#7 — O LOBBY, da Al Jazeera (parte 1)
Ou: lobby sionista existe, não é tudo isso, mas não é inofensivo (ou ainda: nem tanto ao céu, nem tanto ao mar)
Antes de começar de fato este texto, é preciso ressaltar que, diferentemente do que muita gente afirma por aí, às vezes bem intencionada mas com muita ignorância (o que se resolve com um tiquinho de leitura e conhecimento), às vezes só aproveitando oportunidades para destilar ódio aos judeus (o que se resolve com cadeia e punição), judeus não dominam o mundo. Seja através de representações de polvos enfiando seus tentáculos em áreas como o entretenimento, o mercado financeiro, o mercado imobiliário etc., seja através daquelas figurinhas corcundas e narigudas com a cara depravada, não há absolutamente nenhuma relação entre os judeus e a ordem do mundo conforme sua vontade. Isso é só antissemitismo, puro e simples. E é crime1.
O que também é necessário ressaltar, por sua vez, é que, também diferentemente do que muita gente bem intencionada e outras nem tanto afirmam, existe, sim, um lobby sionista no mundo — ou, pelo menos, nas principais nações do mundo (Malm, 2024). Já deveria ser ponto pacificado que sionismo de forma alguma se confunde ou se iguala a judaísmo — pelo contrário, e como nos explica magistralmente Judith Butler (2017), os valores do judaísmo são, na verdade, opostos à ideologia sionista; se esta é mais uma manifestação fascista, que prega a segregação, o supremacismo e o racismo, aquela caminha na direção oposta, pois “[…] os compromissos com a igualdade social e a justiça social têm sido parte fundamental das tradições judaicas seculares, socialistas e religiosas” (p. 11 — sim, Butler condensou na primeira página de sua Introdução em Caminhos divergentes algo que muita gente ainda faz questão de ignorar).
Este lobby, contudo, não é como um monstro que devora tudo ao seu redor, obrigando tudo e todos a cederem a suas vontades; tampouco é fato da natureza, uma necessidade básica para garantir a segurança de judeus. É, simplesmente, um lobby, que exerce pressão sobre casas legislativas e universidades, sobre empresas e pessoas comuns, sobre a mídia e o complexo de entretenimento. E não pode ser ignorado, nem subestimado.
Este texto foi motivado por uma imagem que rodou o BlueSky na quinta-feira (deve ter rodado o lixão da internet também, com certeza): Bruno Huberman, professor da PUC-SP e pesquisador da Palestina, compartilhou uma foto com sete pessoas sorridentes num aeroporto e a seguinte legenda:
Duas organizações do lobby israelense no Br, stand with us e IBI, organizaram viagens de acadêmicos e jornalistas pra vender a versão israelense do genocídio em Gaza. Levando em consideração q são viagens pagas, a baixa quantidade de pessoas envolvidas e a irrelevância p/ a comunicação e as ciências nacionais da maioria dos participantes, revela o fracasso do lobby. Sei de mta gente q foi abordada e manteve a moralidade d rejeitar a colaboração c/ defensores do genocídio.
E lá está ele, o lobby…
Das sete figuras na fotos, reconheci logo de cara apenas três. Discordo de Huberman quando afirma que as pessoas envolvidas na SionTrip tem baixa relevância para a comunicação nacional (para as ciências, talvez): Tatiana Vasconcellos, a de óculos e camisa branca, é apresentadora de um jornalístico de grande alcance, o Estúdio CBN; Anita Efraim2, na ponta-direita, trabalha no canal esportivo GOAT, além de ser membro da diretoria do Conselho Juvenil Judaico Sionista; Pedro Dória, de camisa verde logo acima de Vasconcellos, que costuma sempre estar do lado errado da história, é fundador do Canal Meio e colunista n’O Globo e na CBN; por fim, pra não me estender muito, temos o homem que decepcionou muita gente (inclusive eu) quando da divulgação da foto: Filipe Figueiredo, do podcast Xadrez Verbal e colunista d’A Gazeta do Povo (é o de camisa preta, na esquerda). Todos jornalistas.
É fundamental ressaltar este último ponto: todos jornalistas. Ainda em 2023, em dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu que Gaza era o lugar mais perigoso para jornalistas no mundo todo; no momento desta constatação, 64 profissionais da comunicação foram assassinados (ou mortos, dependendo de como você encara a língua) por Israel durante a cobertura do genocídio palestino. De lá pra cá, até 25 de dezembro de 2024, “[…] pelo menos 217 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos em Gaza. […] Essas mortes mais recentes de jornalistas ressaltam o ambiente perigoso em que os profissionais da mídia estão operando em Gaza. Simplificando, este tem sido o pior conflito para jornalistas — de todos os tempos.” (Hussein; Duggal, 2024, online)
217 jornalistas mortos em Gaza em 15 meses de massacre sionista.
