#29 — A FRENTE DA RECUSA, de Jocelyne Saab
Ou: uma pessoa é mesmo uma causa!
Enquanto Israel tenta aniquilar a Palestina, a resistência dança…
É assim que Jocelyne Saab encerra mais um filme que aponta direções possíveis da resistência anticolonialista palestina, incluindo métodos eternizados no imaginário ocidental acerca do “terrorismo”1 árabe. A dança e a música tomam a tela enquanto os fedayin nos fazem pensar sobre formas de acabar com a colonização sionista em Gaza e na Cisjordânia. Novamente recorrendo a arquivos montados lado a lado com imagens de treinamentos táticos, momentos de descontração e depoimentos-manifestos sobre a Palestina Livre, Saab tensiona novamente as narrativas que povoam o contexto da ocupação militar ilegal deste território.
A dança do combatente nos faz questionar inclusive as representações de gênero associadas aos contextos de conflitos e guerras, sempre muito masculinos, confundindo essa masculinidade com a violência inerente a essas situações, calcificando uma ideia que ainda hoje perdura e é exacerbada do homem viril e forte, que defende a pátria pegando em armas e aniquilando impiedosamente seus inimigos (e quão violento um processo precisa ser para que pessoas vejam outras pessoas como inimigos aniquiláveis é algo sempre muito grotesco2). A própria Jocelyne reconhece os “movimentos femininos” na dança do militante, numa espécie de postura lúdica, advinda da dança, frente à morte iminente:
Decidi manter uma cena que pode parecer inesperada e surpreendente neste contexto: um dos membros do comando está dançando, balançando os quadris ritmicamente, com um lenço amarrado na cintura. Seus movimentos são muito femininos, eu acho. Não vamos esquecer que a dança acompanha todos os atos importantes da vida. Na época, me fizeram prometer que não revelaria a localização dessa base secreta. E essa informação exclusiva gerou muita inveja entre meus colegas, além de repreensões e críticas da ala mais moderada do Fatah e da OLP.
Se em As mulheres palestinas Jocelyne Saab nos leva para o extraordinário e fabuloso mundo da resistência anticolonialista das mulheres palestinas, em A Frente da Recusa (1975) a cineasta libanesa embarca no universo das autoimolações de homens que criam um grupo de resistência diferente, como o titulo do filme dá a entender. Partindo de discordâncias da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat, homens enrolados em kufiyas que escondem suas identidades (por razões de segurança, como a narração deixa claro em alguns momentos) passam por um rígido treinamento militar nas montanhas de campos de refugiados e sob túneis que atravessem diversos lugares no espaço ocupado pelo sionismo israelense.
A convivência da jovem cineasta-repórter com um grupo que abertamente usava da luta armada para promover ataques terroristas causou certa indignação no Fatah e na OLP. Lideranças políticas da resistência palestina contra o sionismo acreditavam que o retrato de Saab poderia ser um tiro no pé das negociações em curso para o reconhecimento da causa palestina e sua viabilidade formal e legal. Inabalável, ela manteve o filme conforme imaginou: um registro humanista de uma outra forma de lutar pela autodeterminação palestina, gostemos ou não dos métodos empregados pelos fedayin liderados por Ahmed Jibril.
No filme, Jibril é entrevistado de costas para sua interlocutora, escondendo sua identidade. Na época, usando métodos e armas soviéticas, Jibril comandava este grupo de rejeitados em ações direta contra o sionismo. É particularmente notável quando falam que Israel preferiria matar os reféns israelenses junto com combatentes palestinos em vez de negociar suas libertações, numa espécie de prelúdio da Doutrina Hannibal (que, hoje, Israel jura de pé junto não estar mais em vigor, a despeito de provas do mundo real mostraram outra situação).
Boa parte da motivação destes homens em se juntar a uma operação suicida em nome da causa palestina se deveu à insatisfação com os rumos da solução-política. Vemos essa mesma indignação em As mulheres palestinas, na fedayin que, nos momentos finais do filme, exalta a luta armada em contraponto às negociações burocráticas (e muitas vezes, de fato, inócuas, como vimos na história palestina desde o surgimento do Estado de Israel e seu plano de colonização).
A crença de que nem sequer os Estados árabes da região faz(em)iam o suficiente pelo povo palestino transformou em ações drásticas o que antes estava materializado em pensamentos abstratos. Em busca de uma solução radical, que também falhou, todos se sacrificam, enquanto o sionismo perdura.
Referências bibliográficas
Hadouchi, Olivier. Documenting and Telling the Torments of the World. Interview with Jocelyne Saab. Sabzian, 7 abr. 2021.
Uso aspas neste caso não por acreditar que não haja terrorismo de algumas organizações como ISIS ou Al Qaeda (para ficar em duas reconhecidas por boa parte da assim chamada comunidade internacional), mas sim por acreditar que o terrorismo, como já defendi em outros textos neste blog, é sempre usado como uma ferramenta narrativa para interditar debates e críticas aos processos de colonização mundo afora, notadamente por Israel, EUA e Reino Unido e, neste caso, com foco na Palestina. Ninguém é a favor do terrorismo; logo, acusar qualquer tipo de resistência anticolonialista de ser uma organização terrorista é uma forma eficiente de 1) angariar gente a seu favor, já que ser terrorista é mau e 2) colocar, ao mesmo tempo, a organização que se acusa de ser terrorista num limbo do qual ninguém vai se importar em retirá-la. Vejamos o que acontece com o Hamas, por exemplo: a não ser pessoas que estão seriamente envolvidas com a questão Palestina, ninguém se importa em entender o grupo — o que não significa endossar ou concordar com seus métodos e seu programa político. Há, também, que se marcar a diferença entre ser uma organização terrorista e praticar atos terroristas — neste caso, creio não haver dúvidas que o Estado de Israel está no mesmo campo de muitas organizações que ele tem aversão.
Enquanto escrevo este texto, o facínora Itamar Ben-Gvir aparece em publico com um broche igualmente violento, em formato de forca, dourado. Ben-Gvir nunca escondeu seu ódio contra palestinos e palestinas, e agora está focado em modificar a legislação israelense para permitir a pena de morte a “terroristas”. Vejam como a nota acima explica justamente o que o líder da extrema-direita sionista pretende fazer. Como é de se imaginar, não é preciso muito para ser acusado de terrorismo em Israel (este segundo link é particularmente interessante, já que é um relatório de 2021). A primeira parte dessa luta covarde para reconhecer a legitimidade de assassinar palestinos que sequer passam por julgamentos imparciais em Israel já está definida.


