Catadão de dezembro
Indicações (e às vezes reflexões) com algum compromisso (parte 12/12)
Ao fim e ao cabo, pelo menos um compromisso assumido neste blog consegui concluir com um relativo sucesso (se excluirmos os atrasos): estes catados de indicações de cada mês. Ainda assim, meio errático: nalguns meses, a curadoria se perdeu nos afazeres do dia a dia, entre mudanças no trabalho, viagens acadêmicas e as atribulações e delícias da vida pessoal. Quem acompanhou até aqui viu que algumas vezes sobrou uma indicação de gosto duvidoso — e o que ei de fazer, né?
Pra encerrar o ano com gostinho de que tudo pode melhorar no ano que vem, separei algumas coisinhas com mais carinho e atenção para este post de despedida de 2025. Nada demais, mas que serve como uma coletânea do que passou, entre algumas preciosidades que ficaram pra trás e recupero agora, e outras que vim acompanhando nos últimos dias.
Vou abrir com algo de que já falei em outro texto e que tem ocupado cada vez mais tempo na minha vida — ou melhor, que voltou a ocupar. Na época de estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Viçosa, um dos meus maiores desejos era ter uma câmera pra registrar o que eu quisesse, além de contribuir pra minha nobilíssima formação como jornalista (eu acho mesmo uma profissão muito nobre, ainda que extremamente desvalorizada e maltratada, não raro por nós mesmos, jornalistas — vide o caso mais recente deste mês, com repórter velha de guerra soltando matéria apurada com fonte anônima sem nenhum desdobramento posterior).
Eu ganhei, então, uma Canon T3i, que depois perdi numa viagem sei lá como. Meu irmão Daniel Fardin me levou de volta pro mundo analógico, e, agora (e com um salto temporal enorme), volto a me dedica a tirar fotos do jeito que os mesopotâmicos faziam. A parte mais óbvia continua a mais mágica: o tempo da revelação e da fruição das imagens que brotam no negativo meses depois do registro, criando essa temporalidade bagunçada e que, não raro, surpreende. Alguns desses registros eu deixo aqui, agora, de uma viagem à Argentina em processo de destruição neolib sob o comando de Javier Milei.
Primeiro, uma colagem da belíssima Catedral Nossa Senhora de Nahuel Huapi, a Catedral de Bariloche:
Uma cidade na beira de um lago majestoso, cercada pelos pontiagudos cumes da Cordilheira dos Andes, não é algo que se desperdice (com direito a resgate da memória dos assassinados pela sanguinária ditadura militar argentina, em monumentos que dividem o mesmo território com uma estátua que exalta o facínora general Julio Argentino Roca).











Leituras a contrapelo
Depois de um ano pelejando, venci: no último mês de 2025 terminei a leitura de A invenção do povo judeu, obra seminal e arrebatadora de Shlomo Sand. Tive, inclusive, que ler a versão em inglês que consegui numa promoção que alguma editora fez ainda em 2024, como forma de incentivar leituras antissionistas (não sei se daria pra classificar o Shlomo exatamente como um antissionista — ele mesmo não deixa isso claro no livro, mas definitivamente sua obra se encaixa no cânone de desmitificação do etno-Estado teocrático de Israel). Procurei esse livro loucamente em tudo quanto é sebo, todos cobravam mais de R$ 400,00; no Enjoei encontrei “ofertas” por R$ 170,00, até que em novembro um cidadão ofereceu por R$ 100,00, fiz uma contra-oferta de R$ 70,00 e saímos todos felizes.
(Aliás, é meio impressionante como o Enjoei tem tanta gente com livros de referência de pesquisas acadêmicas que fica apodrecendo nas estantes dessas pessoas por preços abusivos, e elas quase sempre se recusam a baixar os preços).
Prometo um texto melhor — e na verdade tenho pensado num projeto maior, de leitura guiada — sobre A invenção do povo judeu em breve, ainda no primeiro semestre de 2026 (assim que recuperar minhas notas do Kindle); por enquanto, vai como dica rápida para quem, como eu, se interessa pelo tema da criação de Israel e do que caracterizaria os judeus como um povo. Shlomo vai demolindo, página por página, mitos e fabulações bizarras que foram utilizadas como base para a criação de um Estado que hoje comete um genocídio transmitido (agora um pouco menos) em tempo real para todo o mundo.
É uma leitura um tanto difícil, pelo tamanho mesmo da obra — são mais de 500 páginas — e pela densidade do tema, que remonta aos tempos pré-bíblicos, perpassa as diversas formatações da região onde hoje está a Palestina e chega ao moderno e genocida Estado de Israel, inclusive com um tópico interessantíssimo dedicado às pesquisas do que seria o DNA judeu. Como é de se imaginar, não foram muito pra frente quando as/os pesquisadores se depararam com algumas, digamos, dificuldades de definir exatamente o que seria o tal judeu.
Para quem tem paciência e manja um pouquinho de inglês, tem uma palestra de Sand no evento de lançamento do livro organizado pela Verso Books (foi ela que deu o livro que li no Kindle), em que o historiador primeiro fala de sua obra e depois encara algumas perguntas do público, que não estava muito animado com as ideias de Shlomo.