Na terça-feira, 4 de fevereiro, Lina Abu Akleh rememorou os 1000 dias da morte de Shireen Abu Akleh, sua tia. Morte, não: assassinato. Shireen foi deliberadamente assassinada (com o perdão do pleonasmo, ele serve pra reforçar a violência) pelas Forças de Defesa de Israel enquanto estava trabalhando — vejam só, t-r-a-b-a-l-h-a-n-d-o. Ela não era uma militante do Hamas, ou do Hezbollah, nem seu trabalho envolvia jogar pedras em soldados sionistas ou coisas do tipo. Shireen Abu Akleh era uma jornalista, experiente, respeitada. Mais especificamente, uma trabalhadora da Al Jazeera. Foi assassinada com um tiro na cabeça de algum fascista fardado das FDI.
1000 dias, Shireen Abu Akleh, 2022
217 jornalistas mortos em Gaza em 15 meses de massacre sionista.
217+1 (e +1, +1, +1, +1…)
Antes de falar brevemente do filme da semana, que atropelou o que estava programado anteriormente e que espero conseguir amarrar tudo o que escrevi até o momento, vale refletir um pouquinho: é um comportamento ético jornalistas aceitarem viajar para um Estado que tem deliberada e metodicamente assassinado seus colegas de profissão em nome da defesa de um etno-Estado, seja em um estado de “guerra”, seja em um estado de “normalidade”, como em 2022 e o caso Abu Akleh?
O maldito lobby
Correndo o risco de ser muito repetitivo, sim, o lobby sionista existe — ele machuca, persegue, constrange e colabora com o Estado de Israel. The lobby (2018), da Al Jazeera, mergulhou mais fundo nesse emaranhado complexo de tráfico de influência, propaganda, financiamento de campanhas, agendamento midiático e perseguição de opositores e críticos de Israel, trazendo à superfície um gostinho de como operam algumas das principais organizações sionistas nos Estados Unidos da América. O filme dialoga com um cenário um tanto mais acirrado que o nosso caso aqui no Brasil, mas nem por isso é um cenário específico dos EUA: organizações como a Stand With Us têm laços fortes no Brasil, e o Instituto Brasil-Israel, que também patrocinou a viagem dos jornalistas, também está bem próximo de autoridades e organizações lobistas sionistas.
Tanto IBI quanto SWU são instituições sionistas — isso é preciso ficar muito claro. Com mais ou menos ênfase na defesa de garantias de direitos para a população palestina, nenhum dos dois se opõem de fato à ocupação sionista e à raiz da questão palestina: o sionismo é um projeto colonialista, que prega a supremacia de judeus sobre árabes/palestinos3. Sua essência está diretamente ligada à expulsão forçada e/ou aniquilamento do povo autóctone do território onde hoje se sustenta Israel, baseada numa interpretação bíblica que nos legou um etno-Estado religioso num regime de apartheid (Khalidi, 2024; Lowenstein, 2024; Sand, 2010).
Na tela, a Al Jazeera encontra o que Antony Loewenstein (2024) descreveu em seu livro Laboratório Palestina: Israel exporta para o mundo tecnologias de espionagem, vigilância, segurança e bélica testadas e aprovadas nos territórios ocupados. A expertise do Estado israelense através do Mossad, do Shin Bet, das FDI e diversas empresas privadas do setor garante polpudos recursos para o tesouro nacional — e o lobby retratado no filme é parte fundamental dessa estratégia de desenvolvimento de Israel.
Focado nos EUA e realizado num formato clássico de documentário-investigativo (com direito a narração que guia o público, trilha sonora que acompanha os momentos dramáticos e enfatiza a gravidade do tema, câmeras escondidas, repórter infiltrado etc.), The lobby é dividido em quatro partes, das quais a primeira é notavelmente mais interessante no diálogo com este texto: é nela que se encontram explícitos os métodos de atuação da AIPAC4 e de outras organizações sionistas nos campi universitários e no jornalismo estadunidense.
Um alvo recorrente desse lobby é o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que causa preocupações muito severas em líderes e autoridades sionistas. Omar Barghouti, um dos fundadores do BDS, explicita, em depoimento no filme, que advogar pelos direitos iguais de palestinos e israelenses atinge em cheio a ideologia sionista. Para atingir o movimento, Israel lança mão de um projeto chamado Israel Cyber Shield, uma “[…] unidade de inteligência civil que coleta, analisa e atua contra os ativistas do movimento BDS" (trecho retirado da narração de The lobby) — ou seja, o Estado usa sistemas de inteligência para perseguir opositores, uma tática esmiuçada por Loewenstein (2024).
O impacto que as ações e protestos do BDS promovem na imagem quase imaculada de uma Israel democrática e inclusiva gera diversos contra-ataques sionistas, principalmente através de campanhas difamatórias contra estudantes e militantes pró-Palestina. Para isso, empresas israelenses fornecem softwares de espionagem e vigilância para o governo e/ou instituições aliadas contra insurgentes, numa explícita violação de direitos fundamentais das pessoas envolvidas. Protestar contra arbitrariedades não é crime; porém, é muito perigoso, se o alvo for a politica segregacionista e fascista de Israel, e pode acabar se transformando numa enorme dor de cabeça quando militantes da causa palestina enfrentam acusações de antissemitismo ou ligações com organizações consideradas terroristas.
