#26 — RETORNO A HAIFA, de Kassem Hawal
Ou: uma pessoa é uma causa (ou ainda: o trauma, sempre ele)
Abandonar um filho ou uma filha, uma criança, um bebê, é um tormento inimaginável para muitos de nós. Ver-se numa situação limite entre procurar um abrigo ou uma saída segura enquanto sua vila é dizimada enquanto seu bebê permanece em casa, talvez o lugar mais seguro para eles estar, não é exatamente uma situação cotidiana, corriqueira, ordinária — pelo menos pra muitos de nós, que crescemos no fantástico e civilizado mundo ocidental. Quando abandonar sequer está no seu horizonte de imaginação, já que você espera voltar para seu lar seguro onde está seu bebê tão logo a revolta exterior tenha fim, a situação se complexifica um bocado…
O abandono de um recém-nascido é justamente o ponto de partida de Retorno a Haifa (1982), filme de Kassem Hawal, um histórico e incontornável militante marxista que trabalhou na não menos necessária Palestine Film Unit (PFU), um braço de criação e distribuição audiovisual ligado à Organização pela Libertação da Palestina (OLP, ou PLO, em inglês) e ao Fatah, partido que dominou a OLP durante muitos anos. O nome do filme não deve ser estranho para ninguém que tem o mínimo de contato com a história e com a cultura palestina: é uma adaptação da quarta novela1 do genial Ghassan Kanafani, um dos principais nomes da literatura palestina e também um militante pela libertação de seu povo2, fundador da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), também um organização de orientação marxista-leninista e, portanto, revolucionária, da qual fez parte o diretor do filme. Já deu pra perceber que tanto Kanafani, quanto Hawal, eram muito mais que “engajados” na luta pela autodeterminação palestina, né? Suas histórias artísticas estão completamente imbricadas nas suas histórias pessoais e de resistência à colonização sionista.
O enredo de Retorno a Haifa está quase completamente contido no seu título: um casal, Saeed e Safiya, voltam à Haifa vinte anos depois de serem expulsos na Nakba. O retorno à cidade natal acontece após a derrota acachapante da liga de países árabes na Guerra dos Seis Dias, que encerrou uma espécie de utopia da unificação árabe na região. Vinte anos, contudo, é muito tempo, principalmente quando descobrimos que o filho de Saeed e Safiya fo forçosamente abandonado em Haifa em 1948, ainda bebê, quando as forças militares de Israel se apossaram da cidade.
O pai, então, alimenta uma esperança de reencontrar o filho perdido duas décadas depois; a mãe não é diferente, ainda que mais reticente. O resultado, é claro, não poderia ser ainda mais catastrófico: o bebê ganhou um nome judeu, Dov; sua mãe, Miriam, agora é a feliz proprietária de uma casa no balneário de Haifa, uma das principais cidades do hoje Estado de Israel, ao norte do país, e importante centro comercial e portuário.
Os nomes que Kanafani dá em sua novela aos personagens mais críticos refletem o deboche que o destino preparou para o casal palestino. A mãe judia e seu filho carregam a reputação de dois nomes muito populares em Israel: Miriam é a nova soberana da casa tomada à força, uma orgulhosa viúva de um heroi da “guerra” que dizimou o povo que lhe rendeu um lar; já Dov é o bravo sobrevivente de uma situação que levou ao seu próprio abandono por quem deveria protegê-lo a qualquer custo. Sua mãe, a única com quem de fato criou laços afetivos, tomou para si a tarefa antes designada a Saeed e Safiya, que voltam vinte anos depois para reclamar sua paternidade e maternidade marcadas pela angústia sem fim.
É importante lembrar que o retorno às casas que outrora lhes pertenceram é, ainda hoje, proibido aos palestinos. O símbolo da chave que vários deles carregam em sua diáspora ganha força justamente porque desde 1948 são alijados do direito de retornar às terras que lhes foram espoliadas ilegalmente por Israel. Ainda hoje, o Estado israelense patrocina incursões sionistas pela Cisjordânia para expulsar (e, não raro, matar) a população palestina, e um dos objetivos da “guerra” contra o Hamas — já ficou mais do que claro — foi anexar território palestino ao Estado sionista.
