#6 — NO OTHER LAND, de Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor
Ou: se você ainda defende a existência de um Estado como Israel, eu tenho péssimas notícias pra te dar...
Masafer Yatta, Cisjordânia. Basel Adra afirma: é o amor das pessoas que dá vida ao vilarejo.
Escavadeiras da Volvo, tecnologia sueca, casas no chão. Um palestino diz:
Estão nos tornando estranhos em nossa própria terra
Escavadeiras da JCB, tecnologia britânica, mais casas no chão. O autoproclamado exército mais moral do mundo dá cobertura à destruição. Uma senhora palestina reclama com um policial sionista:
— As crianças ainda estão no quarto.
— Não importa, sai pra lá.
Talvez seja também a polícia mais moral do mundo…
Mais escavadeiras, agora da Hitachi. Essa é tecnologia japonesa, de ponta; mais casas e outas construções no chão. O ramo das escadeiras ama o sionismo: é um mercado em constante expansão. Afinal, não dá para promover o aniquilamento palestino destruindo as casas com as próprias mãos, e assassinar quase 3 milhões de pessoas não é exatamente uma boa propaganda pra causa colonial sionista (se bem que tenho lá minhas dúvidas, já que o massacre em Gaza não parece ter sido o suficiente para comover a “comunidade internacional” e interromper o abastecimento de dinheiro, investimentos e armas para o Estado de Israel). Uma outra palestina lamenta o soterramento de sua cozinha, e afirma:
Não temos outra terra, não há outra terra
Este é essencialmente o nome do filme, No Other Land (2023), dirigido por um coletivo de árabes e israelenses formado por Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor. Nenhuma outra terra. A questão palestina, debatida à exaustão desde a criação de Israel em 1948, às vezes cansa, e Basel, que protagoniza o documentário junto com Yuval, sabe bem disso: não são poucos os momentos em que ele diz que está cansado. Suas tragadas no narguilé demonstram sua exaustão; são inúmeras corridas pelos campos de Masafer Yatta, registrando a destruição de seu povo pelas mãos de sionistas. As imagens nos cansam também, mas é dever de qualquer um ver e tomar uma decisão, ainda que no campo simbólico.
Pois é neste campo que opera um dos braços mais nefastos do sionismo, conforme vemos em No other land. Quando um dos moradores da vila diz que “Estão nos tornando estranhos em nossa própria terra”, ele compreende plenamente o que muita gente ainda não entendeu (ou não quer entender, o que certamente é pior): Israel e o projeto sionista têm como objetivo final a morte simbólica da Palestina. As imagens de assassinatos e bombardeamentos que invadiram o X, o BlueSky, o YouTube e outas plataformas e redes de comunicação são chocantes e grotescas — isso é óbvio, afinal, ninguém fica inerte frente a crianças despedaçadas, bebês decapitados, corpos esmagados por tanques ou pedaços de corpos dependurados em janelas1. Contudo, a violência física e a devastação territorial uma hora ou outra terminam, seja porque não há mais o que matar/destruir, seja porque, como agora, em Gaza, impõe-se um cessar-fogo que impede o morticínio.
O que continua sem fim, se perpetuando no tempo através das gerações de sobreviventes refugiados, internos ou emigrantes, é a violência simbólica, a violência da e na memória. Basel afirma, já nos momentos finais do filme, que Israel está destruindo o povo de Masafer Yatta lentamente: a cada semana, destroem uma casa; a cada semana, Basel corre com sua câmera ou com seu celular para registrar demolições patrocinadas por potências ocidentais ou amigas do Ocidente, que lucram cada vez mais vendendo seus equipamentos para uso em ocupações ilegais em um território que pertence, legalmente, aos palestinos (Said, 2012; Loewenstein, 2024). Passado e presente, e um futuro indefinido pela perturbação temporal (El Cheikh, 2021; Castro, 2024; Said, 1999), se misturam no filme e na vida de Basel Adra sob a ocupação sionista.
Sua vila some dos mapas sionistas, enquanto o cineasta registra o lento sumiço ao vivo, com transmissão para o mundo todo. Malm (2024) aponta em A destruição da Palestina é a destruição do mundo que os registros históricos da Palestina sempre estiveram no topo da lista de preocupações de líderes sionistas. É por isso que, quando Israel invadiu o Líbano, na década de 1980, uma das principais missões foi destruir os arquivos da Organização pela Libertação da Palestina, que continham mapas, documentos, fotografias e registros variados de uma Palestina pré-criação de Israel2. Em Yatta, Israel tampouco reconhece os mapas que apontam as fronteiras palestinas; para o poder ocupante, pouco importa, e seus soldados continuam dando cobertura à destruição das construções no local, tudo registrado por Basel, Rachel Szor (que faz a fotografia de No Other Land) e até mesmo alguns soldados sionistas.
Parte da potência do filme está em acompanhar a bravura de Basel e seus compatriotas nas batalhas diárias contra a destruição promovida pelo Estado de Israel e pelos colonos judeus; outra parte está na relação entre Basel e Yuval, um jornalista israelense que vive em Be’er Sheva — a cidade, quando da criação de Israel, deveria ser árabe, na divisão proposta pelo Organização das Nações Unidas; contudo, as forças israelenses a conquistaram, e hoje é uma importante cidade de judeus dentro do território previsto para palestinos. Os diálogos entre os dois protagonistas funcionam como aulas para quem não está acostumado com a história da Cisjordânia e sua tenebrosa divisão em áreas exclusivas para judeus/israelenses, árabes e mistas3; contudo, essas aulas não caem num didatismo tacanho, e fazem as ligações entre as reflexões de Basel, que vive sob a ocupação sionista, de Yuval, que pode circular livremente por onde quiser e, queira ou não, se beneficia do poder ocupante, e dos dois, quando falam abertamente sobre a situação absurda em que se encontram.
