#28 — PALESTINIAN WOMEN, de Jocelyne Saab
Ou: as mulheres palestinas precisam de salvação?
Os clichês e estereótipos associados às mulheres árabes são mais do que conhecidos por aí. Notadamente depois da malfadada guerra ao terror, a imagem de uma mulher subjugada pelo homem, totalmente coberta dos pés à cabeça com uma peça única quase sempre preta, com apenas uma pequena abertura para ver seu caminho povoa o imaginário ocidental ainda hoje, a despeito de 1) não corresponder à realidade e 2) colocar no mesmo saco variadas formas de se vestir de acordo com o que preconiza o islã e/ou as diversas culturas dos países árabes (isso quando não misturam vestimentas iranianas na conversa)1.
Apesar dos monumentais esforços colonialistas desde a época das expedições napoleônicas no Egito e no “Oriente próximo” para desumanizar milhões de pessoas e tratá-las como uma massa uniforme e unívoca, cada país do assim chamado “mundo árabe” tem — pasmem! — uma cultura própria, interpretações diferentes para o islamismo (e sequer são todos muçulmanos, é claro), posicionamentos variados sobre os mais diversos assuntos políticos, econômicos, sociais e por aí vai. Sim, são pessoas, como quaisquer outras, ainda que, por exemplo hoje, pós outubro de 2023, Israel faça esforços tão grandiloqüentes quanto os de Napoleão para destruir a reputação do povo palestino e árabe2.
É necessária essa pequena digressão para falar de As mulheres palestinas (1974), porque a abertura do filme de Jocelyne Saab não poderia ser mais diferente do que o que se imagina ser uma mulher árabe. O frame que abre este texto é da sequência inicial do filme: logo após uma breve explicação sobre mulheres cuidando de criancinhas numa creche de mulheres refugiadas no Líbano, várias militantes da causa palestina aparecem em um treinamento militar, carregando AK47s (o rifle eternizado pela luta revolucionária no sul global), vestindo kufiyas preto e branco (o lenço eternizado pela luta revolucionária palestina, como nas icônicas fotos de Yasser Arafat), praticando escaladas, rastejando pelo deserto em trajes camuflados. Uma imagem, como disse, distante do que o ocidente conformou ser a mulher árabe, ainda que, desde 1948, as palestinas, em especial, sempre tenham se envolvido nas questões políticas que as afetam — política, econômica e socialmente3, seja através da luta armada, seja em outras frentes, como nas artes, nas representações diplomáticas, na academia etc.
Abraçar a causa da autodeterminação e da libertação de seu povo se confunde com o próprio cotidiano das palestinas. A jornada dupla e tripla é dividida entre estudos e trabalhos fora de casa, trabalhos domésticos e a militância. É justamente esse aspecto peculiar da vida das mulheres sob domínio sionista que Saab aborda em seu filme, de caráter jornalístico e documental. Conhecida como uma das pioneiras do cinema libanês, Saab sempre esteve envolvida com populações refugiadas, zonas em conflito e em guerra, violência estatal e colonial e, especialmente, com a Palestina. Sua atuação como diretora de filmes e jornalista lhe causou diversos problemas ao longo da carreira; particularmente, As mulheres palestinas lhe trouxe dificuldades já na ilha de edição:
[…] fiz As Mulheres Palestinas para a Antenne 2. Queria mostrar imagens dessas mulheres, as combatentes palestinas na Síria, que eram tão poucas na época. Foi pouco antes da visita de Sadat a Israel, e a situação estava muito tensa. Enquanto eu editava o filme na Antenne 2, Paul Nahon, então chefe do departamento de notícias internacionais, me agarrou pela gola e me arrastou para fora da sala de edição. As Mulheres Palestinas ficou inacabado e nunca foi ao ar na televisão.”
O filme foi considerado “muito político”4 pela direção do canal. Claro, ideologia quem tem são os outros, né? Imaginem se a uma mulher cristã, de classe média/alta, libanesa-educada-em-Paris e, ainda por cima, cineasta, seria permitido registrar a militância pela autodeterminação do povo palestino e pelo reconhecimento de direitos das mulheres palestinas…
E ainda assim, o filme existe.
Saab tem plena consciência de seu lugar quando fez o filme. Os pouco mais de 10 minutos são mais que suficientes para nos fazer refletir sobre as possibilidades de manifestação da militância das mulheres palestinas em diversos contextos. O treinamento militar e ação direta é apenas uma delas, de efeitos mais imediatos. A abertura na creche revela uma outra, ligada ao cuidado e aos afetos, sem jamais se esquecer da causa que defendem. Uma terceira se encarna nas vozes de palestinas que se exilaram no Líbano, jovens, fugindo da ocupação e da colonização sionista, que apontam suas críticas ao sistema patriarcal que as oprime dentro e fora de sua terra, reiterando a necessidade de lutar em todas as frentes contra essa opressão — como quando, por exemplo, se qualificam na universidade.
