#9 — NO FUTURO, ELES COMIAM DA MELHOR PORCELANA, de Larissa Sansour
Ou: apenas a radicalidade pode salvar a história palestina contra os sionistas genocidas (parte 1)
Este texto é fruto da minha pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto, sob orientação gentil e atenciosa de Karina Gomes Barbosa, publicada em 2024. É a primeira parte dedicada a três filmes de ficção-científica de Larissa Sansour, que são analisados em outros dois textos
Muito já se debateu sobre a eficácia da violência anti-imperialista/anticolonialista em diversas partes do mundo. Eu sou do time Fanon/Said: a violência deve ser, sem dúvida alguma, uma etapa para libertação da opressão, o que significa, obviamente, que em algum momento ela deve também ser superada pela conscientização política de quem se libertou. Desde 7 de outubro de 2023, vemos mais ou menos um exemplo desta constatação ser transmitido ao vivo (agora, com menos força que há alguns meses, mas não menos violento e grotesco): o ataque do Hamas ao território israelense trouxe à tona preconceitos antigos e recauchutados contra a resistência palestina à opressão sionista.
Prometo não divagar demais sobre este aspecto mais notadamente político e histórico do conflito1 (leia-se: massacre) Israel-Palestina; afinal, o foco aqui é cinema, TV e outras coisas mais relacionadas. Contudo, este breve contexto se faz necessário, pois hoje a indicação é para que vejam a obra de Larissa Sansour, cineasta palestina, nascida em Jerusalém e que vive no exílio há algumas décadas.
Arrebatadora e muito diversa, vamos estreitar o foco: falemos do sci-fi de Sansour, um conjunto de quatro curtas que se debruçam sobre a situação da colonialidade e seus efeitos na Palestina — e que, como toda boa obra-de-arte, pode ser extrapolada para compreender os efeitos nefastos da colonização sobre boa parte do mundo, desde o século XVI, e notadamente no XIX e no XX.
Um prelúdio anticolonialista
O primeiro filme é uma singela homenagem a um clássico da cinematografia estadunidense, 2001: Uma odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, e a um dos maiores temas épicos de Hollywood: a chegada do Homem na Lua. Tanto quanto uma homenagem, é uma crítica bem humorada, muito ácida e mais um bastante desalentadora. Em Êxodo espacial (2009), Sansour interpreta e dirige a primeira mulher palestina a pisar no satélite terrestre, reinterpretando um evento histórico e reimaginando uma fuga da situação colonial na qual se encontra seu povo. O desfecho, contudo, nos mostra que a Palestina ainda é um assunto, no mínimo, que se perde à deriva num emaranhado de “complicações”, tal qual a astronauta de Êxodo espacial. Afinal, é um povo que, conforme Edward Said (2012) muito bem apontou, insiste em viver e causar problemas para o projeto sionista de ocupação total do território palestino.
O sonho de colonizar a Lua ganhou força nos últimos tempos com os devaneios de bilionários como Elon Musk e Jeff Bezos, que prometem chegar ao satélite e em outros planetas para tentar torná-los atrativos à Terra — seja colonizando-os de fato (algo ainda um bocado improvável), seja explorando-os para dar sobrevida ao consumo capitalista terrestre: em vez de esgotarmos nosso já tão combalido planeta, vamos explorar o resto do sistema solar.
Este sonho, no filme de Larissa, esbarra numa realidade cruel e nefasta, enfrentada pelo povo palestino desde 1948, quando da criação de Israel e a implementação do projeto político sionista com mais rigor metodológico. Não é à toa que o filme evoca o êxodo: o que para os sionistas israelenses e judeus significou a criação de um Estado-nação seguro, um lar para chamar de seu, para palestinos e outros povos que viviam por lá foi o começo de um violentíssimo processo que ainda se estende até os dias de hoje, recrudescido pela “guerra” (ver nota sobre “conflito”) de Israel contra o Hamas. O êxodo espacial de Larissa Sansour é o êxodo nacional de palestinos, despojados de seu território para dar lugar a pessoas vindas de vários cantos do mundo, mas sobretudo da Europa.
A astronauta à deriva em Êxodo Espacial representa um povo que novamente se vê sem rumo, envolvido num cenário de aniquilação de suas casas, centros comunitários, hospitais, fazendas e tudo o mais que as Forças de Defesa de Israel puderem destruir. Ao chamar, em vão, por Jerusalém, já no final do curta, a astronauta dá voz e corpo aos chamados atuais para que se dê um basta ao genocídio do povo palestino, ainda evocando al Nakba de 1948.
