Catadão de janeiro
Indicações sem nenhum compromisso (parte 1/12)
Fim do mês é hora de fazer o balancete, e vou aproveitar para indicar coisas — livros, filmes, podcasts, outras newsletters, exposições etc. etc. etc… — sem nenhuma ordem, categorização ou sentido razoável: simplesmente coisas que li, vi, ouvi nos últimos tempos e acho que vale a pena compartilhar com quem me lê por aqui.
Antes de me dedicar à pesquisa do cinema palestino e árabe, eu costumava tocar um projeto com a Bia Amaral, minha companheira de vida e trabalhos (três anos de casados recém-completados, 10 no total e contando :*), de crítica de cinema e TV; era o MIXIDO, que deixamos morrer à míngua porque não tínhamos mais energia pra pensar em como nos inserir numa economia de atenção que demanda muito e dá muito pouco em troca. Foi assim que fui parar focado no cinema palestino, notadamente de mulheres palestinas e árabes (é o tema da minha dissertação de mestrado na UFOP), juntamente com um incentivo da Carol Almeida numa masterclass de Larissa Sansour durante a 2ª Mostra de Cinema Árabe Feminino. Ali foi um ponto de virada na minha vida. É por isso que a primeira indicação é justamente o Fora de quadro, da Carol — também tem um site não-substackiano com textos excelentes sobre cinema & imagens. É uma fonte de inspiração e aprendizagem que nos fazem parar e pensar que tipo de imagens vemos, repostamos, damos valor — duas ações, parar e pensar cada vez mais escassas num mundo que exige respostas automatizadas 24h por dia para absolutamente todos os assuntos.
Ainda nesse tão mal-tratado ramo da leitura, finalmente resolvi uma falha na minha formação como leitor, principalmente depois de me debruçar com mais afinco sobre o genocídio palestino: li Maus, de Art Spielgmann. Confesso que me senti como uma das últimas pessoas da minha idade que não tinha lido essa obra-prima dos quadrinhos (principalmente com uma graduação em jornalismo nas costas), até hoje o único do gênero a vencer o cobiçado Pulitzer, mas, é isso: agora tá lido e recomendado. Tem muita crítica e análise excelentes do livro, feitas por gente muito mais competente e experiente, especialistas no assunto; e a história do livro pós-lançamento é cheia de bizarrices, como proibições de leitura em salas de aula (advinhem o DDI…). Vou focar em dois aspectos que me chamaram mais atenção na leitura da obra de Spielgmann:
Maus não é maniqueísta — quer dizer, ele não é simplista. É obviamente uma excelente obra antifascista, então sobre os nazistas desenhados por Art nem tem muito o que falar. Contudo, o que é mais intrigante é a forma como o pai de Art, o protagonista do livro sobrevivente do Holocausto, reconta sua história a partir de memórias provocadas pelo filho. É um contato direto com um povo que, frente a um genocídio perpetrado pelos nazistas, ainda possuía uma agenda própria e esclarecida do que era preciso fazer para sobreviver aos assassinatos mais crueis do Terceiro Reich. Assim, são notáveis as passagens em que Vladek Spielgmann conta o que fez e o que estava disposto a fazer para sobreviver pelo menos mais um dia em Auschwitz, principalmente pois desejava ardentemente reencontrar a esposa, Anja.
Processos de desumanização do Outro precisam de muita conivência de todas as pessoas para darem certo. Donald Trump só consegue colocar centenas de imigrantes desesperados em um avião e mandá-los para onde quer que seja porque todo um sistema ideológico funciona feito um relógio suíço para que isso aconteça; o mesmo vale para palestinos e palestinas que durante o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, são tratados indiscriminadamente como “prisioneiros” e “prisioneiras”, enquanto israelenses são “reféns” — ou seja, vítimas, ainda que boa parte desses reféns sejam soldados das Forças de Defesa de Israel: há uma engrenagem que permite ao mundo desconsiderar a humanidade de palestinos; se são prisioneiros, fizeram algo errado, logo, estão no lucro de serem trocados por bravos guerreiros que defendem sua nação. Maus é também excelente em retratar como o processo de desumanização facilita a ascensão do nazifascismo e suas atividades grotescas e nefastas, e estamos testemunhando novos processos de desumanização ao vivo, transmitidos em tempo real. Resta saber como se conformará a resistência a eles…
Oscar e quetais
Aproveitando que saíram as indicações do Oscar 2025 — não, não vou indicar o que todo mundo já deveria ter visto; sim, estou falando de Ainda estou aqui (2024) —, deixo a dica pra acompanhar a carreira de Coralie Fargeat, que está quase toda disponível online. Ou melhor: se quiser entender como a francesa chegou até A substância (2024), veja esses outros filmes indicados aí embaixo. Pra quem viu essa pérola do body horror, assistir Reality+ (2014) e Vingança (2017) dá um gostinho de “eu conheço essa história”. É como a gente estivesse viajando numa longa estrada, passando por diversas cidades, algumas mais desenvolvidas que outras. Em Reality+, Fargeat encena a essência do filme que a levou ao Oscar: pessoas implantam uma espécie de chip da beleza (não caiam nessa, pelo amor de Jah!) que tem 12h de duração de seus efeitos. A beleza em questão é, obviamente, a mais padronizada possível: pessoas loiras, olhos claros, magras/fortes/atléticas etc. e tal. Diferentemente do longa com Demi Moore e Margaret Qualley, o final é feliz, é até um tanto moralista na “mensagem” que passa (dá pra imaginar, né?).
