Dois anos depois do genocídio palestino...
...continua o genocídio palestino...
Não é à toa que às vésperas de uma aterrorizante efeméride a máquina sionista de propaganda e vitimização esteja mais forte do que nunca, em pleno funcionamento: nada menos que três obras de fantasia fascista estrearam recentemente em alguns streamings por aí. Na HBO Max, estreia One Day In October, uma ficção no estilo mosaico que entrelaça “[…] sete histórias interligadas de amor, coragem, sacrifício e sobrevivência.”; no Paramount+, Red Alert segue o mesmo caminho: um mosaico de pessoas que sofreram os ataques do “grupo terrorista Hamas”; e no Prime Video, October 7th vem com um apelo emocionadíssimo em seu cartaz de divulgação oficial:
Peço a todos que tenham capacidade mental e emocional que assistam. Por favor!
O apelo é de uma tal Sofia Miryam, “espectadora israelense”. Eu não sei se Sofia Miryam é uma pessoa real — e considerando a quantidade monumental de mentiras que Israel espalhou desde o 7 de outubro de 2023, é provável que não seja —, mas gostaria de saber se ela também tem algo a dizer a respeito das imagens violentíssimas e grotescas que inundam jornais, redes sociais e os cinemas desde a resposta de Israel ao ataque do Hamas. A resposta é não, é claro: já cansamos de trombar aqui e ali com notícias dando conta da terrível fascistização da sociedade israelense, completamente atolada na ideologia sionista, que corrompe os valores judaicos em nome de um projeto supremacista e colonial.
Nesses dois anos que marcam o genocídio do povo palestino muita coisa mudou: a opinião pública se volta cada vez mais contra as atrocidades israelenses, ainda que com uma certa relutância e atrasado; a comunidade acadêmica internacional continua sendo um dos bastiões de resistência anticolonialista; ativistas dos direitos humanos e pró-Palestina de todas as partes seguem lutando para que o Estado sionista seja responsabilizado por seus crimes contra a humanidade; a ONU e outras organizações reconheceram oficialmente o genocídio palestino; a UEFA cogitou (o que já é um grande passo, convenhamos) banir Israel de suas competições — mas ainda não o fez, mantendo seu duplo-padrão moral no quesito “conflitos”; e, é claro e mais importante, o sumud do palestino fincou os dois pés no território de Gaza para dizer chega de colonização, ainda que isso custe, como vem custando, a vida de cada palestino.
A única coisa que não mudou nesse meio tempo é a desfaçatez de sionistas e seus aliados para tentar, um tanto inutilmente, outro tanto com muita eficiência, controlar a narrativa vitimista perseguidos por todo mundo. Já tentaram, por exemplo, acusar de antissemitas meio mundo de gente, uma acusação seríssima que serve, neste momento, para interditar qualquer possibilidade de conversa franca sobre o ataque do Hamas — sempre condenável e lastimável — e a resposta israelense — ainda pior, em todos os sentidos possíveis.
As imagens do 7 de outubro que as novas produções estilo Hollywood prometem entregar se esquecem de um detalhe: o fogo amigo, aquele disparado pelas Forças de Defesa de Israel, causou boa parte das mortes durante o ataque do Hamas. Já não é segredo que Israel ativou a Doutrina Hannibal e colocou em perigo a população civil no dia do massacre. Para salvar seus soldados, as FDI escolheram contra-atacar com força total sem se preocupar em deixar ninguém vivo, conforme aponta a reportagem IDF Ordered Hannibal Directive on October 7 to Prevent Hamas Taking Soldiers Captive, de Yaniv Kubovich, no Haaretz:
A mensagem transmitida às 11h22 pela rede da Divisão de Gaza foi compreendida por todos. “Nenhum veículo pode retornar a Gaza”, foi a ordem. […] Esta não foi a primeira ordem dada pela divisão com a intenção de impedir sequestros, mesmo que isso custasse a vida dos sequestrados, um procedimento conhecido no exército como “procedimento Hannibal”.
