#4 — CENAS DA OCUPAÇÃO DE GAZA, de Mustafa Abu Ali
Ou: cessar-fogo não é bala de prata (ou: pra matar o vampiro, tem que separar a cabeça do corpo - parte 1/2)
Quarta-feira, 15 de janeiro de 2025, já está marcado na história como o Dia do Cessar-fogo. Magicamente, como se uma dose maior e mais eficiente de um remédio contra uma irritante enxaqueca, o "conflito" vai parar! Ou, para usar a metáfora do subtítulo, Israel e o Hamas atiraram uma bala de prata e impediram o vampiro. O mundo celebrou o acordo, o genocídio vai parar! O massacre vai parar! O povo palestino vai ter paz!
É claro que um cessar-fogo é melhor que nada, e sempre vai ser. Afinal, o acordo permite que caminhões de ajuda humanitária (ainda dá pra falar em "ajuda" e "humanitária" quando o assunto é Palestina?) entrem no território para ao menos amenizar a situação de uma população que sequer tem pra onde voltar. Há pouco menos de uma semana, a Organização das Nações Unidas informou que Israel bloqueou parte dos suprimentos que deveriam chegar a Gaza, afetando principalmente hospitais (já absurdamente impactados e estressados pelos bombardeios constantes desde outubro de 2023) — um deles, Al Awda, é o único funcionando parcialmente no norte de Gaza, e o bloqueio sionista que se estende por meses comprometeu ainda mais a capacidade de atendimento médico na região.
Porém, um cessar-fogo não é uma bala de prata. Este, especificamente, está cercado de desconfiança, considerando que sequer foi ratificado pelo gabinete de Benjamin Netanyahu (majoritariamente, é claro, sionista). Itamar Ben-Gvir, um dos mais ferrenhos racistas antipalestino do governo israelense, já avisou que, com a aprovação do cessar-fogo pelo gabinete de Bibi (é assim que gostam de chamar o facínora), ele deixará o governo — e, como Ben-Gvir é um dos líderes da extrema-direita que dá força e sustentação a Netanyahu, há a impressão que o primeiro-ministro perderá o poder político de fato. Ou seja: o vampiro chamado Sionismo continua sugando tudo o que pode, seja politicamente, seja como nas últimas horas desde o anúncio do cessar-fogo previsto para domingo, nas quais as Forças de Defesa de Israel mataram pelo menos cem palestinos, metade deles mulheres e crianças.
Os termos do acordo, aliás, são um tanto curiosos, conforme nos lembra a professora Arlene Clemesha e reportagens mundo afora1:
Será realizado em três etapas; a primeira começa dia 19 de janeiro. As outras duas fases se desenvolverão ao longo da primeira, que dura seis semanas e envolve a retirada de tropas sionistas das áreas com maior concentração de palestinos, entrada de ajuda humanitária no território de Gaza e troca de reféns de ambos os lados2;
o Corredor Netzarim, criado por Israel para controlar o acesso à Gaza e facilitar as incursões assassinas das FDI, está fora do cessar-fogo — o que, na prática, significa que sionistas continuarão com pleno acesso a uma estratégia de batalha que garantiu a quase erradicação de toda a Faixa de Gaza, colocando seus habitantes em um deslocamento forçado que chegou a 90% da população e destruiu parcial ou totalmente 90% das residências3;
A fase 2 envolve a retirada completa de das FDI de Gaza e mais troca de reféns; a fase 3, segundo se reportou, é “incerta”.
Não é como não devêssemos celebrar ou comemorar o cessar-fogo, apenas devemos ter muito claro o contexto em que ele foi realizado, criando inclusive uma disputa entre Trump e Biden para descobrir quem fez mais esforços para alcançar o cessar-fogo (spoiler: nenhum dos dois — como quase nenhum presidente dos EUA em sua história — pensa no bem-estar do povo palestino)4. Um minuto de respiro é muito para um povo que está desde outubro de 2023 subjugado pelo recrudescimento de seu próprio genocídio — agora, transmitido e compartilhado em tempo real. Acompanhamos a intensificação do massacre de palestinos por Israel com uma certeza: não é uma nova guerra, uma nova etapa no “conflito”, uma escalada de violência; al Nakba não acabou em 1948.
Ocupação sem fim
Se não resta dúvida que a Catástrofe palestina não acabou, vamos ao tema de fato do texto dessa semana: Scenes of the occupation from Gaza, de Mustafa Abu Ali, lançado em 1973, e que está disponível online e gratuitamente no site Aflamuna. A história de Abu Ali e seu Palestine Film Unit merecem um texto só, dialogando com o que já escrevi acerca de A Fidai film — em resumo, PFU foi um braço cinematográfico da luta armada pela revolução palestina. O filme foi gravado por uma equipe jornalística da França, registrando o cotidiano da ocupação sionista em diversos territórios da Palestina, e editado por Mustafa, que realizou diversas intervenções no filme como forma de homenagear a resistência palestina.
