A foto do ano e as fotos de todos os anos
Ou: como sobreviver ao apagamento da memória e da história de um povo
Genocídio palestino, ano II (?)
Atenção: este texto contém imagem sensível resultante de ataques sionistas à Palestina.
O povo palestino clama que não desviemos o olhar, que não finjamos que nada acontece, que não nos esqueçamos que Israel o mata e o tortura, e que o sionismo deseja ardentemente seu aniquilamento e o apagamento de qualquer vestígio da existência de um povo palestino. Esse clamor não começou em outubro de 2023, ainda que certamente tenha se intensificado graças à resposta mais violenta do que nunca de Israel ao ataque que sofreu do Hamas; qualquer análise de dados bem basiquinha vai gerar gráficos com números grotescos de assassinatos de palestinos por parte das Forças de Defesa de Israel e dos colonos judeus que dia-após-dia aumentam seus assentamentos na Cisjordânia.
Se restava alguma dúvida sobre quais são os verdadeiros objetivos de Israel, vejamos o que afirmou esses dias seu Ministro da Defesa, Israel Katz (eu falei em desejo ardente porque creio que é mais que um objetivo, é algo ligado a uma psicopatia típica de fascistas como o são os representantes do sionismo):
Pra quem acompanha a história Palestina, as palavras de Katz são nada mais que a materialização, em texto, da grotesca rotina de violência colonial sionista. Talvez um pouco mais sinceras, expressando algo que aos olhos ocidentais pode ser um pouco chocante: afinal, quem é contra ajuda humanitária? É um tipo de posicionamento que não tem (pelo menos pras pessoas com o mínimo de respeito e amor ao próximo — estamos na Semana Santa, certo?) um outro lado para se opor. É como se dizer a favor da corrupção, ou a favor do terrorismo… portanto, eu não vou me repetir, neste texto, como às vezes me repito comentando filmes palestinos que, de uma forma ou de outra, são atravessados pela realidade da colonização em suas narrativas. Existem vários textos pra trás (e existirão pra frente) pra continuar pregando o dever moral urgente de todo mundo: derrubar o sionismo.
Tudo isso pra falar de outras imagens, que também me tocam forte e profundamente: fotografias. Quando Bad Bunny lançou seu aclamado Debí Tirar más Fotos, a música homônima embalou a longa marcha de palestinos de volta para suas casas (ou o que sobrou delas) em Gaza, após meses de deslocamentos forçados e bombardeios. Havia um sentimento de esperança graças ao cessar-fogo entre Hamas e Israel, quebrado pelo Estado sionista algumas semanas depois sob alegações que, hoje, já não importam para ninguém: Israel vai encontrar qualquer desculpa para aniquilar palestinos, seja ela o Hamas, como agora, seja ela outra qualquer, como mostra a história do genocídio antes da criação do grupo.
Acontece que palestinos estão, de fato, tirando muitas fotos. Muitas, muitas mesmo — e também filmam, mas vamos nos reter, hoje, às fotos. E sempre tiraram. Um exemplo é a fotógrafa Karimeh Abbud, considerada a primeira fotógrafa palestina1, que nasceu em 1893 sob o Império Otomano, e morreu em Nazaré, já sob o nefasto regime sionista. Abbud é de uma linhagem de estudiosos da região, e ganhou sua primeira câmera em 1913; as viagens do pai, um pastor protestante, permitiram que ela visitasse as mais diversas paisagens na região (e também de outros lugares distantes, como o Brasil, onde teria vivido por dois anos) e se encontrasse com muitas e tão diversas pessoas quanto as paisagens que via. Se intitulava dama fotógrafa, e deixou um acervo imenso de fotos ainda inexplorado, com registros do cotidiano palestino e árabe.
