#3 — FARHA, de Darin J. Sallam
Ou: a Alegria como antídoto contra o sionismo e a destruição do futuro palestino (este texto tem spoilers)
Em 2023, al Nakba completou 75 anos. Em 2023, após os ataques do Hamas a uma rave israelense que dizimou cerca de 1200 pessoas, o mundo se voltou com mais atenção para um dos maiores e mais duradouros massacres de nossos tempos, que já se estende desde o final do século XIX, passou pelo XX inteiro e já ocupa parte crucial do XXI. Viramos mais um ano, e esses 76 anos da Catástrofe palestina significam, ao mesmo tempo e numa chave oposta, a “independência de Israel”, um mito criado por Theodor Herzl quando fundou o sionismo e abasteceu a ideologia através de um projeto colonialista e racista no Oriente Médio.
Farha, dirigido por Darim Sallam, seu primeiro longa-metragem, retrata este período: a criação do Estado de Israel e o expurgo e assassinatos de palestinos. Antes da sinopse e de escrever mais sobre este incômodo filme, é bom um pouco de contexto sobre a diretora: ela mesma é uma sobrevivente da Nakba — seus pais emigraram da Palestina para a Jordânia quando, em 1948, o Mandato Britânico e seu exército desocuparam o território palestino para dar lugar ao projeto sionista. A retirada britânica fez parte da concretização dos planos da Declaração de Balfour, dentre outras decisões imperialistas, que garantiu uma pátria ao povo judeu, principalmente após os eventos nefastos da Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e o crescente antissemitismo europeu. Só se esqueceram de combinar com quem já habitava a terra prometida…
Sinopse
Palestina, 1948. Após a retirada dos ocupantes britânicos, aumentam as tensões entre árabes e judeus. Enquanto isso, Farha, a esperta filha do prefeito de um pequeno vilarejo, sem saber da tragédia que se aproxima, sonha em ir estudar na cidade grande.
(Taí uma boa sinopse: aberta, ambígua, deixando aquele gostinho de o que será que vai rolar?)
Farha, como se vê, tem sonhos como qualquer adolescente; um deles, porém, ocupa sua cabeça quase obsessivamente: estudar na cidade. A vida pacata na vila em que seu pai é o prefeito contém um destino predeterminado: arrumar um marido, provavelmente na própria família, ser uma boa esposa e uma boa mãe, cuidar da casa e da prole. Farha rejeita o que a autoridade religiosa deseja para as meninas/mulheres. Ela quer ser uma professora, seu desejo é pela emancipação — de si mesma e de outras como ela. O desejo é atendido pelo pai, Kamel. O sionismo, entretanto, se põe no meio do caminho.
Quando conhecemos a garota, os sons da vila e da vida são agradáveis: pássaros, folhagens, rezas e orações, conversas ingênuas com as amigas. O estouro de uma bomba ao longe rompe essa fase quase fantástica, e abruptamente joga todas as pessoas da vila num pesadelo sem fim. A dissonância toma conta dos diversos momentos em que ela observa o que se passa na sua antiga casa, agora já praticamente irreconhecível. Tiros de metralhadoras substituem os cantos dos pássaros, as conversas se emudecem e dão lugar às ordens do exército sionista para que abandonem a vila pela única saída ainda aberta — do contrário, todos morrerão. O método de cercar as vilas em três frentes e liberar uma única saída foi instaurado pela inteligência militar de Israel, o que não impediu que diversos massacres tenham sido registrados durante o período mais crítico em 1948, conforme detalha o historiador Ilan Pappé (2016).
Essa tática permitiu ao exército sionista, na época ainda dividido entre Irgun, Lehi/Gangue Stern e outras organizações paramilitares e milícias armadas, limpar o território onde ergueriam o Estado de Israel. O processo, conforme também nos lembra Edward Said (2012), começou com o aniquilamento e a expulsão forçada do povo palestino, seguido do apagamento de seus vestígios com a renomeação de vilas e cidades, construção de novos empreendimentos onde antes viviam árabes etc1.
