#31 — QUANDO VI VOCÊ, de Annemarie Jacir
Ou: os limites (ou a falta deles) do amor
A Palestina já era.
E, ainda assim, Tarek se recusa a aceitar o único destino que lhe foi concebido por uma potência estrangeira que busca destruir sua vida e seu povo…
Quando vi você (2012) é o segundo longa-metragem de excelente e necessária Annemarie Jacir, uma das mais profícuas cineastas palestinas da contemporaneidade. O olhar, os olhos, as visadas, as formas de ver, como dá para imaginar pelo título, são uma espécie de personagem não-oficial do filme, guiado pelo garoto Tarek (Mahmoud Asfa). Seus grandes, brilhantes e negros olhos carregam o peso do filme e da revolta contra a colonização sionista, fazendo-o peregrinar pelo território em disputa em busca de seu pai e de sua casa, longe do “lugar estúpido” onde vive precariamente com a mãe, Ghaydaa (Ruba Blal): um campo de refugiados na Jordânia, em 1967, chamado Harir (mais tarde, como a arte imita a vida, ouvimos pelo rádio que Israel bombardeou o campo, usando, inclusive, napalm).
A troca de olhares entre mãe e filho e diversos outros personagens é capturada por uma câmera sempre próxima, em planos detalhe que ressaltam sua dramaticidade e relevância no contexto da narrativa — como o frame que abre este texto. Somos conduzidos pelo desejo rebelde e um tanto ingênuo de Tarek de não se deixar limitar pela violência a que foi submetido à força, junto com sua mãe, por Israel; essa condução se dá, principalmente, pelo caráter observador, inquisidor e revelador dos olhos do menino, que finalmente consegue se desvencilhar do campo de refugiados e encontra refúgio junto aos fedayin que lutam pela liberdade palestina.
(Não é um tanto curioso que o mesmo radical possua dois significados tão distintos e contrastantes, literais e simbólicos? A imagem-ideia de um campo de refugiados habita nosso imaginário há décadas, e, salvo pequenas variações, gira sempre em torno de um lugar sujo, árido, precário, desolador; já a de refúgio nos leva para locais idílicos, pequenos paraísos, ou seguros, onde podemos ficar em paz e onde nossos medos não nos atingem).
É impossível, portanto, não se sentir atraído pelos olhos que perpassam a uma hora e meia de filme que apontam ao público o dever imperativo de ver a Palestina sob a ótica de Tarek, Ghaydaa ou de Layth (Saleh Bakri) e seus camaradas lutadores pela liberdade, e, a partir daí, adotar uma postura que conteste a ordem vigente de um plano de extermínio que, no período do lançamento de Quando te vi, estava em marcha lenta, dilatado no tempo e no espaço, e que hoje se acentuou, acelerou, e não esconde mais de ninguém seus objetivos de total aniquilação da Palestina.
Assim, o menino Tarek conduz o despertar da própria mãe, numa sequência final montada de forma magistral para causar apreensão, tensão, medo e alívio, congelada num take que se desvela ambíguo em seu direcionamento à terra que sempre pertenceu aos Tarek, aos Layth, às Ghaydaa, e que parece ele mesmo suspender o tempo palestino. Os diversos cortes entre cada elemento da luta pela libertação palestina, seja através da luta armada, seja simplesmente exercendo o direito de retornar para a própria casa, encerram o filme e o ciclo que nos causa a dúvida inicial: quando viu quem? Ghaydaa finalmente vê o que Tarek via desde sempre: a Palestina lhes pertence.
A cara da resistência (que dança, e canta…)
Jacir coloca Tarek numa espécie de jornada do herói em busca de uma, digamos, causa perdida: a mãe nunca fala de forma explícita que, muito provavelmente, tanto a casa, quanto o pai, já não existem mais. Afinal, 1967 marcou a Guerra dos Seis Dias, quando Israel expandiu ilegalmente sua fronteira e anexou a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, dentre outros territórios, dando contornos que permanecem praticamente inalterados ainda hoje à Palestina ocupada. O menino, contudo, segue sua busca de forma resiliente e intrépida, até que encontra os fedayin num centro de treinamento da luta armada entre o deserto e um pequeno bosque.
Neste momento, Annemarie ecoa obras anteriores que tensionam a representação dos lutadores pela liberdade palestina, como, por exemplo — e este é um exemplo escolhido a dedo — os curtas de Jocelyne Saab sobre os fedayin. A forma com que a cineasta palestina escolhe filmar e exibir estes lutadores difere completamente da ideia de violência feroz que a propaganda israelense tenta imprimir quando fala de quem combate os horrores sionistas.
E é assim que temos três dos mais belos momentos de Quando te vi:
numa noite, uma fedayin entoa uma emocionante canção que exalta a força e a resiliência dos que optaram pela luta armada para defender a Palestina, completamente conscientes que é uma causa que pode levar todos e todas à morte; compartilhamos a intimidade das pessoas envolvidas no combate, que demonstram afeto e carinho entre si e para com seu próprio povo, aquecidos por uma fogueira que dá o tom da sequência;
numa outra noite, quando mãe e filho já estão muito mais habituados e engajados com a causa dos fedayin, todos os presentes, embalados pelo oud, dançam num ritmo só, enquanto a câmera de Annemarie destaca suas botas militares do tom do deserto. A bonita comunhão da dança se funde na comunhão da luta, quando amanhece e as mesmas botas que marcavam o ritmo do oud, como uma percussão, agora marcham no treinamento para enfrentar o exército sionista;
por fim, e reiterando os ecos de Saab em A frente de recusa, vemos a dança de Tarek, completamente encantado pelas novas amizades e pela corajosa luta travada pelos camaradas fedayin (e é marcante a felicidade do menino quando um dos combatentes o chama justamente de camarada, como se oficializando o pertencimento de Tarek ao grupo de resistência).
Quando finalmente vemos…
Reconhecer sua condição de refugiado é uma tortura para Tarek, ainda que os esforços de sua mãe busquem, de certa forma, a resignação de sua nova forma de vida: num contêiner, dividindo espaços íntimos como banheiros com mais centenas de pessoas, sob selos de organizações de ajuda humanitária. O menino vê muito claramente o que imagina ser seu por direito: sua casa, sua terra, sua Palestina. Não é à toa que um marcante diálogo entre dois combatentes toca no ponto crucial da causa, com um corte que revela um belíssimo e verdejante vale no território ocupado ilegalmente (e violentamente) por Israel:
— Como perdemos tudo isso?
— Tiraram de nós!
A troca do agente é justamente o que Tarek vê: al Nakba não foi um processo voluntário, palestinos não abriram (e nem abrem) mão de seu território e do seu modo de vida para que um etno-Estado possa exercer seu direito de existência; ao contrário: este Estado, genocida, é que reiteradamente, desde 1948, ataca ferozmente um povo para implementar seu projeto de colonização total do território ocupado.
Annemarie Jacir deixa isso claro numa entrevista a Frank Barat quando do lançamento do filme, há mais de 10 anos:
É uma Nakba constante. Acontece o tempo todo. Nunca parou. Não é algo do passado. Casas ainda são demolidas hoje; pessoas ainda são vítimas de limpeza étnica hoje. Antes de seguirmos em frente, este ponto fundamental precisa ser reconhecido. As pessoas nos pedem para seguir em frente, para esquecer o passado. Mas não é passado – é agora. Isso é algo que muitas pessoas também esquecem ou não percebem.
Tarek é o futuro, que se recusa a esquecer o passado e aceitar seu presente. É a Palestina livre, do rio ao mar.






