Catadão de outubro
Indicações (e às vezes reflexões) com algum compromisso (parte 10/12)
Meu próximo passo na vida é aprender a revelar filme em casa.
Saiu quentinho mais uma série de negativos que mandei para revelação, dessa vez na lojinha Festival de Filmes Vencidos (que mudou de lugar e ficou muito chique, diga-se de passagem). Ainda não ampliei nenhuma foto que achei boa o suficiente pra ganhar uma impressão em papel de qualidade, aqueles de algodão grosso, pra emoldurar e botar na parede da sala.
Creio com cada vez mais certeza que nada melhor poderia acontecer pro mundo se a gente voltasse a vida pelo menos uns 50% pro modo analógico. Esses dias, vendo umas palestras institucionais na nova firma, fiquei mais certo disso ainda: a reclamação generalizada de correria e ansiedade é impressionante (e, todavia, ninguém consegue não-responder uma mensagem de trabalho enviada num domingo à noite, algo que certamente poderia ser enviado — e respondido — no dia seguinte).
Todo o processo que envolve fotografar com filme é um antídoto: primeiro, comprar o filme, que não tá barato há um bom tempo; depois, esperar ele acabar, já que não dá pra tirar foto no filme e sair publicando ou apagando se ficou ruim; aí tem que revelar, que no meu caso de agora demorou uns cinco dias; daí, pega as fotos digitalizadas e vê que metade delas salva, e olhe lá. Enquanto isso, na galeria de imagens do celular, deve ter mais de mil se avolumando feito um aterro sanitário mal tratado.
O filme da vez tem duas pequenas pérolas de Montes Claros, de uma viagem que fiz à trabalho, em junho, e o restante bem de Dores do Indaiá, terra do Congado, cidade de uma das mais brilhantes e importantes festas dedicadas a Nossa Senhora do Rosário nesse país, tiradas em agosto. Nenhuma das fotos que segue tem tratamento.




Umas das minhas preferidas dessa revelação é um registro singelo de congadeiros subindo uma ladeiras de Dores do Indaiá em direção ao Morro da Capelinha, onde está a Capelinha de São José — essa da foto com os estandartes “SALVE MARIA”. É uma capela muito, muito modesta, mas que representa um marco crucial durante os festejos de agosto, que honram o sincretismo congadeiro:
Literatura anticolonialista? Me vê 10…
Já disse que de vez em quando o algoritmo acerta em cheio, especificamente o do Kindle Unlimited (isso não é propaganda: esse negócio de ilimitado não tem nada, ao contrário, é extremamente limitado, quem usa, sabe). Tão logo terminei de ler A mulher habitada, romance que mistura biografia da autora, Gioconda Belli, com a história da Nicarágua e seu passado-presente colonial, Jeff Bezos tacou um tal Como tigres na neve, de Juhea Kim. E se eu confessei que pouco lia literatura latina, vocês imaginem literatura daquela beirada da Ásia…
O melhor de tudo é que os dois tocam em temas que pesquiso: colonização. Já não é de hoje que nós, que nos debruçamos sobre o tema seriamente (pelo menos seriedade eu garanto nas minhas pesquisas), falamos das repercussões que os processos coloniais têm ao longo do tempo. Uma característica marcante do colonialismo é que ele cria seu próprio regime temporal — é por isso que volta e meia prefiro usar o termo colonialidade. A colonização de um território, onde quer que seja, em qual século ocorra, jamais termina quando acaba.
Achille Mbembe já falava do pequeno segredo das potências europeias que retalharam o continente africano lá atrás, exprimindo como a violência colonial psicológica às vezes é pior do que a violência colonial física, já que se estende pelo tempo ao longo das gerações, que transmitem os traumas. Rita Segato não ficou atrás quando estudou a violência colonial no continente americano, notadamente sobre as populações originárias. Edward Said, meu guia maior, expressou em seu orientalismo os efeitos nefastos das explorações britânicas e francesas no que se convenciou chamar de Oriente Médio — ou Oriente Próximo, como chamavam em séculos passados.
A colonização pode variar na forma e na estética, na intensidade dos saques e estupros e assassinatos; pode variar nos tipos de ferramentas utilizadas para controlar populações e territórios: expulsões? Aprisionamentos? Aniquilamentos?; pode variar nos objetivos políticos mais imediatos: vai criar entrepostos comerciais ou vai dominar a região? O que não varia é o seu resultado final, compartilhado pelos povos racializados (porque o racismo é irmão de sangue do colonialismo — e do capitalismo, é claro!) mundo afora que foram usados como joguetes descartáveis da missão civilizatória do continente europeu: morte, violência e trauma.
Não deixa de ser um tanto simbólico que tenha terminado de ler Como tigres na neve justo quando uma “polêmica” tomou conta de redes sociais no Brasil: um famoso político de extrema-direita, que até ontem estava se regozijando com as atrocidades bolsonaristas, postou uma foto em que aparece empunhando um revólver, vestido de soldado, sob uma tremulante bandeira do sol nascente do Império japonês — uma bandeira carregada de significados nefastos para a Coreia do Sul, de onde Kim fez brotar seu romance de estreia.
Dividido em diversas pequenas narrativas a partir de vários pontos de vista que se cruzam, o livro apresenta personagens instigantes e bem complexos, sem cair em maniqueísmos redutores. Trata, por exemplo, de temas caros e importantíssimos quando falamos de colonização, como o colaboracionismo das elites locais e de pessoas que desejam ardentemente uma ascensão socioeconômica, ou as impressões do poder ocupante que consiga refletir minimamente sobre as formas de tratamento da população que massacra diariamente, seja literalmente, através de assassinatos, seja condenando-a à fome.
No meio disso tudo, a rotina das cortesãs coreanas é o fio condutor de todo o livro, por meio da personagem Jade, que encarna a ascensão e declínio de um estilo de vida marcado por contradições, violências e prazeres. Aliás, cortesãs coreanas me fez pensar que em momento algum lemos a diferenciação “do Norte” ou “do Sul”, uma divisão arbitrária imposta durante o período pós-Segunda Guerra. A forma livre com que Kim escreve sobre os trajetos entre Pyongyang e Seul nos faz pensar num outro mundo possível e desejável.
Como tigres na neve é, por fim, também uma exaltação do poder popular e das necessidades de se respeitar a autodeterminação dos povos. Acima de tudo, Juhea Kim nos lembra, assim como Gioconda Belli, que o amor pode, sim, ser uma poderosa arma contra a violência colonial.