É exatamente este processo pelo qual a vila de Farha está passando no filme. A partir da invasão sionista, passamos a acompanhar os acontecimentos do ponto de vista dela, em seu esconderijo, sempre emoldurado por frestas e buracos. O amadurecimento da adolescente também sofre um abrupto recorte: não houve e nem haverá espaço para fruir as doçuras e amarguras deste período da vida. Se sobreviver (e ela sobrevive!), sua nova vida será marcada pela condição que aflige todas as palestinas ainda hoje: refugiadas, dentro ou fora de seu próprio território, ou cidadãs de segunda classe num Estado de apartheid como é o israelense. As nuances se tornam mais opacas, marcadas pela violência extrema de uma ideia de extermínio; o tempo de sua vida é severamente abalado, jamais novamente conformado como o conhecemos — o presente se dilata e se constitui numa espécie de vórtex que engole o passado-que-não-passa e não consegue projetar um futuro (El Cheikh, 2022; Vadasaria, 2019).
Todas as sequências de Farha em seu esconderijo criam uma maneira um tanto sensível de lidar com a violência sionista, tanto no filme em si quanto em nós, espectadores. Sallam escolhe não mostrar explicitamente as execuções sumárias, seja com Farha tampando seus olhos, seja com a impossibilidade da garota e da audiência de ver de fato o que se passa. Pós 7 de outubro de 2023, imagens grotescas de tanques sionistas esmagando palestinos, mísseis explodindo e desmembrando pessoas e todo tipo de humilhação e execução deste povo têm inundado redes sociais e redes de notícias. Há mais de sete décadas2, o conflito sionista/palestinos tem aniquilado o povo palestino; se tampar os olhos no mundo real não é uma possibilidade ética, no território ficcional é necessário entender quando a representação da violência apenas reforça a opressão desumana de um Estado contra a fragilidade dos subjugados — e Sallam compreendeu isso notavelmente bem.
(Aqui faz-se necessário uma pequena digressão: a morte do bebê recém-nascido no filme é absurdamente incômoda; vemos seu corpo já sem vida após um longo período em que seu choro desesperado domina vários e vários minutos do filme. É óbvia a intenção do choque: a violência do exército de Israel não poupou ninguém, ainda que o bebê morra porque o soldado sionista se recusou a matá-lo, mas também se recusou a salvá-lo — deixou-o para morrer naturalmente, depois que assassinaram sua mãe, seu pai e suas irmãs. Tudo isso é acompanhado de dentro do esconderijo de Farha, que nada pode fazer. O choro incomoda porque nos lembra que o aniquilamento de um povo pressupõe matar seu futuro; o bebê não pode viver, pois enquanto houver um nativo, haverá Palestina3. Esta sequência certamente é uma das mais violentas de Farha, ainda que eu considere que sua forma tenha sido totalmente adequada ao filme).
A paleta de cores também muda drasticamente: antes, cores quentes e saturadas nos mostravam uma vila cheia de vida e afeto, seja em sua fauna e flora exuberantes, seja nos detalhes das vestimentas dos homens e mulheres — principalmente destas, sempre com bordados intricados; depois da invasão, a poeira, o acinzentado e a sujeira, além do sangue, dominam a tela, numa crueza que revela a crueldade sionista. Quando Farha se liberta (chegaremos lá), uma tomada geral da vila completamente destruída e dominada pelo cinza contrasta com uma tomada geral idêntica, ainda do começo do filme e do mesmo ângulo, quando a vila ainda pulsava plenamente a vida.
Por fim, duas pequenas conclusões acerca do filme:
Farha nos mostra árabes numa chave oposta ao que nos acostumamos ver em filmes, notadamente hollywoodianos ou ocidentais, em geral. Edward Said, no sempre necessário Orientalismo, destrincha de forma elegante e didática como a população árabe, e em especial a do Oriente Médio, sempre foi retratada como preguiçosa, luxuriosa, avarenta etc — estereótipos reforçados literalmente por séculos de produção acadêmica e cultural na Europa e nos EUA, agravadas pela nefasta Guerra ao Terror pós 11 de setembro de 2001 (uma guerra que nunca chega ao fim). No filme de Sallam, vemos um povo amoroso, afetuoso, cheio de fé e de vontade de viver. A diretora complexifica o povo palestino para além da marca de terroristas-fanáticos-machistas que ainda hoje carrega.
Segundo, e talvez mais importante, a libertação de Farha é a possibilidade de libertação de seu próprio povo. Quando finalmente descobre a arma que lhe possibilita abrir a porta do esconderijo onde foi trancada pelo pai, a garota vislumbra um novo uso para esta arma e para si mesma. A estrada que ela encara no plano final, confundindo-se com o horizonte à sua frente, guia para um futuro distinto, um futuro para além do que o sionismo definiu e permitiu ser imaginado. Farha, a Alegria, é a Palestina livre e a consumação de uma radicalidade utópica jamesoniana.
