Antes de voltar a falar de filmes: uma breve passagem por Sde Teiman
Ou: até quanto é possível suportar uma imagem de bom moço (ou ainda: a Hasbara está se esgotando...)
Parece que foi há muito tempo, e tendemos a esquecer muito do que aconteceu. Assim, vamos voltar um pouco no calendário e relembrar alguns fatos de 19 meses de genocídio transmitido ao vivo, 24h por dia, 7 dias por semana, através do Twitter, do BluSky, da Al Jazeera, da BBC etc. etc. etc. e tal…
Antes, porém, é preciso dizer porque vamos dar essa dobra no tempo para relembrar, ainda que brevemente, o que Mouin Rabbani definiu brilhantemente como Hasbara Symphony Orchestra — hasbara, para quem ainda não foi apresentado ao termo, é como definimos a propaganda sionista que tenta, a todo custo, lavar a imagem do Estado israelense e sua ideologia fascista; é um verdadeiro e complexo exercício de relações públicas que atua na Academia, na mídia, através de viagens cheias de coquetéis e encontros com as piores pessoas possíveis… enfim, um processo que foi se aperfeiçoando ao longo do tempo e hoje é quase uma força da natureza, atuando sob diversas formas, com o objetivo de naturalizar o sionismo e suas práticas nefastas no território palestino e em outros lugares, com vimos recentemente nos ataques contra o Irã. O termo hasbara é hebraico, e desde um bom tempo há contrapontos às suas ações, apontando os efeitos desagradáveis da propaganda oficial de um etnoestado supremacista (com o perdão da redundância).
Anteontem e ontem circulou pelas redes sociais e alguns veículos de mídia mais um vídeo grotesco, perturbador, de um ataque das Forças de Defesa de Israel contra um prisioneiro em Sde Teiman, uma prisão que é, na verdade, um campo de concentração e de morte. É um lugar onde a equipe da B’Tselem, uma organização de direitos humanos com sede em Jerusalém, foi recebida por um soldado sionista sob um mantra: bem-vindos ao inferno. O vídeo é extremamente brutal e violento, e é importante ressaltar que a partir daqui há gatilhos de violência sexual.
Antes de continuar, vale compreender um pouquinho mais do que é Sde Teiman nas palavras de um palestino que passou pelo centro de tortura oficial de Israel:
(Esse vídeo sequer é recente: já tem 10 meses. O tempo perturbado palestino a que se refere Edward Said também é representado por situações como esta: elas se repetem, se perpetuam no cotidiano, se materializam a cada dia sob as mais diversas formas: Sde Teiman, execuções sumárias, armadilhas em centros de distribuição de comida, bombardeios…)
Quando do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, boa parte do mundo acreditou piamente (e ainda tem quem acredite) em mentiras contadas pelas FDI, por porta-vozes do governo israelense e por pessoas do naipe de Benjamin Neatanyahu, Itamar Ben-Gvir, Israel Katz e Bezalel Smotrich — pra ficar restrito a quatro figuras importantíssimas do governo de sionista, quatro verdadeiros cavaleiros do apocalipse, que jamais se furtaram de enaltecer o extermínio em massa de palestinos, ecoando lamentáveis momentos da história humana.
Assim, mentiras como 40 bebês decapitados pelo Hamas e bebês assados vivos em micro-ondas pelo Hamas, passando, é claro, pelo estupro. O estupro como máquina de guerra, a violência sexual como ferramenta típica do Hamas contra israelenses indefesos. E, ao fim e ao cabo, as imagens que circulam mundo afora é de um estupro coletivo de um palestino detido em Sde Teiman (sequer são as primeiras imagens deste tipo).
Toda a gravação é bizarra, graças a um nível de sadismo e de desumanização da vítima insuportáveis, mesmo considerando os 19 meses que vemos todos os dias um genocídio se desenrolar à nossa frente: os soldados, usando balaclavas, tampam com seus escudos o canto onde violentam repetidamente um jovem palestino.
Ainda assim, com documentação e tudo, o que vemos em grandes veículos de comunicação é a velha condenação ao comportamento beligerante desse monte de árabe insano e violento. Chegaram ao ponto de se importar mais com os cânticos de uma dupla de punk/hip-hop britânica, Bob Vylan, que pediam morte às FDI durante sua apresentação em Glastonbury — fato que gerou, é claro, uma onda de solidariedade ao coitadismo sionista, e lhes rendeu cancelamentos e rescisões contratuais, como no caso do Festival Radar. Vemos, também, a despeito de uma violência tão grotesca e brutal como a registrada no vídeo das FDI, a Polícia Metropolitana londrina proscrever a organização Palestine Action e, com isso, essencialmente proibir qualquer tipo de manifestação pró-Palestina em seu território.
Ainda que ignorem a força de um registro oficial de violências cometidas pelas forças militares sionistas, está cada vez mais difícil sustentar a Hasbara Symphony Orchestra. O mundo já não suporta mais defender o sionismo e sua sanha violenta e colonial.


