#32 — TROMBETAS NO CÉU, de Rakan Mayasi
Ou: patriarcalismo anda de mãos dadas com a guerra
Recentemente, voltou a rodar pela internet a dica de David Lynch sobre como alinhar o horizonte e garantir um take bacana pro seu filme: se o horizonte está alinhado pra cima, é bom; se tiver alinhado pra baixo, também é bom; mas se tiver alinhado no centro, aí você tem sérios apuros.
(O post que viralizou era uma tiração de onda com uma das piores séries que, inexplicavelmente — mentira, é totalmente explicável — chegou à quinta temporada, com um monte de Cabeção interpretando adolescentes nos EUA. Mas enfim, esse post não é sobre isso…)
A abertura de Trombetas no céu, de Rakan Mayasi, é justamente um plano maravilhoso do horizonte alinhado pra baixo, com uma majestosa cadeia de montanhas ao fundo, enquanto no plano médio vemos mulheres jovens e velhas colhendo algum vegetal, ao mesmo tempo que homens passam em tratores preparando o solo. A câmera opera um silencioso e lento zoom-in, deixando a montanha cada vez mais imponente no fundo da ação.
Terminada a colheita das batatas, as mulheres retornam amontoadas na caçamba de um pequeno caminhão da Suzuki. Eu sempre acho interessante quando filmes como este, de Rakan, reforçam essas marcas, pois neste contexto elas ganham um significado mais cruel, bem ao estilo é a economia, estúpido!: são grandes corporações que, através de seus maquinários, patrocinam sistemas de apartheid e genocídios (como no caso de Israel), conflitos armados e guerras.
Diferentemente das empresas da industria bélica, que, conforme mostrou Loewenstein (2024), estão diretamente interessadas na manutenção da ordem colonial em Gaza e na Cisjordania, essas outras marcas apenas seguem, como que naturalmente, o curso do capitalismo de destruição: o que para muitos é o inferno na Terra, para meia dúzia de senhores da guerra é a garantia de mais alguns bilhões entrando na conta corrente.
Parece que uma coisa não tem muito a ver com a outra, mas o fato é que Rakan reflete criticamente sobre como o capitalismo anda de mãos dadas com o patriarcalismo — algo que Silvia Federici (2019) também apontou muito oportunamente em Calibã e a bruxa: as formas de dominação do capital estão diretamente relacionadas às formas de dominação patriarcal, quando ambos se apoderam do tempo e do corpo das mulheres para alcançar seus objetivos. O próprio cineasta esclarece como funciona o sistema de colheita de batatas nos campos sírios onde se passa o filme:
É um sistema muito patriarcal, com obviamente concentração no trabalho infantil — principalmente mulheres. Elas recebem por dia, e seu dia de trabalho é das 5h às 16h. É terrível. Aquelas que são afiliadas a um “warsheh” (ou um “workshop de campo”, como eles chamam) residem em um acampamento. Pode ter logotipos do ACNUR em algumas tendas, mas isso não significa que seus habitantes sejam refugiados.
Isso se esclarece tão logo Boushra (Boushra Matar) volta da colheita e reencontra sua mãe na tenda onde vivem numa espécie de campo de refugiados/alojamento de colheitadoras: a mãe vendeu a filha para um casamento indesejado pela jovem, que, todavia, deve se submeter. O contraste entre a festa dos homens, festejando entre si as núpcias de um amigo, extasiados, excitados, e o semblante derrotado, cansado e resignado de Boushra marcam a virada de tempo no filme — que, alias, não tem nenhum diálogo.
É torturante ver Boushra em seu vestido de noiva, isolada, sozinha. A passagem de sua adolescência para a vida de mulher adulta é brusca e melancólica, violenta. As cenas se demoram, pois são um reflexo da intimidade de Boushra: a passagem da infância para a maturidade não deveria ser tão brusca assim, encurtada por um casamento arranjado que vai render à família (sua mãe, pelo que se entende, é a única que restou) alguns meses de sobrevivência com um mínimo de dignidade possível.
O contraste final fica por conta de uma bela canção tuaregue da banda Tamikrest, Dihad tedoun itran, que acompanha os créditos e a estonteante paisagem montanhosa da Síria, enquanto Boushra vai embora com seu recente noivo, sem muita vontade de viver.
Você pode ver Trombetas no céu (e algumas outras obras de Rakan Mayasi que já comentei aqui, A chave e Bonboné) na FILMICCA, uma das melhores plataformas de streaming do Brasil. Como se não bastasse, com o cupom CONTRAPELO25 você garante 25% de desconto no Passe Pix 12 Meses — 1 ano de acesso à FILMICCA por R$ 150,00. Pra usar é bem simples:
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Bom demais, né? Plataforma brasileira, com conteúdo de primeiríssima linha, por um precinho camarada! Então, compartilhe esse post para mais gente acessar às pérolas do catálogo da FILMICCA, incluindo alguns filmes palestinos que tanto gosto de comentar neste blog…
Referências bibliográficas
Federici, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpos e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2019.
Loewenstein, Antony. Laboratório Palestina: como Israel exporta tecnologia de ocupação para o mundo. São Paulo: Elefante, 2024.


