#8 — O LOBBY, da Al Jazeera (parte 2)
(Ou: pagar excursões para o paraíso sionista sempre é um bom negócio)
Esse texto vai ser curtinho, pois é basicamente uma atualização do post anterior, com o restante do documentário O Lobby, da Al Jazeera, e que pode ser visto no YouTube (no canal do Intercept Brasil, as partes 1, 2, 3 e 4 estão legendadas em português).
Os frutos da viagem de jornalistas à Israel patrocinada pelo Instituto Brasil-Israel já começam a amadurecer: Pedro Dória, em seu texto O que pensam os israelenses, conseguiu desenterrar uma das mais importantes mentiras contadas pós 7 de outubro de 2023, quando Asher Moskowitz, um voluntário no atendimento às vítimas do ataque, afirmou que o grupo assou um bebê no forno de uma das casas destruídas. Numa prova da crise jornalística que assola boa parte do mundo, quase nenhum veículo apurou, instantaneamente, a “notícia” — mais tarde, na época, finalmente conseguiram desmentir. Juntamente com a invenção de que 40 bebês foram decapitados pelo Hamas no dia 7/10/23, essa mentira causou estragos, ainda que desmentida posteriormente, inclusive por autoridades oficiais sionistas.
Associar todo o mal do mundo ao Hamas, contudo, não é novidade — ao contrário, é o modus operandi de organizações como a AIPAC e a Israel Campus Coalition, onde quer que atuem. Afinal, como afirma John Mearsheimer, professor de ciência política da Universidade de Chicago, “Terrorismo é uma palavra muito eficaz, e o que muitas pessoas no lobby tentam fazer é descrever grupos pró-árabes ou pró-palestinos como terroristas." Mearsheimer é autor do livro que embasa o documentário da Al Jazeera, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy — pra um bom resumo, tem um artigo do próprio professor junto com seu parceiro de livro, Stephen Walt.
Terrorismo, de fato, é uma palavra muito eficaz. Com uma definição ampla e ambígua, hoje serve basicamente para descrever árabes e muçulmanos — principalmente depois do 11 de setembro. Acusar alguém ou um grupo de praticar o terrorismo é (e novamente ecoo aqui as palavras de Mearsheimer no filme) é basicamente mais uma arma de islamofobia. E quem sabe disso melhor do que ninguém é o lobby sionista. The Lobby deixa isso claro como o dia — e o péssimo texto de Pedro Dória comprova que o esforço é transnacional.
(Aliás, é curioso como Filipe Figueiredo, que está na mesma viagem que Dória, viu de forma diferente — e muito mais honesta e crítica — como a sociedade israelense tem reagido às atrocidades de Netanyahu e à proposta criminosa de Donald Trump de transformar Gaza numa riviera do Oriente Médio; Figueiredo tem muito mais clareza de que a sociedade israelense está se fascistizando, e que isso é nefasto para o país e pro resto do mundo1).
Assim, parte importante da atuação do lobby sionista é associar organizações estudantis como a Students For Justice In Palestine, ou que nasceram nas universidades estadunidenses e hoje atuam em outras áreas como o Movimento BDS, ao terrorismo do Hamas — mas você pode trocar Hamas pela Frente Popular para a Libertação da Palestina, ou pela Irmandade Muçulmana, ou pela American Muslins For Palestine, ou qualquer outra organização, instituto, movimento etc. que tenha como principal diretriz o reconhecimento dos direitos do povo palestino. Quando sionistas acusam quem quer que seja de terrorismo, o objetivo é interditar qualquer possibilidade de debate sério, de conversa, de ação direta contra a opressão e os abusos (e potenciais crimes) cometidos pelo Estado de Israel.
