#5 — ELES NÃO EXISTEM, de Mustafa Abu Ali
Ou: cessar-fogo não é bala de prata (ou: pra matar o vampiro, tem que separar a cabeça do corpo - parte 2/2)
Golda Meir.
Primeira-ministra de Israel e do projeto de colonização sionista de 1969 a 1974, uma fascista que passou para a história como uma líder firme e incisiva, considerada por David Ben-Gurion como “o único homem do meu gabinete” e chamada de Dama de Ferro muitos anos antes que o apelido ganhasse fama com Margaret Tatcher no Reino Unido. Meir foi também ministra do Interior e das Relações Exteriores do sionismo, era a chefe-maior do Estado israelense quando da Guerra do Yom Kippur e nos deixou como legado uma das frases mais citadas, desumanizadoras e abertamente fascistas da história recente:
Não existe algo como povo palestino.
O grifo é meu. A despeito dos desejos inconfessáveis de um ícone sionista do quilate de Golda Meir — ela ganhou até uma laudatória cinebiografia em 2023, pouco antes dos acontecimentos que definirão a nossa década —, povo palestino existe, e há muito tempo. Israel tinha 21 anos e vencido a Guerra dos Seis Dias quando, em junho de 1969, Meir declarou ao The Sunday Times a frase que definiria o sentimento sionista a respeito dos palestinos, e que é o combustível da resistência anticolonial ainda hoje. Afinal, se eles, os palestinos, não existem, de quem os sionistas roubaram terras e pilharam casas? Quem os sionistas assassinaram em paredões? Quem os sionistas estupraram e desmembraram, repetidas vezes, durante tantos meses em 1948 e em 2023-24? Quem os sionistas detêm em suas prisões que mais parecem o inferno na Terra, sem processo, acusação e julgamento? Quem, afinal, os sionistas chamam de terroristas?
Eles não existem, nos diz Golda Meir em 1969, e sua agenda fascista1 ecoa nas palavras de Bezalel Smotrich, o ministro das Finanças de Benjamin Netanyahu, um feroz e violento sionista de extrema-direita que esteve sempre muito ativo nos piores momentos do genocídio em curso do povo palestino — afinal, ele existe. Salem Nasser concorda: “o povo palestino existe” (o grifo é meu, de novo). É assim que ele abre seu prefácio ao necessário A questão da Palestina, de Edward Said (2012), um ensaio que o próprio autor confirma ser uma resposta definitiva à constatação de Golda Meir e muitos outros líderes sionistas, como os já citados Smotrich e Netanyahu, Moshe Dayan e David Ben-Gurion. Said apresenta um panorama irrefutável da presença da ausência de seu povo (para evocar aqui outro grande nome da história palestina, Mahmud Darwish), passando pelo histórico do movimento colonial sionista até os famosos Acordos de Camp David2.
Só morre quem não é lembrado
Quem também concorda com Said e Nasser é Mustafa Abu Ali. Se em Cenas da ocupação de Gaza ele cria uma homenagem à resistência armada palestina a partir de imagens da ocupação, essencialmente violentas, em They do not exist (1974) o cineasta ironiza a famosa frase de Golda Meir através de uma constelação de imagens do povo palestino que ela (e tantos outros sionistas antes e depois) se esforçou tanto para aniquilar. Disponível n’Aflamuna, o filme se divide em nove seções, algumas encenadas, outras montadas a partir de arquivos, outras experimentando a linguagem audiovisual — todas com um único objetivo: manter viva a memória palestina.
Eles não existem se passa no campo de refugiados de Nabatia, no sul do Líbano, para onde se deslocaram milhares de palestinos pós al Nakba. As Forças de Defesa de Israel destruíram o campo em 1974, como retaliação ao ataque em Ma’alot3. Este é o contexto em que Mustafa lança seu filme, que registra os ataques aéreos sionistas e seus bombardeamentos indiscriminados. Este é um momento chave do filme, pois, através da música que compõe as cenas de destruição, relaciona Israel a sua longa tradição colonial-ocidental: enquanto aviões realizam suas manobras de ataque com impressionante precisão, uma ópera bachiana nos lembra que tanto faz quem vai morrer. A beleza sublime da música de Bach dá o tom da incursão também sublime de um poderoso exército, para o qual o alvo é gente da cor da paisagem que se pretende dominar. A ópera da violência é o pano de fundo perfeito para exibir a superioridade civilizatória do sionismo.
(Tal poderio aéreo é evocado mais recentemente no livro A destruição da Palestina é a destruição do planeta (2024), de Andreas Malm. Num exercício instigante, o pesquisador sueco traça um histórico do desenvolvimento armamentista na região do Oriente Médio catalisado e patrocinado pelo imperialismo britânico e, posteriormente, pelo estadunidense. Se o navio a vapor — movido a combustíveis fósseis — garantiu o domínio bélico de britânicos na região antes da primeira metade do século XX, hoje os mesmos combustíveis fósseis garantem o desenvolvimento bélico israelense, sob a tutela financeira estadunidense: os caças que destroem a Palestina são a evolução “natural” dos navios britânicos que iniciaram a colonização em busca de mais mercado consumidor para o imperialismo. Volto outro dia ao livro de Malm…)
Contudo, o que Abu Ali quer do público é a superação da violência literal e simbólica a que o povo palestino foi e é submetido. As imagens de Nabatia antes do ataque aéreo que aniquilou o campo são prolíficas em gente caminhando por mercados, lavando roupas e louças, matando o tempo, trabalhando em pomares e jardineiras… crianças brincam pelas ruas e pelos becos de Nabatia, chupando picolés, andando de triciclos… enfim, a vida no campo floresce, ainda que ninguém se esqueça que foram expulsos de suas casas alguns anos antes. Shaira Vadasaria (2018) esclarece, em sua tese de doutorado, como os campos se desenvolveram para uma “normalidade” que transforma a situação temporária em uma permanente: as tendas se solidificam, viram casas, apartamentos, as ruas se organizam, as pessoas seguem suas vidas. Abu Ali registra justamente esta permanência-transitória, ao menos até o momento em que Nabatia é varrida do mapa.