Reconfigurando o terrorismo como arma narrativa
Neste contexto, em que sionistas desde 1948 ocupam e colonizam o território palestino, descumprindo inclusive importantes resoluções das Nações Unidas2, e desde 2023 promovem um genocídio ao vivo e a cores para todo o mundo, um conceito-chave voltou à tona com força total, após alguns anos em um certo adormecimento: o terrorismo.
Graças à malfadada Guerra ao Terror, conforme aponta Reginaldo Nasser (2021), em que por mais de vinte anos os Estados Unidos da América ocuparam e destruíram tudo o que conseguiram no Iraque (e mais alguns países árabes, como a Síria e o Iêmen, além de sua belicosa relação com o Irã), o terrorismo não ganhava tanto espaço midiático, ainda que, é claro, aparecesse aqui e acolá, como em notícias e combates ao Estado Islâmico, por exemplo. Porém, o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 mudou tudo, e o mundo ocidental rendeu-se à retórica sionista, capitaneada pelo inescrupuloso Benjamin Netanyahu e seus mais fieis escudeiros, Itamar Ben-Gvir, Bezalel Smotrich, Daniel Hagari e Israel Katz: Israel (o país, obviamente) está combatendo o Hamas; a guerra é contra o Hamas; é necessário libertar o país das garras do Hamas3; e, por fim e mais importante, Israel está combatendo o terrorismo4.
(É claro que todos deveríamos nos perguntar — como bem o fazem aqueles e aquelas que ainda mantém o mínimo de dignidade humana — se todo o povo palestino é terrorista, considerando a mortandade perpetrada pelo sionismo — e não só agora, como no passado, recente e longínquo).
Terrorismo é, também, o conceito-chave em No futuro, eles comiam da melhor porcelana (2016), uma obra intrincada e que, para mim, muda toda a interpretação do que vem depois na obra de Larissa (e também nos permite analisar mais aprofundadamente o que vem antes em sua filmografia).
A terrorista-narrativa, nossa protagonista, rememora com uma espécie de terapeuta sua vida pessoal a partir do assassinato da irmã aos nove anos de idade; enquanto isso, desenvolve sua teoria sobre a manipulação da história para que, no futuro, saibam que seu povo existiu e resistiu a uma força colonizadora, estabelecendo um link fundamental entre a arqueologia e a construção de sentido — um tema já tratado por Said (2007), quando investiga as raízes do que chamou de orientalismo (a ideia de um Oriente formatada a partir de construções narrativas científicas e artísticas de expedições ocidentais, não por acaso imperialistas e colonialistas), e também por Fredric Jameson (2019), quando realça o poder das utopias na criação de sentido e no fortalecimento do sentimento revolucionário (no caso do filme, manifestados contra a ocupação sionista, de forma a libertar o povo palestino — ainda que não explicitamente citado — da colonização e das práticas imperialistas do Estado de Israel).
No futuro… nos faz pensar em como a violência pode ser uma ferramenta de emancipação se utilizada de forma coerente e parcimoniosa, através de um método bem delimitado em seus objetivos. De todo jeito, a violência que a terrorista-narrativa propõe é meramente simbólica, ainda que sua intenção de fato intervenha no curso da história. Sansour, então, através de uma sequência em que sua terrorista-narrativa despeja bombas no território desértico do filme, cria um contraste inesquecível com as imagens devastadoras e grotescas da máquina sionista de matar palestinos e palestinas, num choque devastador: as bombas que a protagonista despeja se abrem quando tocam o solo e revelam sua formidável porcelana, estampada com os padrões do keffiyeh, o tradicional lenço palestino que se tornou símbolo de resistência à colonização.
É óbvio que ao se considerar uma terrorista-narrativa a protagonista também evoca o imaginário do que o terrorismo significa, e mais ainda os acontecimentos pós-7 de outubro de 2023. O Hamas, portanto, é o símbolo da interdição do debate acerca da situação palestina: se o grupo é terrorista, logo deve ser rechaçado e combatido com toda a força possível; o objetivo principal é acabar com o Hamas, antes que ele acabe com os judeus5. Tal interdição é identificada por Judith Butler, quando caracterizou o Hamas como um grupo de resistência, deixando claro que isso não significa, sob nenhuma ótica, concordar com seus atos no 7 de outubro ou em outros momentos. O que Butler notavelmente critica é a noção de que a resistência a um poder colonial, destrutivo e ameaçador, seja sempre um ato terrorista, sem que se reflita acerca do contexto em que essa resistência se insere e sob quais formas ela pode se manifestar. É por isso que a alternativa de Sansour em No futuro… é tão potente e revolucionária.
