Catadão de Fevereiro (só que em Março)
Indicações (e às vezes reflexões) sem nenhum compromisso (parte 2/12)
Uma das minhas principais memórias de criança é de uma viagem da família para passar o réveillon em Piúma, no Espírito Santo, que era uma espécie de evento canônico do meu pai: todo ano, naquela mesma praia (teve um ano que a gente passou em Salvador e eu me queimei quando uma menina virou o rojão pro lado errado — sim, em vez de apontar pro céu, ela apontou pra gente; sim, a culpa é do adulto responsável que deixou uma criança operar um negócio desses…). Como bom mineiro de Caratinga, meu pai curtia muito ir pra Piúma-Guarapari-Anchieta-Castelhanos, e eu também. Deve ter sido a praia que mais frequentei na vida. Passamos alguns carnavais por lá também…
Mas enfim: numa dessas, a casa que alugamos foi arrombada e roubada. Fizeram a limpa enquanto realizávamos nossos felizes sonhos de apenas nos jogar no mar. Depois de um dia inteiro esturricando na areia e tomando caldo nas ondas do mar revolto perto da Feira do Sol, chegamos em casa com aquele sustaço: tudo revirado, quase nada de valor sobrou, simbólico ou real. Dentre um monte de coisas que levamos na Parati cor de vinho estava uma câmera da Nikon. Eu tinha 11 anos, eu acho; não lembro o modelo, mas era uma câmera que meu pai gostava muito, ainda analógica (era o começo dos anos 2000). Foi levada junto com mais um monte de quiquilharia, tipo meu discman que ganhei num concurso de desenhos (eu adorava aquele discman, ouvi muito CD pirata nele).
Eu tava me lembrando dessas coisas porque começou-e-acabou o carnaval 2025 em Belo Horizonte, e Bia e eu estávamos vendo um filme finalmente revelado com fotos de um ano atrás, do qual saiu a imagem que ilustra esse post: a Bia, devidamente maquiada, no meio do Bloco do Peixoto, eternizada num Agfa Pro 200 vencido em algum momento da década retrasada, o que certamente contribui pro ar de imagem do passado que ela ganhou. Talvez ano que vem veja as fotos do Manjericão de 2025, vamos ver quanto tempo vai demorar pra revelar o próximo rolo.
O Carnaval — agora com C maiúsculo mesmo, tornado evento — deste ano me deixou um pouco mais pensativo sobre os rumos que está tomando na cidade. Belo Horizonte passou muito anos conhecida como uma espécie de cemitério carnavalesco: a cidade morria durante as festividades momescas, e Guarapari lotada de mineiros é um clichê que todo mundo aqui sempre adora usar nestes momentos, porque em parte era uma verdade: o litoral capixaba se enchia de gente daqui e do interior. Desde os anos 2010, no entanto, o Carnaval renasceu com blocos de rua que botaram suas baterias na marra e na coragem pra tocar frente a um Poder Público mais interessado em preservar os bons costumes do século XIX que inspiraram o nascimento da “moderna” capital de Minas.
O que aconteceu nesses 15 anos foi uma série de idas e algumas vindas, que desembocam no que hoje, pra mim, é um momento de risco pro carnaval de rua de BH. O Estado e o Município nunca entenderam muito bem o que fazer com essa vontade imensa de viver e curtir as ruas da cidade, numa algazarra gostosa e bonita de ver, com blocos nascendo em progressão geométrica a cada ano que passou desde o tal renascimento do Carnaval belorizontino.
(Aqui é importante ressaltar que esta noção de renascimento refere-se quase que exclusivamente ao carnaval de rua, com blocos que saem com seus hinos e marchinhas; Belo Horizonte sempre teve desfiles de escola de samba, que também são símbolos da resistência da festa na cidade).
Houve momentos de tensão, momentos ruins, momentos bem fundo do poço; mas, como toda gestão neoliberal que se preze, Estado e Município perceberam, um pouco tarde, mas não o bastante para perder ainda mais dinheiro, que o carnaval era, acima de tudo, extremamente lucrativo: milhões de pessoas nas ruas o dia inteiro, consumindo tudo quanto é bebida e comida, comprando fantasias, movimentando o comércio local, a boa propaganda, o surgimento de marcas de bebidas alcoólicas que se misturam com a própria história do renascimento do carnaval etc. — tudo isso faz um bom gestor trabalhado nas fundações Lemann da vida brilhar os olhos e ver concretizados seus sonhos mais molhados.