Tal qual o filme de Aljafari, Scenes… também se utiliza do arquivo como forma de tensionar a narrativa oficial sionista (sustentada e amplificada com o apoio da mídia mainstream ocidental): a de que a Palestina é uma terra de terroristas, um grande vácuo esperando que pessoas do bem a desenvolvam, tecnológica, social e economicamente. Temos muitos choques entre imagens do cotidiano da ocupação/colonização sionista, com seus soldados que fazem incursões, rondas, inspeções, checagens de documentação etc, e a narração que remonta brevemente a história da Faixa de Gaza e enaltece a resiliência de seu povo, ainda que sofra as consequências da violência diária imposta pelos sionistas (interrupção do fornecimento de água, destruição de lavouras, impedimentos de trabalhos etc.).
Esse cotidiano também foi registrado por Joe Sacco (2021) em Palestina, sua obra-prima de jornalismo em quadrinhos lançada no calor da Primeira Intifada. Os questionamentos e tensões de Sacco na década de 1990 ecoam as imagens que Abu Ali editou e interpretou em 1973, quando a ocupação ilegal sionista havia completado 25 anos. Os tiros que o jornalista maltês tantas vezes repetiu nas páginas da HQ são como um espelho macabro dos tiros que o cineasta palestino inclui em sua edição experimental dos horrores da colonização sionista — alguns tiros que ouvimos, inclusive, parecem encontrar seus alvos muito bem definidos na tela, ainda que não literalmente.
Mustafa também faz questão de nos lembrar, a partir do texto da narração, que os quatro primeiros anos da ocupação israelense causaram a remoção forçada de milhares de palestinos, enquanto 10 mil foram presos, inclusive em suas próprias casas. De 1973 para 2023, notamos como a perversidade apenas escalou os números já superlativos à máxima potência: o infeliz saldo atual do “conflito” pós ataques do Hamas é de pelo menos 45 mil palestinos assassinados, 1,9 milhão forçosamente deslocados pelo território da Faixa de Gaza, sem saber ou ter para onde voltar. Ironicamente, a Lei do Retorno, que garante ainda hoje que qualquer judeu se apodere de um pedaço de terra em Israel e ganhe a cidadania israelense, não se aplica aos que agora são expulsos pelas forças sionistas — um fenômeno iniciado ainda no começo do século XX, registrado por Mustafa em Scenes….
Uma passagem marcante do filme mostra alambrados rígidos com muitos metros de altura, fixados firmemente no chão. São estruturas que existem ainda hoje, a despeito de agora terem ainda mais tecnologia empregada em suas construções. É impossível, contudo, não se recordar do buraco que o Hamas fez em um desses alambrados em outubro de 2023, quando iniciou seu ataque a Israel e às FDI. De toda forma, Mustafa registra o que Ilan Pappé considera ser a maior prisão à céu aberto do mundo — sentimento compartilhado e explicitado por Joe Sacco nos quadrinhos da Palestina, principalmente quando visita Gaza. Abu Ali também nos deixa chocados com essa constatação, ainda que não explicitamente verbalizada: as imagens do enorme e comprido alambrado se complementa com as rotineiras incursões sionistas que não dão paz ao povo palestino, o tempo todo registrando suas movimentações.
Este fenômeno de cidades securitárias é destrinchado por Stephen Graham (2016), ainda que no caso do filme vejamos um polo oposto: em vez das fortificadas cidades israelenses, construídas para o conforto e bem-estar dos cidadãos israelenses (notadamente judeus, já que árabes-israelenses são considerados, na prática, cidadãos de segunda classe), com suas impressionantes tecnologias antiterrorismo, vemos as cidades em que Israel exerce seu poder na prática, pra valer, com militares andando para cima e para baixo, em mercados, em casas, em praças — enfim, as FDI controlando o espaço e o tempo palestino, e por consequência a própria vida palestina (El Cheikh, 2022).
Anticolonial é radical
Em A limpeza étnica da Palestina, Pappé (2016) dedica algumas páginas para falar do memoricídio árabe — um conceito que ainda carece de maior definição, mas intimamente ligado ao genocídio em curso do povo palestino. No livro, o historiador nos remete à substituição da cultura árabe pela cultura hebraica: vilas, praças e ruas são renomeadas, parques de coníferas são construídos em cima de antigas casas e olivais etc. Abu Ali também deixa claro como a substituição de uma cultura pela outra é uma importante arma sionista para completar seus objetivos de limpeza étnica e/ou expulsão/aniquilamento de palestinos, ao nos mostrar as placas que identificam, em hebraico, quem manda no novo lugar. O apagamento da memória árabe-palestina é um tema recorrente em várias obras, já que é uma operação que se estende pelo tempo e tem efeitos de longo prazo difíceis de se mensurar e combater — um povo que tem sua memória apagada é como se jamais tivesse existido, e é exatamente o que os sionistas tentam fazer com árabes-palestinos desde o século XX;
O final do filme é uma ode à resistência, não sem antes nos lembrar do desespero dos que são arrancados de suas raízes à força, violentamente: os momentos do finais de Scenes of the occupation from Gaza nos marcam com a lamúria de uma mulher que teve sua casa destruída pelas escavadeiras sionistas. Não é preciso entender uma só palavras que ela grita: a imagem da mulher em primeiro plano e os escombros ao fundo são tudo o que precisamos ver — e novamente ecoam uma deprimente realidade em que 90% das casas de palestinos na Faixa de Gaza está total ou parcialmente destruído.