A misteriosa mulher propõe repensar a história — a narrativa — do ponto de vista do povo que, até hoje, é representado como bárbaro, incivilizado, violento, lascivo, traiçoeiro e, ironicamente, terrorista. É aí que reside sua maior sensibilidade, partindo de conceito que, conforme nos mostra Nasser (2021), sequer tem um consenso acerca de sua definição: ressignificar um termo que interdita qualquer debate para que dele se extraia uma força criativa e, de certa forma, revolucionária. A terrorista-narrativa é, portanto, ela mesma um símbolo da resistência palestina rumo a sua emancipação dos horrores do sionismo, agindo radicalmente contra o Estado de Israel, uma verdadeira ícone anticolonial.
Para um olhar um pouco mais aprofundado acerca de No futuro…, você pode ler o capítulo 3 da dissertação Resistência anticolonialista na ficção científica de Larissa Sansour; para um outro olhar sobre a mesma obra, ver o artigo Decolonialidade, gênero e temporalidade na narrativa testemunhal de Larissa Sansour — ambos de minha autoria, o segundo em colaboração com Karina Gomes Barbosa.
Referências bibliográficas
Jameson, Fredric. Arqueologias do futuro. O desejo chamado Utopia e outras ficções científicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
Nasser, Reginaldo. A luta contra o terrorismo: os Estados Unidos e os amigos talibãs. São Paulo: Contracorrente, 2021.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Said, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Uso conflito neste texto como recurso meramente retórico; um conflito pressupõe algum tipo de paridade entre as partes. No caso Israel/Palestina, a história nos mostra que o sionismo tem como objetivo, desde pelo menos o final do século XIX, tomar todo o território palestino para incorporá-lo a Israel, um Estado reconhecido internacionalmente. Seu exército é um dos mais bem equipados do mundo, e o orçamento militar israelense é incomparável ao orçamento da resistência palestina — sequer existe um exército palestino para combater as Forças de Defesa de Israel, ainda que o Hamas e outros grupos contem com ajuda de Irã, Líbano e outros países que defendem tanto a autodeterminação palestina quanto (e mais relevante) seus próprios interesses numa região rica em petróleo, gás e outros bens naturais. Ainda assim, é sempre importante notar opiniões interessantes e divergentes sobre o conflito, como a do professor Bruno Huberman, em entrevista ao podcast Viracasacas.
Israel é um Estado que notoriamente desrespeita as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU), conforme atestado em reportagem no G1 sobre uma das mais importantes (e também das mais ignoradas) — a Resolução 242, de 1967, criada como resposta à Guerra dos Seis Dias e que exigia a retirada das forças de ocupação sionistas dos territórios conquistados no conflito contra árabes. A situação pós-7 de outubro de 2023 não é diferente: Israel continua com uma carta branca para ignorar as recomendações, resoluções e o que mais vier da ONU (sempre apoiada pelos EUA e parte da União Europeia), e chegou a declarar António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, persona non grata em seu Estado.
Desde o começo de sua “guerra contra o Hamas”, Netanyahu e seu gabinete têm tratado a população palestina (e quem por ventura a apoie em suas demandas) como uma grande forma monolítica. Assim, palestinos e palestinas, crianças, homens, mulheres, idosos e idosas, doentes ou não, são considerados terroristas, e essa desumanização ecoa em reportagens e análises midiáticas, além de, de seu jeito, facilitar o processo de limpeza étnica empreendido pelos sionistas (ver, por exemplo, a declaração de Yoav Gallant, em 9 de outubro de 2023, quando afirmou que Israel estava “lutando contra animais”). Essa ideia também coloca Israel no polo oposto ao dos supostos terroristas, e assim Israel só pode ser o lado Bom tentando combater o barbarismo dos Maus, ecoando o fenômeno orientalista teorizado por Said (2007).
Conforme defendido neste artigo e em minha dissertação, o combate ao terrorismo é usado como uma desculpa conveniente para os planos de limpeza étnica empreendidos pelo sionismo — e não é sequer uma desculpa recente. Desde al Nakba, o Estado de Israel alega estar combatendo o terror e estar cercado de bárbaros (é a forma que o sionismo encontrou para permanentemente desumanizar árabes da região). Em novembro de 2023, cerca de um mês após os ataques do Hamas — que devem sempre ser condenados como crimes de guerra, ações atrozes injustificáveis —, especialistas como Francesca Albanese, da ONU, e jornalistas como Antony Loewenstein, na Al Jazeera, já questionavam as frágeis alegações sionistas de estarem combatendo o terrorismo.
É inegável que o Hamas já tomou atitudes contra Israel motivadas pelo mais tenebroso antissemitismo; contudo, conforme é possível acompanhar, o grupo também mudou suas atitudes e ações ao longo do tempo. Isso não significa, obviamente, que endosso, concordo ou incentivo qualquer forma de violência que o Hamas utilize contra israelenses. Constatar a complexidade histórica do grupo não significa concordar com ele.