Outra acusação que tem efeito parecido é a de antissemitismo, e organizações como a AIPAC não têm vergonha nenhuma de colar a pecha de antissemita em qualquer pessoa que ouse criticar as atrocidades sionistas — a confusão que tais organizações fazem entre judaísmo e sionismo é proposital, é claro, pois beneficia justamente o poderio ideológico sionista. Uma acusação de antissemitismo basta para interditar toda e qualquer conversa sobre direitos palestinos — e, novamente, essa confusão é proposital: iguala-se um crime à defesa da soberania e autodeterminação de um povo; assim, se somos pró-Palestina, somos, na visão sionista, antissemitas. É uma definição que a Aliança Internacional de Memória do Holocausto (em inglês, IHRA) vem forçando goela abaixo em diversas instituições, organizações e Estados e municípios, nos EUA, no Brasil e em vários países.
É por isso que há uma preocupação e um esforço monumental de instituições como a já citada AIPAC, ou a Stand With Us2, ou até mesmo o Instituto Brasil-Israel (ainda que em termos mais, digamos, palatáveis, já que se consideram sionistas progressistas), de condenar o uso de certos termos como antissemitas, ou até mesmo de tentar interditar ou ressignificar a linguagem. Slogans como from the river to the sea, Palestine will be free ou palavras como intifada passam a significar, automaticamente, extermínio de judeus, logo, são antissemitas. E é justamente o que The Lobby nos mostra, com uma verdadeira caça às bruxas em campi universitários e em casas legislativas nos EUA (não muito diferente do que acontece por aqui, ainda que em uma proporção menor).
Porém, é curioso, e um tanto lamentável, que os sionistas não se preocupem de verdade com pedidos de limpeza étnica ou extermínio de outras pessoas — notadamente os palestinos. O never again, que deveria ser um imperativo moral da defesa da vida de todo mundo, mostrou-se, em boa parte da sociedade israelense3, um reforço da excepcionalidade judaica-israelense: nunca mais, mas só para proteger Israel. Recentemente, ao divulgar uma HQ junto com Joe Sacco, Art Spielgman ressaltou justamente estes termos, ainda deixando claro que jamais quis que Maus fosse um livreto educativo para ensinar lições para o mundo.
De todo jeito, como as coisas estão, fica razoavelmente fácil para o sionismo se alinhar, por exemplo, a cristãos sionistas (a maioria evangélicos), que defendem esta excepcionalidade graças a uma interpretação bíblica que, ao fim e ao cabo, retrata justamente o extermínio ou a subjugação de judeus. Soa bizarro, não? Mas, segundo a corrente defendida em The Lobby, é justamente neste pé que esta relação sionismo-cristianismo sionista está: quando todos os judeus se reunirem na terra prometida de Israel, o Messias (cristão) finalmente voltará — mas os judeus não reconhecem o Messias cristão. Então, para que a profecia se concretize, o judaísmo deve
ser subjugado e convertido ao cristianismo; ou
ser varrido da Terra.
Como se chama isso na terra de vocês?
É crucial entender que as críticas à viagem patrocinada pelo IBI estão justamente na natureza desse instituto e seu esforço de “limpar a barra” da Israel. Bruno Huberman condensou com mais clareza essa ideia. Ninguém se opõe a que jornalistas viagem para onde quer que seja, mas que se tenha noção do tipo de viagem que se faz. Sionista progressista, como é o caso do IBI, ainda é sionista: sua defesa não é a emancipação do povo palestino.
SWU também costuma patrocinar excursões para conhecer a “realidade” de Israel. Recentemente, aqui mesmo, no Brasil, a organização realizou uma viagem com 15 acadêmicos de diversas universidades. A forma de operação é a mesma utilizada pela SWU nos EUA, e também a mesma de outras instituições sionistas.
O trecho em que o Xadrez Verbal, através de Filipe Figueiredo, comenta a situação Palestina/Israel começa em 1h13. Figueiredo é um dos integrantes da comitiva que o Instituto Brasil-Israel levou para Israel recentemente, que motivou meus dois últimos textos. E conforme já explicitado anteriormente, o problema jamais se localizou na viagem em si, mas sim em quem/o que patrocina essas viagens. Há diversas instituições que lutam pela garantia de respeito aos direitos humanos em Gaza e na Cisjordânia que poderiam intermediar uma viagem desse tipo.