Uma outra obra dentro da mesma temática, que pra quem tem Kindle Unlimited é só baixar (e não, eu não ganho nada com essa propaganda — aliás, se tem um serviço que é bem sem vergonha é esse KU…), é Enterre meu coração na raiz de uma oliveira, de Magda Jaber, uma jovem escritora que usa da ficção histórica para criar uma linda obra de amor. No livro, memórias familiares se misturam com a memória e o trauma nacional, misturando temporalidades diversas através de uma entrevista entre neta e avó que rememora a Nakba, a Palestina, relacionamentos, delícias e agruras da vida antes e depois do projeto colonialista-sionista.
Misturando prosa e poesia, Magda refaz a história da avó através do amadurecimento dela durante a ocupação militar israelense e do seu amor por Idris, um jovem por quem se apaixona adolescente. Símbolos palestinos perpassam todo o livro, notadamente, como o título deixa claro, a relevância das oliveiras como ícones deste povo e como encarnações da resistência palestina contra o aniquilamento perpetrado por Israel. Não é à toa que a avó expressa sua raiva sobre a situação nos seguintes termos:
acho que a palestina e seus filhos vivem uma tragédia que atravessa o tempo. não há tempo nenhum que seja o suficiente para curar a dor. isso me enraivece.
Em diversos textos falei sobre o tempo perturbado de que Edward Said (1999) comenta em sua obra After the last sky: um tempo que pese e passa diferente, um tempo marcado pelos limites grotescos e violentos da colonização sionista, que mantém feridas abertas, que perpetua um trauma fundante da identidade de todo um povo, que vive, em 2025, reflexos de 1948.
A poesia de Magda (e de tantas outras palestinas), contudo, pode ser uma possibilidade de cura — ou, ao menos, uma possibilidade de se desvencilhar do que o sionismo aponta como única possibilidade de vida.
um poeta nunca morre. não quando suas palavras ainda viajam com o vento, através de décadas e séculos, regando novas gerações.
Para dançar e cantar
Minha retrospectiva do Spotify me deixou meio alarmado e meio excitado. Num ano em que ouvi relativamente pouca música, ainda me saí com quase mil artistas, 90% inéditos segundo meus cálculos. Muito disso se deveu à experiência no Alto-Falante, da Rede Minas, durante pouco mais de seis meses, em que criei e apresentei o quadro indi(e)spensáveis. Apesar do trocadilho, não era focado só em música indie (e eu nem sei o que seria exatamente o indie). O fato é que o quadro fez com que minha idade musical girasse nos 21 anos, o que me fez refletir durante muito tempo sobre o que estou fazendo de minha vida — pelo menos no que diz respeito ao que estou ouvindo…
De todo jeito, pra encerrar com um astral mais lá em cima, vou deixar duas apresentações de dois artistas que marcaram este ano (pra mim, é sempre bom deixar claro — você pode gostar de quem quiser aí…).
O primeiro embalou minha infância, passou pela minha vida profissional como repórter de TV na TV pública de Minas Gerais, tava meio escanteado e, quando nos deixou, abriu de novo esse portal mágico que só a música tem capacidade de fazer por todos nós: Lô Borges. Impossível pensar que tenha alguém que não conheça um dos maiores guitarristas do mundo, que nos deixou como legado composições tipo Trem de doido, uma viagem deliciosa. Sorte a nossa de ter vivido no mesmo tempo que um gênio como Lô…
A segunda é uma banda britânica que me embalou no fim de 2024 e lançou o melhor disco de rock internacional deste ano (e o melhor em geral também, de acordo com minha lista, que não tem relevância nenhuma): The Last Dinner Party. Fiquei triste de nao ter podido ($$$) ir ao show delas no C6 Fest, e agora é torcer pra algum outro festival trazer elas de novo aqui pro Brasil. Eu categorizo a música da seguinte forma: qualquer uma que me leve pra um outro lugar, que me faça flutuar, perder a noção do tempo, do espaço, a noção do ridículo e do impossível, é música boa. TLDP me leva pra momentos assim, e por isso mesmo toca sem parar no meu fone.
Pra finalizar…
…o que há de melhor (de novo: na minha singelíssima opinião, discorde aí na sua casa se quiser) na TV, que parece que já não está mais na era de ouro de novo — a era de ouro, como todo mundo bem sabe, é quando fazem séries protagonizadas por homens irascíveis, complicados, meio brutos, mas que são foda. Agora tá tudo muito woke (ainda se usa esse termo?)…
O fim do ano trouxe três serias protagonizadas por mulheres que são excelentes, e fico por aqui com essa tríade de indicações para quem ainda não tá curtindo elas:
Pluribus, criada pelo sempre excelente Vince Gilligan e protagonizada pela não menos excelente Rhea Seehorn — uma distopia no coração do Novo México que nos faz refletir sobre a vida em comunidade e desejos pessoais (e se eu vir mais alguém falando de “utopia comunista” eu vou virar do avesso, pelo amor de Deus, sejam menos ignorantes!);
Fallout, criada pelo Nolan menos famoso (e menos ruim), Jonathan, protagonizada pela Ella Purcel — eu gosto muito (e vou tentar escrever sobre isso neste ano que está chegando) como a série trata criticamente e sem muito cinismo da íntima relação entre capitalismo e desgraçamento do mundo; e
I love L.A., criada e protagonizada pela maravilhosa Rachel Sennott — humor escrachado, ácido, debochado, num universo que já foi visto e revisto diversas vezes, mas creio que, agora, com uma ótica diferente
E é só. Feliz 2026 para todas e todos nós…