A última imagem, contudo — e talvez isso incomode muitos corações liberais para quem o Amor, o Diálogo e a Paz podem vencer qualquer problema —, é uma impactante homenagem à força dos movimentos de resistência anticoloniais: a pistola e a granada avisam que, às vezes, a violência anticolonização se faz necessária, num movimento radical no sentido que Mondzain (2021) aponta como incontornável para sanar as questões coloniais que ainda insistem em permanecer. Além de tudo, e assim como A Fidai Film, em Scenes of the occupation from Gaza, Mustafa Abu Ali emprega o que chamo de terrorismo-narrativo, recriando uma possibilidade de pensar e viver a Palestina para além do que o sionismo permite, interferindo diretamente no campo simbólico da ocupação ilegal de Israel sobre o território palestino.
Referências bibliográficas
El Cheikh, B. Quando é a Palestina? O tempo palestino através da ficção científica de Larissa Sansour. Orientador: Fernando Antônio Resende. 2022. 124 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2022.
Graham, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo, 2016.
Mondzain, Maria José. Confiscação das palavras, das imagens e do tempo: por uma outra radicalidade. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2021.
Pappé, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sudermann, 2016.
Sacco, Joe. Palestina. São Paulo: Veneta, 2021.
Para um bom resumo da situação, ver What do we know about the Israel-Hamas ceasefire deal in Gaza?. É uma reportagem sucinta da equipe da Al Jazeera acerca do acordo recém-confirmado de cessar-fogo, de fácil leitura e compreensão.
Este ponto é muito importante pois é parte da história de Israel e Palestina desde muito tempo: a troca de prisioneiros palestinos por reféns israelenses é uma tática usada por organizações e grupos de resistência palestina há décadas (e outros grupos mundo afora, como podemos ver na história brasileira de combate à Ditadura Civil-Militar). Contudo, os termos são sempre os que coloquei aqui: reféns por prisioneiros. Esta é uma caracterização que não dá conta da complexidade do que se troca, dando a impressão que o lado palestino sempre sequestra pessoas inocentes de Israel, enquanto do outro lado há criminosos condenados que vão voltar para os territórios ocupados e, como criminosos que são, vão cometer mais crimes. Um único exemplo joga mais luz na situação e nos permite analisar a importância dessas trocas e o que elas significam na conformação das forças envolvidas nos conflitos e ataques: Israel se permite usar detenções administrativas para prender e torturar palestinos em suas cadeias. A detenção administrativa é um processo kafkiano: não é necessária uma acusação formal, nem a apresentação de provas, nem crime, nem nada — basta ser palestino para estar enquadrado na possibilidade de ser detido administrativamente. Vários desses prisioneiros serão libertados com o acordo de cessar-fogo. É por isso que trato aqui de “reféns de ambos os lados”, já que a detenção administrativa é, na prática, um sequestro.
Gráficos da Al Jazeera impressionam pela dimensão da destruição (ainda que quem acompanha o que houve pós-7/10/2023 provavelmente saiba o tamanho da devastação em Gaza). Além de danificar ou destruir 90% das moradias de palestinos, Israel também danificou 70% das áreas cultiváveis, 50% dos hospitais e 90% do sistema de ensino, dentre outras violências.
Tanto Joe Biden quanto Donald Trump tentam ganhar os louros de uma “vitória” sobre o problema israelo-palestino. O fato é que o acordo de cessar-fogo atual tem contornos muito parecidos com um outro acordo apresentado no meio do ano passado, demonstrando que Biden (e sua candidata à sucessão presidencial derrotada, Kamala Harris) pouco fizeram para de fato tentar impedir a escalada da violência sionista. Essa sensação se materializa numa raiva renovada de árabes e descendentes de árabes em relação a Biden, já que os esforços de Trump para se chegar a um cessar-fogo foram notáveis antes mesmo de sua posse de fato como presidente estadunidense — ainda que se saiba muito claramente que Trump pouco se importa com palestinos e palestinas, conforme ele deixou claro agora e também em seu primeiro mandato.


