Catadão de setembro (sim, atrasou de novo!)
Indicações (e às vezes reflexões) com algum compromisso (parte 9/12)
Fui avisado que esta publicação está demasiado extensa para o e-mail; assim, convido todo mundo a abrir o texto no app ou no navegador. Tem outras duas indicações muito melhores do que o péssimo filme de Kathryn Bigelow — que, apesar de ruim, vale uma visada nem que seja no Stremio…)
Nunca imaginei que veria um filme cujo personagem principal é um míssil — e que ainda teria que torcer para a bomba atingir o alvo, uma das mais importantes cidades dos Estados Unidos da América. Ou não era esse o ponto principal de Casa de Dinamite (2025)? Talvez tenha entendido errado e me passei um pouco, peço desculpas…
Kathryn Bigelow retornou à direção de longas em grandiosíssimo estilo. Tão grandioso quanto antiquado. Sei lá, parece que o tempo de fazer filmes exaltando o poderio bélico estadunidense passou, e ela não percebeu. Parece que ficou presa no tema que a consagrou no mainstream e lhe rendeu um inédito Oscar de Melhor Direção em 2010
(Não deixa de ser simbólico que a primeira mulher a vencer um Oscar pela sua direção tenha sido justamente Bigelow e seu Guerra ao Terror, que ao menos, se a memória não está me traindo, trata do tema “EUA só está se defendendo” com muito menos cinismo e desfaçatez do que este péssimo Casa de Dinamite).
Dividido sob as perspectivas de quatro personagens (ou são três? Pouco importa: são todas muito ruins), Bigelow adotou uma forma narrativa estilo mosaico, em que cada visão vai se complementando à medida que o tempo do filme passa. Assim, vemos os poucos minutos que separam um míssil nuclear intercontinental disparado pela Coreia do Norte (ou pela Rússia, ou pela China, ou por qualquer oriental indistinto, não importa, eles são todos inimigos e querem destruir a gloriosa terra dos bravos e livres pra impor o islã a todo mundo e nenhuma mulher mais poderá nadar na praia de biquíni e zás…) de atingir seu alvo, Chicago, se desenrolarem a partir de quatro historinhas guiadas por personagens que se dividem em trabalhos no alto escalão da Defesa estadunidense.
Se apostasse apenas nisso, talvez o filme ainda fosse aceitável. Teríamos uma obra focada em como megalomaníacos orientais que detêm bombas atômicas são uma ameaça à segurança mundial (dos EUA) enquanto este maravilhoso e pacífico país faz de tudo para manter o mundo (os EUA) na mais idílica tranquilidade possível (claro, com uma pequena ajuda de mais de 800 bases militares espalhadas pelo globo terrestre, que garantem ataques em países subdesenvolvidos ao gosto do facínora da vez que ocupa a Casa Branca).
Seria, também, um filme que mostra a rotina burocrática e enfadonha nos escalões mais preciosos do Estado estadunidense. Como é, por exemplo, que se toma uma decisão em Washington ou algum centro militar estratégico nos EUA sobre temas que podem mudar os rumos das relações entre países diversos mundo afora? A personagem de Rebecca Ferguson encarna isso com maestria: sua rotina chatinha é abalada completamente quando se vê às voltas com o dever de tomar decisões que impactam milhões de pessoas no resto mundo (nos EUA).
O primeiro terço do filme, no entanto, que é onde se encaixa Ferguson, já se mostra fora do tom e traz a boa e velha narrativa de guerra hollywoodiana que nos faz ter dó de soldados treinados para a aniquilação de pessoas racializadas na América Latina (abraços da Venezuela) e no Oriente Médio (alô, alô, Gaza!), por exemplo. O soldado que vomita quando se vê frente à frente da destruição de uma das maiores e mais importantes cidades dos Estados Unidos da América encarna um sentimento que, hoje, não cola mais. Ninguém tem dó desses soldados, ninguém se importa muito com suas famílias. Não é como se estivessem ali obrigados…
De resto, sobram diálogos lamentáveis que parecem saídos de um manual de roteiro para iniciantes. A sequência focada no Presidente, interpretado por Idris Elba, é risível. É um tanto óbvio que a ideia ali é retratar “o homem mais poderoso do mundo” como um ser totalmente falho e inseguro; a comicidade já não tenho certeza se foi tãããão proposital.