(Ainda em 2023, já havia uma desconfiança por parte de muita gente sobre quem causou o quê durante o ataque do Hamas. A destruição vista logo após o ápice dos tiroteios e das ações do grupo não estava de acordo com o tipo de armamento usado na operação de invasão de centros militares e no festival de música: carros e casas completamente queimados e em escombros).
A cereja do bolo da hipocrisia nestes dois anos do genocídio veio agora, com os planos de Donald Trump que, de repente, tornou-se um Amigo da Paz (e conta com a cobertura sempre benevolente do jornalismo mainstream ocidental, como o G1, que apresentou o plano de Trump para o encerramento da “guerra” numa diagramação cheia de emojis alegres). Num encontro que poderia estampar a capa da revista do Tribunal Penal Internacional, Trump e Benjamin Netanyahu decidiram o futuro da Palestina, sem se importar muito em ouvir os palestinos — neste sentido, pelo menos os acordos anteriores, como Camp David e Oslo, fingiam algum compromisso de fato com a população palestina.
A promessa do acordo é daquele tipo que inglês adora ver, e não é coincidência que outro criminoso de guerra tenha se entusiasmado tanto com ele, a ponto de também garantir um assento no Conselho da Paz (presidido, é claro, pelo Rei da América): Tony Blair será o condutor do governo transitório de Gaza, durante um período de, a princípio, dois anos. Só pra ver se vai dar tudo certo, é claro; afinal, Blair é um especialista em questões espinhosas como árabes e Oriente Médio. Sua notável atuação durante a malfadada Guerra ao Terror entrou pra história como uma das piores possíveis, com direito a mentir descaradamente no parlamento britânico acerca das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein.
Não há nenhuma garantia que Netanyahu vai de fato cumprir os termos do acordo que selou com Trump na Casa Branca. Não há nenhuma evidência que dê suporte a essa ideia, já que Netanyahu e Israel descumpriram e descumprem todos os acordos e resoluções já feitas sobre a situação palestina. Desde 1948, quando da criação do Estado de Israel, até hoje, nada foi cumprido conforme acordado em diversas situações, encontros, assembleias etc. Pelo contrário: todas as vezes que Israel foi solicitado a abrir mão de seu projeto colonialista, ele acelerou a violência de ataques e assentamentos em Gaza e na Cisjordânia.
Para supostamente encerrar um projeto colonialista, nada melhor que chamar um autêntico representante de uma das maiores potências coloniais da história, não é mesmo?
Números do genocídio
Al Jazeera compilou alguns números terríveis destes dois anos de extermínio palestino. Diferentemente da hasbara sionista, a realidade se impõe, e os dados crus mostram o tamanho da destruição perpetrada por Israel. É um sistema único de aniquilação, tão elaborado quanto os piores exemplos que temos na história: ao transformar toda a infraestrutura e todo o povo palestino em militantes do Hamas — logo, sob a ótica oficial israelense, terroristas —, as Forças de Defesa de Israel (e seus parceiros de crime como o Shin Bet e o Mossad) destruíram praticamente toda a Faixa de Gaza: hospitais, escolas, centros de ajuda humanitária, edifícios da ONU, casas e mais casas e mais casas. Além de tudo, proibiram a livre circulação de jornalistas, e os que insistem em permanecer e testemunhar, também são alvos.
Oficialmente, um em cada 33 palestinos morreu; destes, quase um terço é são crianças, o equivalente a uma criança assassinada a cada hora. Um em cada 14 palestinos está ferido; entre 3 e 4 mil crianças estão sem algum membro. Israel deliberadamente causou fome em Gaza, e matou mais de 450 pessoas. 125 hospitais e centros médicos foram completamente destruídos, e mais de 1200 profissionais de saúde foram assassinados. Não há mais nenhuma estrutura educacional em Gaza: todas as universidades foram destruídas por bombardeios. Por fim, mais de 300 profissionais de jornalismo foram assassinados enquanto trabalhavam.
Nada disso começou em 7 de outubro.
O sionismo deve ser destruído.