Além de fotografar casamentos e eventos sociais — um tipo de atividade que, devidamente registrada, nos conta muito da cultura mundo afora —, Karimeh também se dedicou a sítios arqueológicos em Balbeque, um dos pilares históricos do Líbano, à fotografia de rua em grandes centros urbanos como Haifa, Nazaré, Tiberias e Belém, bem como aos retratos diversos de homens e mulheres que passaram em seu estúdio ou com quem ela cruzou em suas andanças. Os eventos traumáticos de 1948, obviamente, impactaram sua rotina:
A guerra de 1948 nos deixou com uma trajetória desconhecida para a vida e a obra de Karimeh Abbud. Não sabemos se ela foi atingida pela guerra fora da área que passou a ser controlada por Israel ou se ela de fato retornou a Nazaré. O que se sabe é que, nos últimos 50 anos, a maior parte de sua coleção se perdeu, embora ela tenha passado seus últimos dias em Nazaré, onde faleceu em 1955. (Mrowat, 2007, online)
As fotos abaixo representam uma pequeníssima fração da obra dessa pioneira magnífica da fotografia palestina. Elas foram retiradas do artigo Karimeh Abbud: Early Woman Photographer (1896-1955), de Ahmad Mrowat, no qual também podem ser conferidos todos os créditos das fotos:






A morte da fotógrafa (e da fotografia)
Abbud morreu já sob o governo sionista de Israel, aos 62 anos. Sua obra marcante ainda precisa ser devidamente catalogada e explorada, já que o arquivo memorialístico palestino não sofreu menos impacto que as vidas palestinas durante a criação do Estado israelense e sua posterior sanha colonialista. Permito-me aqui um salto temporal bem grande para chegar a mais duas fotógrafas contemporâneas, cujos destinos também são atravessados pelo sionismo e sua violência fascista.
Uma linha do tempo macabra se formou nesta última semana, quando duas notícias de fotógrafas se chocaram e perturbaram ainda mais a realidade do massacre palestino:
Fatma Hassouna foi assassinada pelas FDI um dia após a divulgação da programação do Festival de Cannes que traz um documentário protagonizado por ela, Put Your Soul On Your Hand And Walk;
Samar Abu Elouf venceu a Foto do Ano da World Press Photo, uma das mais importantes honrarias do fotojornalismo, com seu registro de Mahmoud Ajjour, uma criança de nove anos que perdeu os dois braços num bombadeio sionista em março de 2024 (Abu Elouf, conforme reportagem da BBC, vive no mesmo prédio de Ajjour, em Doha, Catar, para onde fugiu depois dos ataques sionistas em outubro de 2023).
Percebam a crueldade envolvida em todos esses eventos jornalísticos: enquanto um dos maiores festivais de cinema do mundo anunciava em sua programação um documentário protagonizado por uma fotógrafa palestina, Israel assassinava a fotógrafa e sua família, num ataque que de forma alguma pode ser atribuído ao acaso — como sempre tenta fazer parecer a narrativa sionista. Na mesma esteira do tempo, uma das maiores instituições de fotojornalismo deste planeta anuncia sua foto do ano, que, além do reconhecimento mundial, rende à pessoa vencedora um prêmio de 10 mil euros. A nota do júri a respeito da escolha pela foto de Samar é um tanto esclarecedora (ainda que possamos questionar a efetividade de suas provocações):
A fotografia de um jovem rapaz de Gaza, Mahmoud, fala sobre os custos a longo prazo da guerra, os silêncios que perpetuam a violência e o papel do jornalismo na exposição dessas realidades. Sem se esquivar dos impactos corporais da guerra, a fotografia aborda o conflito e a apatridia de uma perspectiva humana, lançando luz sobre os traumas físicos e psicológicos aos quais os civis foram forçados e continuarão a suportar, através de assassinatos e guerras em escala industrial.
