Estado de Israel através da limpeza étnica de palestinos (Pappé, 2016). Não à toa, em várias das reportagens as ações organizadas do Hamas e outras de pessoas que simplesmente joguem pedras contra tanques blindados sionistas são tratadas como radicais, exemplificando exatamente o que Mondzain (2022, p. 44) considera um mau- uso do conceito da radicalidade:
A consequência desastrosa desse pensamento da “desradicalização” é a confiscação do pensamento da radicalidade em benefício do uso bélico e policial que inelutavelmente associa a radicalidade ao exercício do terror. Esta associação não é menos grave, pois bloqueia qualquer análise histórica e política da deriva assassina e suicidaria de toda uma população perdida. Essa perda talvez designe apenas uma desorientação da radicalidade.
Assim, ao buscar retratar o “conflito” Israel-Palestina a partir de uma marcação temporal datada no dia 7 de outubro, e sempre utilizando o enfoque sugerido (deliberadamente ou não) das Forças de Defesa de Israel, o Fantástico é incapaz de retratar o povo palestino como sujeitos de sua própria história: é um povo relegado ao governo radical e extremista dos muçulmanos do Hamas. A resposta sionista, portanto, é justificada e legítima — pelo menos segundo as reportagens de outubro do programa global.
Referências bibliográficas
Butler, Judith; SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Quem canta o Estado-nação? Língua, política, pertencimento. Brasília: Editora UnB, 2018.
El Cheikh, B. Quando é a Palestina? O tempo palestino através da ficção científica de Larissa Sansour. 2022. Dissertação (Mestrado em Comunicação) — Programa de Pós- graduação em Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2022.
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Foster, Zachary. How israeli violence radicalized Hamas. In: Zachary Foster, Palestine Nexus. 15 dez. 2023.
Israel’s war on Gaza deadliest conflict ever for journalists, says report. Al Jazeera. Doha, 2 abr. 2025.
Lazaroff, Tovah. Netanyahu under fire for using Greater Land of Israel map at UN. Jerusalém Post, Jerusalém, 22 set. 2025.
León, Lucas Pordeus. Relatora da ONU diz que Israel comete genocídio na Faixa de Gaza. Agência Brasil. Brasília, DF, 25 mar. 2024.
Misleh, Soraya. Al Nakba: um estudo sobre a catástrofe palestina. São Paulo: Sundermann, 2017.
Mondzain, Marie-José. Confiscação das palavras, das imagens e do tempo: por uma outra radicalidade. Belo Horizonte: Relicário, 2022.
Musse, Christina et al. A representação de crianças no conflito Israel-Hamas no Fantástico. In: RÊGO, Ana Regina et al. (org.). Mídia e dimensões do tempo. Teresina: EDUFPI, 2024. p. 683-705.
Nakba of 1948 and Today Are Not Separate Events, but Ongoing Process of Palestinian Displacement, Replacement, Speakers Tell Panel, Urging Immediate Ceasefire in Gaza. UN. 17 mai. 2024.
Pappé, Ilan. Dez mitos sobre Israel. São Paulo: Tabla, 2022.
Pappé, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2016.
Rouleau, Eric. Israel face à sua história. Diplomatique Brasil. São Paulo, 4 mai. 2009.
Said, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Estes dados estão em uma macabra constante atualização. Até setembro deste ano, eram 248, segundo cálculos do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR). Parte desses profissionais foi assassinado em casa e em circunstâncias não ligadas à profissão, ainda que continuem a ser jornalistas; porém, uma boa parte está sendo assassinada por Israel enquanto exercem suas atividades jornalísticas. É importante, também, ressaltar que Israel bloqueou o acesso de jornalistas estrangeiros à Faixa de Gaza; na prática, o que temos de reportagem in loco vem de jornalistas palestinos, sujeitos ao extermínio.
Há quem considere que a Nakba de 2024 seja uma continuidade da do século passado, entendendo que o processo iniciado pela colonização sionista em 1948 ainda não acabou, como é o caso da Organização das Nações Unidas em seu artigo Nakba of 1948 and Today Are Not Separate Events, but Ongoing Process of Palestinian Displacement Replacement, Speakers Tell Panel, Urging Immediate Ceasefire in Gaza.
A geração de historiadores da qual faz parte Ilan Pappé reinterpretou o mito da independência israelense a partir de documentos do exército que foram finalmente publicados após décadas de sigilo. Os documentos deixaram claro a forma de ataque sionista contra a população local, que envolvia, dentre outras técnicas, o cercamento de vilas por três lados, deixando apenas uma possibilidade de rota de fuga, e também o massacre de homens. Ver Israel face à sua história e também os livros de Pappé (2016; 2022).
Ao longo dos meses, com as imagens da Faixa de Gaza ganhando cada vez mais destaque, foi se revelando, em alguns discursos de líderes sionistas, a ideia de estabelecer a Grande Israel a partir da “guerra contra o Hamas” — e, antes mesmo do ataque do Hamas, Netanyahu apareceu segurando um mapa representando essa ideia na 78ª Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2023. A Grande Israel é um projeto que mistura conceitos bíblicos e históricos sobre o que é, afinal, a Terra de Israel. O resultado prático desta ideia, conforme especialistas, é a expulsão total de palestinos de seu território definido pela Resolução 181 da ONU, bem como a anexação das Colinas de Golã e de Jerusalém Oriental.
Intifadas são insurreições populares palestinas contra a ocupação sionista em Gaza, na Cisjordânia e na cidade de Jerusalém Oriental. A primeira aconteceu em 1987, em Gaza, quando um motorista israelense atropelou e matou quatro palestinos. As FDI responderam à revolta com mais violência, provocando centenas de mortes ainda no primeiro ano.