Os registros ora tomam o ponto de vista pessoal de Basel, que domina a narrativa com sua câmera e seu celular, criando imagens da realidade que hoje ocupam muito mais espaço em nossas vidas — são registros do dia-a-dia em Yatta, crianças que brincam de bola, que vão à escola, mulheres e homens trabalhando no que quer que seja, o posto de gasolina de sua família e protestos, muitos protestos contra a presença sionista no local (esses momentos ecoam outras imagens já discutidas aqui, principalmente as de Mustafa Abu Ali em Scenes of the occupation from Gaza e They do not exist). Outras vezes vemos o filme-do-filme, guiado pela câmera de Szor, e cuja montagem se estabelece dialeticamente no choque com as imagens de arquivo de Basel e as que ele mesmo produz. Recorrer a arquivos é uma atividade constante do cinema palestino, inclusive em filmes de ficção (e em experiências de sci-fi distópicos como a obra de Larissa Sansour, que em breve será abordada por aqui — mas se tiver curiosidade, tanto Badra el Cheikh, quanto eu publicamos duas dissertações sobre a cineasta).
Neste caso, e como é práxis no cinema palestino (Almeida, 2024), os arquivos não são apenas memórias guardadas que alguém tira da gaveta, não são slides que se exibem num carrossel — os arquivos são eles mesmos fontes de resistência e resiliência, são operações do que chamo de terrorismo narrativo, apropriando-me do conceito que Sansour apresenta em No futuro, eles comiam da melhor porcelana (2015). Basel, Yuval, Hamdan e Rachel colocam as temporalidades do povo palestino em choque, mas, principalmente, usam essas temporalidades como importantes armas contra a ideologia sionista (ainda que saibamos que um filme não tem a mesma força literal que um exército armado com os mais vanguardistas arsenais do mundo).
Antes que este texto se alongue demais, encerro com as últimas imagens de Basel: seu povo saindo de Masafer Yatta e seu primo levando um tiro à queima roupa de um colono judeu, pajeado por um soldado das FDI. Nenhum sadismo parece dar conta do sionismo; é impossível escapar da de sua crueldade tão primeva, um Estado mau. perpetuação dessa maldade se materializa na tortura lenta e cotidiana a que os sionistas submetem o povo da Cisjordânia, desde 1948, passando por 1967, quando ilegalmente ocuparam a região, chegando em 2025. Casas, escolas, mercadinhos, nenhuma construção fica de pé. Por fim, colonos, soldados e policiais de Israel cimentam poços artesianos que abastecem as plantações e os tradicionais olivais palestinos, símbolos da resistência anticolonial. Água é um direito humano, assim como o trabalho, a liberdade de expressão e de locomoção e a vida; mas palestinos enfrentam um projeto de desumanização extremamente complexo, longevo e violento implementado pelo sionismo.
Basel é consciente do seu papel e do papel do povo palestino na história: o regime colonial sionista não vai acabar hoje, nem amanhã, nem talvez nos próximos anos; o fracasso é a regra, tal como nos lembra Benjamin (2021). Porém, Yatta está viva porque seu povo a ama, incondicionalmente; e enquanto houver amor, haverá resistência.
Referências bibliográficas
Almeida, Carol; Italiano, Carla. A Palestina e os arquivos que ardem. Acesso em: 27 jan. 2025.
Benjamin, Walter. Notas sobre o conceito de história. São Paulo: Alameda, 2020.
El Cheikh, B. Quando é a Palestina? O tempo palestino através da ficção científica de Larissa Sansour. Orientador: Fernando Antônio Resende. 2022. 124 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2022.
Loewenstein, Antony. Laboratório Palestina: como Israel exporta tecnologia de ocupação para o mundo. São Paulo: Elefante, 2024.
Malm, Andreas. A destruição da Palestina é a destruição do mundo. São Paulo: Elefante, 2024.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.
Não uso essas imagens como recurso meramente retórico, nem tampouco deixarei links para acessá-las através deste texto. Fato é que desde 7 de outubro de 2023, Israel e seu exército têm legado ao mundo as mais crueis, vis e violentas imagens desde muito tempo, comparáveis apenas aos registros mais grotescos e abjetos que a humanidade têm de eventos catastróficos como o Holocausto, os genocídios em Ruanda e Srebrenica e operações militares e policiais em favelas, por exemplo. A escala e o grau de violência que as Forças de Defesa de Israel empregam em Gaza (ainda que sob o cessa-fogo, que não impediu que Israel continue assassinado pessoas por lá) são um tanto inéditas, tanto na história do “conflito”, quanto na história geral.
Este é um dos motes de A Fidai Film, que comentei brevemente. Aljafari monta seu filme a partir de arquivos fílmicos recuperados da explosão que sionistas fizeram na sede da OLP no Líbano; parte do arquivo ainda continua desaparecido — ou perdido.
Essa é uma explicação um tanto grosseira sobre a divisão em Área A, B e C da Cisjordânia. Essa configuração é um tanto mais complexa, datada da época dos (fracassados) Acordos de Oslo, de 1993, e está registrada inclusive no livro Detalhe Menor, de Adania Shibli: sua protagonista, uma palestina, deseja se aprofundar na história de um assassinato de uma criança em 1949, cometido por um comandante do exército de Israel, quando ainda estavam finalizando o processo de “independência” do novo Estado. Ela, então, precisa falsificar identidades e placas de carro para conseguir circular entre as diversas áreas, que têm checkpoints em vários locais. Para uma explicação muito mais apropriada, ver esta reportagem da Al Jazeera.