Já em Vingança, Coralie explora o gore como pouca gente sabe fazer, e o que vemos é uma explosão de partes do corpo decepadas, explodidas, amassadas e litros e mais litros e mais litros de sangue jorrando na tela — tudo isso a partir de um trauma de uma mulher no que deveria ter sido um fim de semana romântico numa casinha isolada do mundo com seu amante. A sequência dos finalmentes é absurdamente grotesca, tensa e bem filmada, com um desfecho até meio ridículo. Quem viu A substância certamente vai identificar pontos em comum para além da violência extrema e da nojeira, principalmente relacionados às questões do corpo da mulher e dos papéis de gênero numa sociedade dominada por homens.
Outro concorrente dessa premiação maldita é Nosferatu (2025), do tão-aclamado-quanto-odiado Robert Eggers (sério, eu não entendo porque o cara leva tanto hate de uma parte significativa da cinefilia brasileira — aliás, esse papo de cinéfilo é meio chatão, mas pode ficar pra outro texto…). Graças a Jah o filme estreou num dos melhores cinemas de rua de Belo Horizonte, então deu pra curtir numa boa, e é bom né? O filme é maneirinho…
Como também já passou o hype e eu tenho muito pouco a acrescentar sobre o novo filme do Eggers, eu vou indicar é o livro que originou toda essa história proibidona (vocês conhecem a história de não poder chamar Nosferatu de Drácula, né?): Dracula, de Bram Stoker. Peguei ele pra ler despretensiosamente em dezembro e só acabei esse ano, pois lia antes de dormir e é um calhamaço. Foi legal acompanhar as diferenças que se fazem necessárias pra adaptar a obra, mas melhor ainda foi poder comparar um ponto que pra mim é crucial: Stoker, apesar de todas as limitações que provavelmente tinha como um homem de seu tempo e de sua classe social, fez uma obra muito mais sensual e eroticamente instigante que o filme de Eggers, que se resumiu a alguns gemidos de Lily Rose Depp. A forma do vampiro do filme é asquerosa demais, e, ainda que faça sentido no contexto do roteiro, desperta mais nojo que qualquer outro sentimento — o livro tem muito mais apelo sensorial. Há algumas passagens em Drácula marcantes pelo erotismo dos ataques vampirescos, ainda que restritos às mulheres (e sempre as colocando em duas categorias opostas: as santas, esposas, futuras-mães, perfeitas e imaculadas, e as lascivas transformadas pela luxúria do Conde).
Não estou querendo dizer aqui que o livro é melhor que o filme lalalalalá — até porque, gostei bastante do novo Nosferatu. Creio que, como poucas, são obras que fazemos muito bem de ler e ver juntas, já que pertencem a uma das mais ricas mitologias da cultura popular.
Por fim, pois já tá se alongando demais, minha última indicação é pra ouvir despretensiosamente, de preferência tomando um negocim de sua preferência, aproveitando um bom fim de semana veranil: o disco Tiger’s Blood, da Waxahatchee, uma banda formada pela Katie Crutchfield que não saiu das minhas playlists no ano passado. Com participação de MJ Lenderman nas guitarras, é folk rock de altíssimo nível (aliás, vale a pena ler uma entrevista maravilhosa da Katie contando como saiu de um buraco pessoal e deu vida ao excelente sexto álbum da sua carreira).
Em fevereiro eu volto…