Já no final, uma fedayin nos relembra as agruras da luta armada contra uma potência militar apoiada por outras potências tão ou mais poderosas que Israel:
Não temos medo de Israel. Lutamos à luz do dia, cara a cara. Só os covardes lutam com aviões. Os corajosos lutam a pé, para libertar suas terras no território ocupado.
O lembrete da combatente parece um eco deslocado no tempo de algo que temos visto desde o começo desta nova fase de extermínio do povo palestino, em especial das mulheres, maioria entre os assassinados pelo sionismo: não há resposta possível que não passe pelo reconhecimento de um Estado palestino, da Palestina por inteiro, como ela verbaliza:
Enquanto permanecer vivo, pelo menos, um filho nosso, nao haverá nenhuma solução politica. So haverá Palestina, por inteiro.
As mulheres palestinas está em exibição em duas plataformas online, um caso raro em se tratando de filmes palestinos, que dificilmente encontram distribuição por aqui fora dos circuitos de festivais e mostras de cinema.
Um dos canais é o FILMICCA, e quando o filme tá lá, você já sabe, né? Tem incentivo de a contrapelo pra você ver o melhor do cinema no conforto de onde estiver. Com o cupom CONTRAPELO25 você ganha 25% de desconto no Passe Pix 12 Meses — 1 ano de acesso à FILMICCA por R$ 150,00. Pra usar é bem simples:
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Bom demais, né? Plataforma brasileira, com conteúdo de primeiríssima linha, por um precinho camarada! Então, compartilhe esse post para mais gente acessar às pérolas do catálogo da FILMICCA, incluindo alguns filmes palestinos que tanto gosto de comentar neste blog…
O outro canal é a plataforma Another Screen, um braço de exibição de filmes da revista Another Gaze, dedicada a uma visão feminista sobre cinema e outras coisas (mas bem focada em cinema, mesmo). Pra quem não conhece a revista vale a pena passear pelo site e ler os ensaios. Gosto muito da visão que as autoras imprimem nos textos, que passam longe do liberalismo barato e tacanho que muitas vezes domina o mainstream da crítica. Mas voltando ao filme: neste caso, As mulheres palestinas está disponível gratuitamente, dentro da mostra Jocelyne Saab/Arab Loutfi, com legendas em inglês.
Independentemente de qual plataforma você escolher, sugiro fortemente ler o texto que acompanha a página do filme no Another Screen, que traz reflexões críticas sobre a obra e outros filmes de Jocelyne, escritos pela produtora, curadora e ensaísta Elhum Shakerifar.
É impossível não lembrar um caso recente que envolve o prefeito eleito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, muçulmano. Sua campanha enfrentou todo tipo de difamação e racismo anti-árabe e anti-islã; num caso emblemático, um twitteiro compartilhou uma imagem de uma mulher usando uma burca (sabe-se lá de onde, e agora nem me recordo se de fato era uma burca ou alguma outra vestimenta) com uma legenda que dizia algo como “se ele [Zohran] vencer, é isso que nos espera”. A ideia é tão estúpida que ignora que o próprio Zohran é casado com uma mulher (árabe) que se veste nos padrões aceitos pelo mundo ocidental como “civilizados”.
Vejam, por exemplo, como os temas “Gaza”, “genocídio” e até mesmo “Hamas” sumiram do noticiário por aqui, depois que anunciaram o cessar-fogo há alguns meses. Declarou-se o fim do extermínio palestino, e o mundo “civilizado” fingiu que nada mais acontece. Entretanto, desde o anúncio da pausa no assim chamado conflito, Israel já assassinou mais de 360 palestinos, conforme informa o Guardian — um jornal que, até onde sei, não é financiado por nenhuma “ditadura” árabe malvada… (quantas aspas nessa nota!)
Uma figura central da luta pela libertação da Palestina é Leila Khaled, ainda hoje atuante na causa. Foi uma importante revolucionária de seu povo, participando inclusive de um sequestro de reféns num voo comercial no anos 1970, justamente o período em que se passa o Palestinian women. Sua história está registrada de forma muito bonita em dois filmes, um dos quais ja comentei aqui: Tell your tale, little bird e Leila Khaled, hijacker. Uma das imagens mais icônicas de Leila é foto belíssima em que, enrolada numa kufiya, empunha justamente um AK47, enquanto sorri para um interlocutor fora do quadro. Daria um belo texto essa imagem…
Elhum Shakerifar aponta essa crítica do Antenne 2 no texto que acompanha uma mostra de filmes de Saab online, em exibição no Another-Screen. Falo mais da mostra no final deste texto.