Ainda assim, os palestinos insistem em viver (Said, 2012). Seja através das encenações de combatentes que recebem uma carta de uma garotinha palestina, Aida Al Shaikh, de 10 anos, seja através da coletiva de imprensa em que um porta-voz palestino reafirma o compromisso de seu povo em se libertar do sionismo e da colonização, Mustafa mantém firme seu compromisso com a resistência de seu povo. Aida, ainda muito criança, imatura, está chateada que o único presente que consegue dar aos bravos combatentes — os fidai4 — é uma toalha bordada. Eles, por sua vez, estão em um momento de descanso, descontraído, vestidos em suas keffiyeh, o lenço-símbolo da luta palestina pela autodeterminação e pela libertação, imortalizado em fotos de Yasser Arafat ao longo de várias décadas — ainda que os fuzis que empunham não nos deixem esquecer da violência intrínseca à luta que promovem.
Aqui, novamente temos um encontro entre música e imagem provocante, mas numa chave oposta ao dos ataques sionistas: enquanto vemos os fidai lerem a carta de Aida, ouvimos trechos de Fida’i, música que exalta a luta pela conquista da terra palestina, adotada pela Organização para a Libertação da Palestina como uma espécie de hino oficial desse povo (e é impossível não pensar nas questões que Judith Butler e Gayatri Spivak nos colocam em Quem canta o Estado-nação?, principalmente as que tocam o tema para quem existe um Estado? — Israel, por exemplo, tem sido um péssimo exemplo de Estado para árabes, ainda que eles existam em seu território).
“O imperialismo cometerá qualquer crime para proteger seus interesses”
Um homem anuncia este manifesto anti-imperialista, e ainda diz estar municiado pelos fatos históricos. De fato! Historiadores como Ilan Pappé (2016; 2022) e o já citado Said (2012) demonstraram, através de arquivos israelenses e declarações oficiais de seus líderes políticos, como o Estado de Israel se desenvolveu a partir duma intrincada ligação com o imperialismo britânico e estadunidense. Este é também, conforme já apontado em uma pequena digressão, tema do livro de Malm (2024).
Em Eles não existem, a ironia de Mustafa é justamente contrastar, através de um processo contrarquivista já explorado por ele mesmo em Cenas da ocupação de Gaza e em A Fidai film, de Kamal Aljafari, como táticas imperialistas do sionismo, suportadas por investimentos de países como os EUA e o Reino Unido, destroem um território que supostamente não tem ninguém, ao mesmo tempo que aniquilam pessoas que vivem ali. Três quartos do campo de refugiados são destruídos sem que israelenses sequer tenham que fazer incursões terrestres. Restam os escombros de casas, hospitais, prédios e mercados em Nabatia, que poderia ser Gaza hoje ou ontem, ou Jabalia, ou Khan Younis, ou Jenin… é 1974, o sionismo venceu, é 1948, ele venceu também, é 2023, e o sionismo, parafraseando um adágio benjaminiano (2020), não cansa de vencer. É neste contexto que se insere também o mais novo cessar-fogo, que não garantiu o fim da violência de Israel, pois o objetivo continua o mesmo: vencer (aniquilar) os palestinos.
Porém, apesar de tudo, apesar do fascismo e apesar do sionismo, eles existem.
Referências bibliográficas
Benjamin, Walter. Notas sobre o conceito de história. São Paulo: Alameda, 2020.
Malm, Andreas. A destruição da Palestina é a destruição do mundo. São Paulo: Elefante, 2024.
Pappé, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2016.
Pappé, Ilan. Dez mitos sobre Israel. São Paulo: Tabla, 2022.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.
Golda Meir é um excelente exemplo de como a ideologia sionista (que é fascista, conforme defendo e sempre explicito em todos os textos) suplanta possíveis questões e discussões de direita e esquerda em Israel. Meir foi ligada do Mapai, partido de esquerda, trabalhista, que foi responsável por implantar o Estado de bem-estar social no país. Como é possível deduzir, tal formatação excluía aqueles de quem foram tomadas as terras para constituir o Estado de Israel: os palestinos. Na época e ainda hoje, árabes israelenses são cidadãos de segunda categoria, não acessam toda a plenitude de sua cidadania. A Palestina, como se vê, é o ponto crucial mesmo para esquerdistas israelenses que são sionistas.
Camp David é a residência de campo do presidente dos EUA, em Maryland. Em 1978, lá foram assinados acordos costurados secretamente entre Anwar Sadat, presidente do Egito, e Menachem Begin, primeiro-ministro de Israel, sob os olhares de Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos. Foram uma tentativa de pacificar o conflito entre Israel e Palestina, ao reconhecer os direitos do último. Edward Said se debruça com mais vigor (e criticismo) sobre o Acordo em A questão da Palestina (opus cit.)
Não é de se espantar, principalmente pós outubro de 2023, que todo ataque palestino seja indubitavelmente caracterizado como terrorista. Essa é, conforme já apontei em outros textos, uma forma de interditar o debate mais sério sobre a situação israelo-palestina.
Fidai deriva da palavra fedayeen, termo que se refere ao sacrifício de combatentes pela causa que consideram justa — aqui, é claro, a libertação da Palestina do colonialismo sionista.


