Catadão de julho
Indicações (e às vezes reflexões) com algum compromisso (parte 7/12)
É muito provável que em 2048, no triste aniversário de 100 anos da Nakba, veremos André Lajst ou algum outro sionista tarado qualquer dando entrevista — ou, melhor, mentindo — para uma claque de liberais travestidos de jornalistas na GloboNews, enquanto afirma que o Hamas está se escondendo no subsolo do mais novo resort cinco estrelas instalado na orla de Gaza, e que por isso mesmo foi necessário assassinar todos os funcionários do hotel e impedir mais um ato terrorista muito, muito mau. Isso se em 2048 restar algum palestino, do Hamas ou não, pra contar a história local…
2048 é justamente o tema de uma pequena e arrebatadora coletânea de contos (não tão) ficcionais chamada Palestine +100, organizada por Basma Ghalayini (ainda sigo sem compreender porque nenhuma editora brasileira pegou essa pérola para traduzir por aqui). O subtítulo dá o tom do que nos espera: Stories from a century after the Nakba. Pelo menos um deles tem uma adaptação cinematográfica que dá pra ver no Filmicca, A Chave, um curta que não deve em nada para sua versão literária. São 12 pequenas histórias, quase sempre partindo da ficção-científica e temperadas com algumas doses de horror, que costuram memória, trauma, testemunho, colonialidade, antissionismo e possibilidades de imaginar um futuro palestino diferente.
Se, como nos lembra Shaira Vadasaria em sua tese de doutorado, a população palestina é como uma ideia de refugiados em si mesma, Palestine +100 nos impele a pensar que estes refugiados têm a Palestina como seu Norte, e o carregam consigo onde quer que estejam, pois só vão sossegar quando o regime que os expulsou ruir completamente. Se, como a pesquisadora também faz questão de nos lembrar, e como vemos em In vitro, o trauma palestino passa de mãe para filha, de geração a geração, também é transmitido o poder de resistir e lutar contra o sionismo através da imaginação. “Na vida de um refugiado, cada dia que se passa longe da Palestina é aquele que eles acreditam que os deixa um dia mais perto de seu retorno”, nos diz Ghalayini (2022, viii).
Os contos do livro também compartilham uma outra característica com os filmes sci-fi de Sansour, analisados neste blog: ainda que saibamos se tratar de obras antissionistas e engajadíssimas na defesa da autodeterminação do povo palestino, o sionismo, e sua materialização através do Estado de Israel, de fato aparece muito pouco, e não raro às vezes sequer é citado, às vezes dá as caras numa metáfora inspirada. É mais fácil encontrar representações que respeitam israelenses como sujeitos com agenda e complexos, o que torna os contos ainda mais ricos e, muitas vezes, difíceis de digerir — principalmente para quem procura respostas fáceis para assuntos difíceis.
Por fim, e ecoando os ensinamentos de Ursula K. Le Guin (se você ainda não leu uma das maiores escritoras de sci-fi que este mundo já viu, corra, pois um mundo completamente novo vai se desvelar pra você) no prólogo de A mão esquerda da escuridão, a coletânea de distopias e utopias que Basma organizou utiliza das possibilidades imaginativas da tela em branco do futuro para escrever os problemas e as reflexões do presente. É um livro para se pensar o centenário da Catástrofe palestina, mas é, acima de tudo, um livro sobre a Catástrofe palestina, esta em curso, esta que se materializa no genocídio de agora, urgente, na fome que Israel causa com sua sanha destruidora e colonial.
Relatos do chão de Gaza
Por falar em coletânea, em breve devo me debruçar sobre uma particularmente esplêndida em suas formas e temas: From Ground Zero (2024), idealizada por Rashid Masharawi e produzida por ele e Laura Nikolov. São 22 curtas que vão do experimental ao documental, todos realizados por jovens cineastas palestinas e palestinos. Pra variar, o filme sofreu ataques sionistas alegando o lenga-lenga de sempre: antissemitismo, anti-Israel etc., etc. etc. Pra variar, o glorioso Festival de Cannes retirou o filme de exibição, marcada para sua 77ª edição, em maio do ano passado. Masharawi, então, organizou uma exibição fora do badaladíssimo circuito da riviera francesa. Quem protagonizou essa patacoada foi o covarde Thierry Frémaux, organizador-chefe do Festival.
[...] Masharawi decidiu organizar uma exibição separada em protesto. Do lado de fora do recinto do festival, Masharawi montou uma tenda e, vestindo um terno com uma gravata feita de keffiyeh palestino, exibiu o From Ground Zero.
Infelizmente (e eu duvido muito que isso vai mudar no futuro próximo), o filme não teve lançamento aqui no Brasil. Como não foi exibido em Cannes e também não foi selecionado pro Oscar 2025, as distribuidoras brasileiras não se interessaram muito por um filme sobre um genocídio transmitido ao vivo diretamente em nossas casas — mas todas elas amam o cinema, certamente…
Porém, com um pouquinho de esforço linguístico (leia-se: ler as legendas em inglês), dá pra ver algumas das obras que estão disponíveis online, e vou linkar duas aqui embaixo.
O primeiro é Selfies, dirigido por Reema Mahmoud, que se utiliza de mensagens em garrafas atiradas ao mar na esperança de espalhar como era sua vida antes do genocídio palestino perpetrado por Israel:
O segundo é Soft Skin, de Khamees Masharawi, uma singela e potente animação em stop-motion que trabalha o universo lúdico infantil num contexto de destruição, assassinatos, bombardeamentos e, agora, fome:
Referências bibliográficas
Ghalayini, Basma. Palestine +100: Stories from a century after the Nakba. Dallas, 2022.
Le Guin, Ursula K. A mão esquerda da escuridão. São Paulo: Aleph, 2014.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.


