Catadão de agosto
Indicações (e às vezes reflexões) com algum compromisso (parte 8/12)
Já comentei por aqui algumas vezes meu apreço pela obra de Ursula K. Le Guin (e ainda vou aprender a pronunciar o nome dela corretamente até o final do ano…). Pois bem: começo este texto com a indicação de um clássico da autora, que tinha os dois pés cravados no anarquismo e nos deixou uma vasta obra magnífica e imaginativa, do tipo que pouco vemos nos cânones sempre muito masculinos de sci-fi. Serei muito breve para escrever sobre Os despossuídos.
Antes, porém, compartilho uma aflição que me assola toda vez que leio algo de Le Guin: por que existem tão poucas obras (e, mais ainda, tão poucas boas obras) adaptadas diretamente do universo leguiniano? Tem uma meia dúzia de coisa produzida perdida por aí, todas com qualidade duvidosa; talvez seja difícil demais alcançar a imaginação da californiana, sempre tão aguçada…
A Sabrina Fernandes tem um vídeo que além de sintetizar a obra também aborda aspectos (sem muitos spoilers) fundamentais da narrativa. Resumindo ainda mais, logo de cara: é um romance distópico/utópico extremamente político. Extremamente do tipo romance anarquista.
Vou deixar três pontos que, pra mim, são os mais centrais na obra e que espero serem suficientes pra fazer vocês lerem Os despossuídos — que, aliás, tá no Kindle Unlimited, que todos sabemos não é tão ilimitado assim.
Gênero é um tema recorrente nas obras de Ursula (e eu carrego sempre comigo uma lição de Marília Moschkovich no falecido X, que dizia da dificuldade de se imaginar uma sociedade não-patriarcal em produções de sci-fi/utópicas/distópicas — citando Le Guin e Duna), e só as inversões de papeis e desconstruções patriarcais seriam suficiente para garantir uma leitura no mínimo diferente. Em Os despossuídos, por exemplo, quem e como se criam filhos e filhas em Anarres está diluído em toda a sociedade (sabe aquele lance do é preciso uma adeia…?) As crianças não são responsabilidade do casal que as gerou, mas sim de toda a comunidade à qual elas pertencem. Destaquei o termo porque a própria ideia de pertencimento em Anarres, um planeta colonizado por refugiados de Urras, não faz sentido algum;
Shev, o protagonista do livro, é um cientista, um físico, e propõe reflexões acerca da função da ciência. De seu ponto de vista anárquico, isso sequer deveria ser uma questão: não existe uma função, mas sim a liberdade de criação e de pesquisa. Sobram críticas aos modelos anarrestis e urrastis: a burocracia dos primeiros, em nome da nobre missão de proteger os ideais de Odo (vai ter que ler pra sacar tudo), atrapalha essa liberdade e essa pesquisa, sendo necessário, em Anarres, que a ciência seja produzida sempre com o propósito de contribuir para o desenvolvimento do bem-comum — uma nobre missão, que às vezes é distorcida a ponto de produzir efeitos contrários; já em Urras, a ganância típica do capital destrói qualquer possibilidade de se fazer ciência para o bem-comum, estabelecendo a pesquisa científica como mais um produto do qual se extrai lucro para uma ínfima parcela do planeta. Shev usufrui desses lucros enquanto permanece em Urras, ainda que plenamente consciente da situação bizarra em que vive quando está por lá;
Por fim, Os despossuídos é belíssima utopia anarquista e que, mesmo após críticas de Shev (e é como se lêssemos as críticas da própria autora), não decai em criticas anti-anarquistas ou anticomunistas vulgares — muito pelo contrário. Anarres lida com a escassez desde sua criação, que foi uma espécie de prêmio de consolação a insurgentes revolucionários que não concordavam com os rumos de Urras e provaram, através da auto-organização e do anarquismo, que é possível construir e prosperar um outro mundo.
O livro é um chamado radical à imaginação de um mundo diferente, um mundo guiado pela solidariedade e pelo bem-comum.
Um pouquinho de Palestina…
Agosto marcou a passagem de Ilan Pappé pelo Brasil, e vários veículos de jornalismo independentes engajados na causa palestina aproveitaram para conversar com um dos mais importantes nomes do antissionismo de nossos tempos. Ainda não consegui ler, ver e ouvir tudo o que foi construído nessa breve passagem do Ilan por aqui, mas pelo menos uma entrevista me deixou animadíssimo e creio ser importante compartilhar com quem lê este blog:
A entrevista foi conduzida por dois excelentes professores e pesquisadores, Arlene Clemesha e Salem Nasser, e são 45 minutos de tudo o que há de relevante para se compreender os rumos do genocídio palestino. Pappé é nome incontornável para quem quer entender o assunto sem cair nas armadilhas narrativas de sionistas.
Um filme de amadurecimento
(Não tem essa de coming of age, não…)
Vi Toxic (2024), primeiro longa-metragem da lituana Saulė Bliuvaitė, num dia qualquer de julho, muito despretensiosamente. Como boa parte dessas produções indie, a descrição nas plataformas de streaming são sempre um tanto cativantes, e parece que vamos ver algo sempre extraordinário. Noventa porcento das vezes é tiro n’água, mas neste caso temos um belíssimo filme de amadurecimento do leste europeu. O filme tem uma energia caótica que vem de uma das protagonistas, Kristina, interpretada por Ieva Rupeikaitė. Ela passa boa parte do tempo de sua adolescência praticando pequenos roubos na periferia da cidade onde vive. A rotina é quebrada quando surge a oportunidade de se tornar uma modelo internacional, junto com sua amiga Marija (Vesta Matulytė) — que sofre bullying por ser manca.
É bem fotografado e a temática é sempre pertinente: a pressão do corpo ideal, mesmo num contexto de mais, digamos, abertura para diversidade (dentro de um limite ainda muito, muito restrito) e os golpes que “agências” de modelo dão em famílias e meninas que buscam uma alternativa à vida cheia de contas a pagar e pouco dinheiro pra viver. O filme, no entanto, foca toda a narrativa a partir das experiências e das decisões das adolescentes, o que naturalmente exclui de cena possíveis moralismos — além disso, tem umas cenas nojentas muito maneiras…