Sentiu falta de algo, né? É deslumbrante como uma premiação deste naipe consegue produzir e publicar uma nota desse tipo sem tocar nem de relance, em nenhum momento, na raiz do que causa os “custos a longo prazo da guerra” — e nem vamos entrar aqui numa discussão linguística a respeito da suposta guerra, pois já tratei do tema em outros textos…
Samar Abu Elouf é um alvo triplamente qualificado aos olhos da máquina de assassinatos israelense: é palestina, é mulher, é jornalista — mais especificamente, uma fotojornalista. O fato de que sua fotografia vencedora da World Press Photo of The Year ter sido publicada no New York Times não lhe dá nem um milímetro a mais de segurança. Israel tem deliberadamente atacado mortalmente desde iniciativas de ajuda humanitária, passando por médicos e profissionais de saúde, até jornalistas que trabalham na cobertura da, para usar o termo preferido do ocidente, guerra.
Dentre seus trabalhos fotográficos como refugiada no Catar, Samar registra um grupo lastimavelmente grande de pessoas afetadas pelas atrocidades sionistas: as crianças como Mahmoud, que, segundo a UNRWA (2024), estão “[…] perdendo membros e passando por cirurgias sem anestesia.” E continua: “Gaza agora tem o maior número de crianças amputadas per capita do mundo” — e não temos nem 24 meses de massacre…
Felizmente, Samar não faz parte da também lastimável estatística de profissionais do jornalismo que Israel assassinou desde outubro de 20232, um número que já passou das duas centenas e hoje inclui o nome de outra fotojornalista palestina, Fatma Hassouna, junto com o de vários membros de sua família martirizados por um bombardeio israelense no norte da Cidade de Gaza. Poucas horas antes de morrer, a jornalista postou um story em seu perfil do Instagram, dizendo que há muito não via um por-do-Sol. Um outro post ganhou agora ares de profecia autorrealizável e lema a ser incorporado na luta palestina antissionista:
Quanto à morte inevitável, se eu morrer, quero uma morte barulhenta, não me quero em uma notícia de última hora, nem em um número com um grupo, quero uma morte que seja ouvida pelo mundo, um rastro que dure para sempre, e imagens imortais que nem o tempo nem o lugar podem enterrar.
Fatma ecoa as palavras de Rafeet al-Areer, também assassinado por Israel em 2023: que as suas mortes, por mais dolorosas e inconsoláveis que sejam, inspirem a tomada por uma ação frente ao fascismo sionista — que sejam novas bases do sumud para enfrentar a violência colonial. As fotos de Hassouna registram o cotidiano do povo num dos piores momentos da ocupação israelense, mas sem se dobrar a uma resignação paralisante ou inebriante; ao contrário, suas composições trazem gravadas as possibilidades de imaginar um futuro diferente e livre, do rio ao mar.









(Todas as fotos dessa galeria foram retiradas do perfil de Fatma Hassouna no Instagram)
Abbud também é considerada, segundo pesquisadores de sua obra no Palestinian Journeys, uma das primeiras mulheres a dirigir na Palestina ainda durante o Império Otomano. Seu pioneirismo também ajuda a desmantelar os estereótipos mais comuns associados a mulheres árabes e palestinas, como a ideia de que são todas submissas aos homens, ignorantes e/ou fábricas de crianças.
Uma discussão mais aprofundada é mais do que bem-vindo sobre este assunto, já que Israel não começou a assassinar jornalistas exercendo suas atividades após os ataques do Hamas em 2023. O histórico deplorável de ataques ao jornalismo também faz parte da essência sionista. Um caso marcante e recente é o do assassinato da jornalista Shireen Abu Akleh, que trabalhava para a Al Jazeera. Enquanto trabalhava cobrindo uma incursão das FDI em Jenin, em março de 2022, Shireen tomou um tiro único na cabeça, indicando uma execução deliberada. Ainda não havia ataque do Hamas para justificar uma crueldade desse tamanho, então Israel tentou se virar com outras desculpas ruins, até que finalmente admitiu a “alta probabilidade” da jornalista ter sido morta (jamais assassinada!) pelas FDI.




