Catadão de junho
Indicações (e às vezes reflexões) sem nenhum compromisso (parte 6/12 — finjam que é junho)
Eu odeio a América, Louis. Eu odeio este país. Nada além de um monte de grandes ideias e histórias e pessoas morrendo, e depois pessoas como você. O cara branco que escreveu o Hino Nacional sabia o que estava fazendo. Ele elevou a palavra "liberdade" a uma nota tão alta que ninguém conseguia alcançá-la. Isso foi deliberado. Nada na Terra soa menos como liberdade para mim. Venha comigo para o Quarto 1013 do hospital e eu te mostro a América. Terminal, louca e cruel. Eu moro na América, Louis. Não preciso amá-la.
Eu confesso que arrepiei um pouco com esse texto de Belize, interpretada brilhantemente por Jeffrey Wright em Angels in America — e acho que a Bia também arrepiou um pouco, porque quando ouvimos a reação foi quase a mesma. Num tempo em que Donald Trump volta ao poder ainda mais fascista (é possível ser mais ou menos fascista?), aplicando tarifas arbitrárias e ameaçando Deus e o mundo enquanto sabe muito bem que seu nome consta da listinha de pedófilos mais famosa do universo, ver Angels é uma experiência e tanto…
Já tinha começado a assistir a minissérie por indicação em um episódio do Viracasacas (não me lembro qual), daí parei, daí outro dia em outro episódio (esse eu me lembro, tá aí embaixo) indicaram de novo e pensei “é um sinal”. Não era um sinal, diferentemente do que Prior (Justin Kirk) costuma enxergar em sua cruzada pós-diagnóstico soropositivo para HIV. Sua personagem profética nos diz hoje, e também quando foi lançada, muito do que vivemos. O mundo estadunidense é um Quarto 1013: terminal, louco e cruel — muito cruel, eu diria.
O 1013 guarda um paciente que é a síntese do Mau: Roy Cohn, interpretado pelo sempre muito bom e estridente Al Pacino. O tamanho de sua derrocada é diretamente proporcional ao tamanho de seu ego inflacionadíssimo: é um muito bem-sucedido advogado que se orgulha de ser racista e anticomunista. Exibe orgulhosamente no currículo a execução de Ethel Rosenberg, em mais um imbricamento entre fatos e ficção de Tony Kusher, que também joga o tempo todo com a temporalidade da série originada de sua peça de teatro: Ethel foi executada em junho de 1953 junto com o marido, Julius. Ambos foram acusados de conspiração para espionagem pelos EUA, supostamente fornecendo informações do projeto atômico estadunidense para a União Soviética (um crime que, se foi mesmo cometido, é belo e moral).
Não tem como não odiar a América.
A não ser que você seja um covarde de sobrenome Bolsonaro…
Enquanto isso, na América do Sul
Às vezes, quando leio coisas que não vão servir em nada pra pesquisa (e que vão servir imensamente pra vida), vou adiando o fim da leitura pra não acabar logo, e poder ficar com o gostinho na boca o quanto puder. Isso acontece toda vez que começo um livro de Ursula K. Le Guin — e eu comecei outro, Os despossuídos. Mas não é dele que vou falar agora; minha amiga finalista do prêmio Oceanos em 2023, Nathalia Lima (o blog dela tá aí embaixo, leiam, se increvam!), me indicou uma pérola maravilhosa: O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada. Ler esse livro no país que mais mata travestis traz um gosto amargo, principalmente considerando o último conto, absurdamente arrebatador e triste.
Poucas vezes temos algo tão violento quanto feliz como O parque…. São nove histórias curtas partindo duma espécie de auto-ficção da autora, todas protagonizadas e entrelaçadas por uma pensão de travestis em Córdoba. Cenas do cotidiano se misturam com as grandes questões da humanidade — e se tem algo que Sosa faz questão de frisar de cabo-a-rabo no livro é que elas são humanas, muito humanas.
O livro foi relançado pela Cia das Letras com o título mais próximo ao original, Las malas —> As malditas. Particularmente, preferia a poesia do título anterior, mas o que importa, não é mesmo?
Deixo aqui uma entrevista com Camila Sosa Villada quando da passagem dela pela Flip, em 2022, para lançar Sou uma tola por te querer, em que ela dá uma verdadeira aula sobre literatura (este livro, aliás, está “de graça” no Kindle Unlimited — não, não ganho nada com isso, viu?)