E assim chegamos a 2025, com um trio elétrico gigantesco do DJ Alok tomando a principal avenida do centro da cidade (causou transtorno? Sim! Pessoas quase foram pisoteadas? Também! Uma mulher foi agredida enquanto trabalhava segurando corda do trio? Sim, sim sim! Mas foi lindo…). Deu tão certo que a Prefeitura já prometeu que em 2026 proporcionará um mega-show por dia de folia. Só precisa saber quem exatamente pediu uma patacoada dessas, mas OK, vamos por mais!
Numa outra instância, o Estado garantiu três locais para desfiles de diversos blocos que, via edital, ganham o direito de desfilar em avenidas largas e sonorizadas para replicar o som de blocos — uma reclamação que costumava acontecer em blocos gigantescos: a multidão que vem atrás não conseguia, a partir de certo ponto, ouvir a música da bateria/carro de som/trio elétrico.
As iniciativas de melhorias são sempre bem-vindas; mas o custo todo mundo sabe qual é. E aqui eu encerro essa pequena reflexão sobre o carnaval de BH com um exercício (sempre perigoso) de futurologia: a tentativa de domesticação da festa vai causar um recrudescimento do fosso entre os blocos que enfrentam muitas dificuldades para desfilar (já que precisam de um mínimo de estrutura em parceria com o poder público — banheiros químicos, segurança, bloqueio de vias etc.) e já recebem migalhas, inclusive porque são politicamente indesejáveis, e os blocos que hoje se tornaram verdadeiras empresas, que encontraram no carnaval um fonte segura de renda através de editais e outras formas de financiamento e são quase inofensivos, adotando pautas generalistas como defesa dos direitos humanos ou ambientais sem muita efetividade discursiva, performática e política.
O que era essencialmente o ressurgimento de uma festa popular, descentralizadora, contestadora, com os dois pés fincados na resistência às políticas mais nefastas anti-povo, vai, por um lado, sendo domesticada, sem que as políticas oficiais tenham conseguido superar a barreira da performatividade progressista. Afinal, BH continua sem um metrô decente, a tarifa de ônibus é uma das mais caras do país e circular pela cidade é cada vez mais caro e difícil — isso para focar em apenas um problema que costuma pautar a ação dos diversos blocos carnavalescos da cidade.
Breves indicações
(Talvez elas virem algo mais expandido mais pra frente — talvez…)
Aproveitando a vibe Carnaval + fotografias, todo mundo deve ter ouvido o discaço de Bad Bunny, que causou rebuliço por aí, DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Não vou acrescentar absolutamente nada sobre o álbum, porque muita gente melhor que eu já fez isso e quero indicar dois textos sobre o tema. O primeiro, de Sabrina Fernandes (que é uma das pesquisadoras de mais excelência que temos no país hoje), que tocou brevemente no disco num texto pra falar de transição energética e como não há saída dentro do capitalismo (se você ainda acredita em capitalismo humanizado ou capitalismo ecologicamente correto, tenho uma péssima notícia pra te dar…).
O segundo é da fotógrafa Adelaide Ivánova, que levou pro recifês uma interpretação do disco do portorriquenho. Esse texto me pegou de jeito porque a outra parte de minha família vem de Pernambuco (e também da Bahia e da Paraíba), e sinto saudades imensas da famílias e dos lugares que cresci curtindo. Ivánova também toca na emergência climática e como ela afeta Recife — vai lá ler o texto que tá bom demais.
É claro que não poderia falar do DTMF sem indicar o curta que o Bad Bunny lançou junto com o disco:
Paro por aqui. Minhas energias foram sugadas no Carnaval, pois além de tentar curtir algo fora do circuito oficialesco acabei trabalhando dois dias na cobertura da festança. Não recomendo.
Antes, porém, fica aqui mais um disco pra quem gosta de muita guitarra e barulho: a Wilco relançou A Ghost Is Born para celebrar os 20 anos da peça, e aí tem uma versão com dezenas de versões e algumas inéditas também (esse disco tem uma das músicas que eu mais amo em uma abertura de disco, At least that’s what you said — o lamento que dá lugar ao solo, visceral, cru, violento… ai, ai). Só dá o play, o negócio tá finíssimo…