Não à toa, outra engrenagem fundamental na estrutura lobista é a complacência midiática, seja na TV, no rádio, nos jornais ou na internet. Não precisamos procurar muito para achar canais que, supostamente defendendo a soberania israelense e seu direito de existir (como se alguém estivesse pedindo que o povo israelense deixasse de existir), promovem a ideologia sionista e seu projeto colonialista sem muito pudor. No filme, The Israel Project é apontado como o braço de intervenção midiática na promoção do lobby sionista: sua “sala de guerra” (é chamada assim literalmente documentário) criou uma rede de contatos com jornalistas e formadores de opinião, orientados para espalhar a palavra do sionismo e a versão que Israel deseja que se torna a narrativa oficial. A ideia é criar uma espécie de câmara de eco pró-sionismo/Israel, amplificada pela mídia, neutralizando "narrativas indesejáveis".
The lobby é de 2018, e tem uma versão de 2017 que retrata a situação no Reino Unido, outro fortíssimo aliado de Israel. E agora, em 2025, vemos a tragédia se repetindo, tal qual 2018 ou 2017 repetiram outros acontecimentos patrocinados pelo lobby sionista. É preciso nos questionar se vale mesmo a pena encarar uma viagem patrocinada por organizações que são linhas auxiliares deste lobby e de um Estado que promove o genocídio de um povo com transmissão ao vivo. Há diversas formas de se chegar até a Palestina em segurança, através de instituições sérias ligadas aos direitos humanos e a promoção da autodeterminação do povo palestino; certa e definitivamente, uma dessas formas não é aceitar rolê de sionistas com tudo pago.
Por fim, um questionamento: esses sete jornalistas da imagem aceitariam visitar a África do Sul com uma viagem paga pelo Partido Nacional? Aceitariam visitar o Donbass com tudo pago pelo governo de Vladimir Putin? Ou topariam dar uma olhada em Srebrenica sob o patrocínio de Ratko Mladić? Uma saída menos vexatória seria encarnar a sogra de Rudolf Höss em Zona de Interesse e se retirar o mais brevemente possível do território devastado pela sanha violenta do sionismo. Mas isso é pedir demais de quem acredita piamente nos valores liberais como guia da moralidade.
Afinal, progressistas, sim, exceto pela Palestina.
Referências bibliográficas
Loewenstein, Antony. Laboratório Palestina: como Israel exporta tecnologia de ocupação para o mundo. São Paulo: Elefante, 2024.
Malm, Andreas. A destruição da Palestina é a destruição do mundo. São Paulo: Elefante, 2024.
Khalidi, Rashid. Entrevista concedida a Tariq Ali. Margem Esquerda, São Paulo, 43, p. 11-45, 2º semestre. 2024.
Sand, Shlomo. The invention of the jewish people. London/NY: Verso, 2010
Antissemitismo é crime, mas sua definição está longe de estar pacificada. O link publicado nesta nota, inclusive, usa a problemática nova interpretação de antissemitismo definida pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Esta definição tem sido adotada por diversos países e estados, inclusive no Brasil, causando uma confusão proposital sobre o que é e o que não é antissemita. A abordagem um tanto elástica da IHRA sobre o tema acaba incluindo críticas ao Estado de Israel e suas políticas segregacionistas e violentas como uma das formas de antissemitismo — dentre outras abordagens proposta pela Aliança. Não preciso gastar muito tempo pra dizer quão problemática essa redefinição do antissemitismo pode ser, certo? (Mas talvez eu gaste tempo sim, só não agora!). Feita essa pequena e necessária digressão semântica, antissemitismo é um problema real, que afeta a comunidade judaica ao redor do mundo — principalmente no norte global — e deve ser combatido com força e vigor. Nenhuma forma de racismo deve ser tolerada.
Efraim conseguiu uma proeza formidável: cometeu um texto no Poder360 (me desculpem!) em que consegue se compadecer (corretamente) da dor e da violência com que a população trans está sendo tratada por Donald Trump, comparando a situação dessa população com a situação dos judeus no Holocausto, sem citar algo sequer parecido sobre os palestinos que enfrentam o sionismo no território ocupado por Israel. É um caso exemplar de progressista, exceto pela Palestina.
Isso não é o mesmo que dizer que todo judeu é sionista, conforme já explicado anteriormente, nem que todo judeu que vive em Israel seja sionista ou um defensor do sionismo (ainda que esta situação seja uma grande zona cinzenta, conforme vemos em No other land).
American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) é o maior lobby sionista dos EUA; com uma ampla rede de colaboradores, atua diretamente no financiamento de campanhas democratas e republicanas em eleições legislativas e executivas, além de promover diversas campanhas pró-Israel e, não raro, difamatórias contra árabes e palestinos. Atuações contra ativistas pró-Palestina geralmente envolvem acusações de antissemitismo e ligações com o terrorismo — quase sempre infundadas, mas também sempre repercutidas amplamente em canais de TV, rádio, jornais e internet.