(Ah sim: o filhinho da capitã Olivia Walker (Ferguson) lhe entrega ainda no começo do filme um dinossauro de brinquedo, uma miniatura, que ela leva para o trabalho. Destruição dos dinossauros, destruição do planeta, sacaram? Hã, hã? Pois é…)
No final do filme eu refleti sobre algo que ouvi na mesma semana no queridíssimo Viracasacas, quando Caio Almendra, Gabriel Divan e Felipe Abal conversaram sobre Reagan (2024): quanto, em Casa de Dinamite, precisaria mudar para se tornar uma paródia? A resposta é: muito pouco. Com um ajuste aqui e ali, teria sido um excelente deboche sobre um país que trata todos os outros como inimigos, adversários, alvos e colônias e suas decisões atabalhoadas e violentas; contudo, e a trilha sonora inclusive não nos deixa esquecer, Bigelow entrega uma pérola reaça, muito mais ligada à tradição orientalista e racista do que qualquer outra coisa. Afinal de contas, apesar do medo e tensão sugeridos pelo filme do disparo de uma bomba atômica por parte desses comunistas safados do outro lado do planeta, até hoje a única experiência de fato de um ataque dessa magnitude veio justamente de quem aponta todos os outros como inimigos a serem derrotados.
Leiam A mulher habitada
Comecei a ler A mulher habitada, logo depois de O parque das irmãs magníficas, um livrinho tão magnífico quanto as histórias que contém. Acho que o algoritmo do Kindle Unlimited (que de ilimitado, como bem sabemos, não tem absolutamente nada, muito pelo contrário) pensou “ah, é literatura latina que você quer? Pois tome”. Porém, não posso culpar o algoritmo, porque as sugestões foram boas, e fui parar no primeiro romance da nicaraguense Gioconda Belli. Logo de cara, quando aparece o primeiro Fáguas no lugar de Manáguas, dá pra sacar que vem coisa boa nas próximas páginas.
Antes de tudo, preciso confessar que leio muito pouco do esplendoroso universo literário latino-americano, e isso é vergonhoso. Afora os clássicos incontornáveis (e, não coincidemente, quase sempre homens), como um Gabriel García Marquez ou um Pablo Neruda da vida, conheço pouquíssimo da riqueza das letras de nosso continente. Tanto O parque… quanto A mulher habitada foram duas obras deliciosas de ler, que me estão fazendo mudar aos poucos esse quadro um tanto triste.
(Já comentei o livro de Camila Sosa Villada em um post aqui, em junho. Foram breves palavras pelo tempo corrido, talvez mais pra frente valha a pena retornar ao livro dela, pois é muito marcante).
Tentarei ser o mais breve possível, pois gastei quase tudo que me resta de cérebro pra escrever sobre o terrível filme de Kathryn Bigelow. A mulher habitada é um romance que se passa na Nicarágua, no contexto da ditadura da dinastia Somoza e o combate da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). A protagonista, Lavínia, é uma arquiteta rica, que depois de concluir os estudos na Europa — o sonho molhado da classe —, retorna para seu país e sua cidade natal, buscando, é claro, fazer a diferença. Até a última página, Lavínia é um poço de contradições, e daí vem toda a riqueza do livro.
Três pontos pra te convencer a ler este livro de Gioconda, no qual ela mistura parte de sua própria história de vida na militância sandinista vinda de uma família de classe média nicaraguense:
Gioconda é poeta, e o livro é permeado de poesia, principalmente nas partes em que a árvore, uma laranjeira que nos faz sentir seu aroma, conta sua história, a história da família de Lavínia, da própria Lavínia e a história de colonização da Nicarágua. Como todo processo colonial, o país ainda hoje sofre os reflexos da usurpação de suas riquezas por potências europeias e, depois, pelos estadunidenses; assim, vamos descobrindo, aos pouquinhos, através da laranjeira (que encarna uma mulher ancestral), a história de Fáguas/Nicarágua. Assim, é com muita poesia que Gioconda enlaça a história massacrante e brutal da colonização espanhola no continente;
Lavínia expõe as agruras e as delícias do movimento revolucionário, e mostra como o amor é fundamental não só para se relacionar com quem se gosta, mas para combater regimes autoritários e violentos como o de Somoza. São marcantes, por exemplo, as passagens em que ela confronta o machismo dos revolucionários, altamente capacitados para defender o povo da opressão ditatorial, mas incapazes de compreenderem coisas básicas como divisão do trabalho por gênero;
O último capítulo é das melhores coisas que já li de literatura de ação em minha vida. Gioconda faz uma peça de tirar o fôlego. Toda a preparação e transformação de uma mulher rica com consciência de seus privilégios e da extrema desigualdade que assola seu país e, principalmente, sua cidade natal, em uma guerrilheira é excelente, mostrando um processo de desconstrução e reconstrução da personalidade de Lavínia que culmina numa ação direta final catártica.
Vou deixar aqui um material complementar sobre a Revolução Sandinista e do contexto sócio-política da Nicarágua. O primeiro é mais curto, do Breno Altman lá no canal do Opera Mundi:
O segundo é do Icles Rodrigues, um professor sensacional, com mais detalhes e mais informações, um trabalho denso e bem completo sobre o assunto:


