#30 — AS CRIANÇAS DA GUERRA, de Jocelyne Saab
Ou: existem filmes de guerra anti-guerra, sim
O final de As crianças da guerra (1976), de Jocelyne Saab, talvez seja um bocado mais chocante do que as cenas de combate que entrecortam o filme em seus pouco mais de 11 minutos: crianças entre 6 e 12 anos manuseiam rifles Kalashnikovs, lançadores de mísseis e carabinas com uma certa naturalidade e uma destreza que deveria causar espanto. Pequenas mãos montam e desmontam as armas rapidamente, limpam seus componentes e preparam os artefatos para a batalha. Artefatos, mesmo: são armas de fogo de verdade, e isso tudo é documentado como parte do treinamento pelo qual essas crianças passam para se juntar à luta armada contra Israel e o sionismo.
Mas disse que deveria espantar…
…e no entanto não espanta — pelo menos não tanto quanto se suporia ao ver crianças tão pequenas, em idade escolar, manuseando AK-47 e RPGs como se fossem membros de grupos guerrilheiros e de resistência das mais diversas ideologias, prontos para matar e morrer (eu falei idade escolar? Mas qual escola se frequenta quando se está em guerra? Ou, melhor: pra qual escola vão as crianças órfãs de um massacre? O que deveriam estar aprendendo os moleques que perderam tudo e todos?)
Afinal, qual futuro é possível imaginar quando se está no meio de um processo de aniquilação? Quão limitado torna-se o poder de especular o que está por vir quando a morte é o único vislumbre em vida? Quais sonhos são permitidos a criancas que perderam os pais, as mães, os irmãos e as irmãs, os avós, os tios e as tias, primos e primas, amigos e amigas?
Mbembe (2018) já discorreu magistralmente acerca dos efeitos nefastos e quase-perpétuos causados pelos processos coloniais. Com as crianças libanesas filhas da limpeza étnica não seria diferente. Suas brincadeiras são mediadas pelo contexto estreitado a que foram condicionadas a aceitar: guerra. Não é conflito, é guerra: mortes e bombardeios como parte integrante da rotina de suas vidas, sem possibilidade de ir à escola (que, conforme elas fazem questão de esclarecer, sequer estão abertas), de ir à casa dos amigos, de brincar na rua como todas as outras.
Quer dizer, brincar na rua até que dá, e até na praia, como mostra Saab em seu retrato das infâncias refugiadas. Na areia fina e dourada, meninos (e algumas poucas meninas) rolam pra lá e pra cá, sorrindo, gargalhando, fazendo troça uns com os outros, enquanto simulam a única brincadeira possível que lhes restou: a guerra.
Agora as armas são de improvisadas principalmente a partir de pedaços de madeira e canos plásticos, e ninguém pega em munição de verdade, mas o drama continua realíssimo: o trauma da perda de familiares e amigos num “conflito” desumano. O contexto é a guerra civil libanesa, origem de um dos piores massacres da história do povo palestino, em Chabra e Satila, e que deu ainda mais força ao movimento falangista libanês. Ainda que nacionalistas convictos, à moda dos piores tipos de nacionalistas do passado e do nosso presente, os falangistas se uniram a sionistas das FDI e assassinaram refugiados palestinos e libaneses, numa guerra civil que durou 15 anos e contou com o envolvimento atores conhecidos na desestabilização da região: Israel, é claro (e o sionismo), EUA e as autocracias árabes.
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Futuros (e presentes) contrastantes
É neste cenário que Saab roda seu filme, que se encerra com desenhos cujo tema central é, imaginem só, a guerra. O contexto sócio-político media todas a montagem do filme e do imaginário das crianças entrevistadas, contrastando com as possibilidades de vida de uma criança não-refugiada ou das classes dominantes do Líbano e, particularmente, de Beirute.
A própria praia, talvez um dos maiores ícones de lazer democrático, ganha contornos muito díspares quando aos palestinos é a única possibilidade que restou de interação social com pessoas da mesma idade. O território da capital libanesa também contrasta as fabulações um tanto ingênuas de crianças criando verdadeiros massacres de mentirinha com corpos adultos despedaçados e ensanguentados que se espalham pela cidade. Os momentos lúdicos dividem espaço — ou, melhor, acontecem ao mesmo tempo — que os piores momentos dessas crianças: são filhas da guerra, que crescem (e crescerão) na guerra.
Não é de se espantar (de novo!), também, que parte dos meninos e garotos que dão seus testemunhos para a câmera de Jocelyne deseje crescer e contribuir com a luta armada contra quem os está matando no presente. Não é a toa, portanto, que anos depois do filme, e ainda enquanto o Líbano se via às voltas com sua guerra civil, as Intifadas ecoem as palavras de algumas crianças da guerra:
— Eu adoro brincar de guerra porque quando crescer quero ser um fedayin.
— Quando crescer, gostaria de ser um fedayin. Agora eu gostaria de ir para a escola, mas eles não abrem as escolas.
— Vou ser um fedayin e vingar meu pai.
As lutas simuladas das crianças e o desejo de alguns de vingar o trauma sofrido recrudescem o ciclo da violência. Porém, o que espera uma criança que cresce sob o jugo da colonização sionista, que se estende pela região causando caos e sofrimento irreparável? Saab indaga uma das crianças, um menino de cerca de 10 anos, sobre seus planos para o futuro:
— O que você quer ser quando crescer?
— Só Deus sabe, podemos estar todos mortos!
O que pode imaginar uma criança palestina?
Referências bibliográficas
Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 Edições, 2018.