Um filme que incomoda muita gente…
Desde seu lançamento, Farha incomodou sionistas, e tudo piorou quando a Netflix estadunidense disponibilizou o filme em seu catálogo. Diversas acusações apareceram na mídia e em posts, em declarações e artigos de organizações como a StandWithUs, uma das maiores representantes do lobby sionista na cultura, na política e na sociedade. Invariavelmente, antissemitismo e falsificação da história estão entre as acusações, ainda que a própria história de Israel, conforme demonstraram Soraya Misleh (2017) e Ilan Pappé (2016; 2022), contradiga os argumentos sionistas de hoje em dia que negam a existência Nakba.
Para compreender um pouquinho melhor estes contextos, duas peças jornalísticas e uma conversa franca lançam luz no debate, contrapondo o que o sionismo tem espalhado metodicamente sempre que alguém aparece para criticar a história israelense e palestina:
Entrevista com a diretora Darin Sallam, realizada pela Al Jazeera, em junho de 2023 (em inglês);
Reportagem do Intercept sobre a tentativa de boicote ao filme perpetrada por sionistas (em inglês);
Bate-papo entre a pesquisadora Soraya Misleh e Darin Sallam, durante a 17ª Mostra Mundo Áreabe de Cinema, do Instituto Cultural Árabe.
Por fim, o filme traz, já nos seus momentos finais, a figura de um traidor palestino, um homem encapuzado responsável por colaborar com o exército sionista na identificação de vilas, pessoas, depósitos de armas etc. Descobrimos que o homem é o tio de Farha, um tipo urbano, que incentiva a garota a ir estudar na cidade. A questão de colaboradores árabes do regime sionista ainda segue como uma grande peça no quebra-cabeça do trauma da Nakba. Para compreender melhor este problema, sugiro a reportagem da Al Jazeera, também em inglês, Farha and the story of the Palestinian collaborator.
Referências bibliográficas
El Cheikh, B. Quando é a Palestina? O tempo palestino através da ficção científica de Larissa Sansour. Orientador: Fernando Antônio Resende. 2022. 124 f. Dissertação (Mestrado) — Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2022.
Klein, Naomi. A doutrina do choque. A ascensão do capitalismo do desastre. Sâo Paulo: Nova Fronteira, 2008.
Misleh, Soraya. Al Nakba — Um estudo sobre a catástrofe palestina. São Paulo: Sundermann, 2017.
Pappé, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2016.
Pappé, Ilan. Dez mitos sobre Israel. São Paulo: Tabla, 2022.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.
Em um próximo texto, exploro mais detidamente as relações entre o capital e a destruição da Palestina — ou, melhor dizendo, como o sionismo está umbilicalmente ligado ao capitalismo de desastre de que Naomi Klein (2008) trata em seu livro A doutrina do choque, ou seja, como o projeto de colonização sionista — tal qual tantos outros projetos colonialistas europeus — depende do capital e da violência promovida pelo capitalismo para se concretizar; um não vive sem o outro, e a convivência israelo-palestina é, portanto, impossível sob a ótica sionista. É por isso, dentre outros fatores, que a solução de dois Estados jamais foi, de fato, cogitada por parte de Israel: seu desejo é o domínio total do território.
Uso conflito neste contexto como recurso meramente retórico; um conflito pressupõe algum tipo de paridade entre as partes. No caso Israel/Palestina, a história nos mostra que o sionismo tem como objetivo, desde pelo menos o final do século XIX, tomar todo o território palestino para incorporá-lo a Israel, um Estado reconhecido internacionalmente. Seu exército é um dos mais bem equipados do mundo, e o orçamento militar israelense é incomparável ao orçamento da resistência palestina — sequer existe um exército palestino para combater as Forças de Defesa de Israel.
Esta discussão está fortemente presente em Patrimônio Nacional e In vitro — principalmente no primeiro —, filmes de Larissa Sansour que serão apresentados em textos no futuro. Por ora, ressalto que no primeiro filme esta ideia da resistência/sobrevivência do povo palestino é explicitada no final, quando revela-se a gravidez da protagonista do curta. É também, obviamente, uma questão que abarca o gênero muito fortemente, já que cabe às mulheres essa “tarefa” da reprodução social — seja ela como mão-de-obra para o capital continuar operando, seja como força de resistência de quem sofre as opressões.