Por sua vez, Khaldoun, como o menino foi batizado pelos pais palestinos, tem em a raiz “imortal”, “eterno”. Se, na prática, Dov renega suas raízes originárias e de nascença, rejeitando o afeto de Saeed e Safiya e anunciando prontamente que sua única mãe é Miriam, Khaldoun carregará para sempre o fato de ser um filho da espoliação, da matança, da expulsão e da colonização. O agora homem, que orgulhosamente presta seu serviço militar junto às Forças de Defesa de Israel e combateu na Guerra dos Seis Dias, será, de fato, eternamente lembrado pela ambiguidade que carrega em si. Sua mãe, Miriam, não será menos atormentada pela terna lembrança de um passado que não passa e com o qual ela precisará, cedo ou tarde, prestar contas.
Saeed reconta, ainda nos momentos iniciais do filme, que um conhecido fez o caminho de volta a Haifa e encontrou um palestino vivendo no que fora sua casa. O lar guardava uma foto de um dos líderes árabes durante al Nakba. A história de desespero e horror ganha contornos esperançosos quando os dois homens se abraçam, reforçando seus laços com a casa e o território ocupado por sionistas. Porém, Saeed e a esposa não encontram a reconciliação imaginada, obstinando-se com os sentimentos de rejeição e rancor de Dov.
O que é uma pessoa?
Se Kanafani tem páginas e mais páginas para descrever os sentimentos de seus personagens traumatizados pela violência da colonização, Hawal conta com os recursos característicos do cinema, e não deixa nada a desejar. Pra começar, a trilha sonora, composta por Ziad Rahbani, guia o filme juntamente com as imagens que o compõem, que misturam a mise-en-scène de Hawal, reencenações históricas e imagens de arquivo da PFU. Rahbani dá o peso necessário às ações mediadas majoritariamente por diálogos, traduzindo em sons e paisagens sonoras o que Kanafani descreve em palavras na novela.
Em outra frente, a fotografia precisa dar conta dos mesmos sentimentos, e pra isso George Lutfi al Khaouri usa muitos planos detalhes e closes dos quatro personagens que norteiam Retorno a Haifa. Enquanto se movimentam por pequenas salas e discutem os rumos da Palestina e suas relações familiares, os personagens são capturados pela câmera de Khaouri em sugestões expressivas da dor e do tormento que a Catástrofe de 1948 deixou em suas vidas.
Outras cenas do filme Hawal se constroem a partir de duas situações complementares: reencenações históricas da pilhagem sionista em 1948 e imagens da guerra civil no Líbano, que começou em 1975. Hawal solicitou a combatentes da resistência libanesa que pudesse filmar ações nos campos de refugiados. É daí que vem a urgência de boa parte de Retorno a Haifa em sua versão cinematográfica, um dos primeiros filmes narrativos sobre al Nakba.
A rejeição de Dov se materializa quando afirma para Saeed que uma pessoa é uma causa, uma famosa citação da obra de Kanafani. Se, de fato, o que define a experiênca de vida de uma pessoa é a causa com a qual se engaja, Saeed percebe que gastou energia demais pensando em Dov (ou, melhor, Khaldoun), ainda mais quando se vê com um filho perdido que adotou todos os valores que representam seu trauma e sua vida atribulada. Ele, então, se volta à própria causa, encarnada pelo filho palestino de fato que luta agora no Líbano, quando se reencontra com sua própria paz.
A obra está disponível na íntegra no YouTube, com legendas em inglês (infelizmente 1) não temos legendas em português, o que é lastimável considerando a importância desse filme na história da cinematografia palestina/árabe e 2) a qualidade do upload não é lá grandes coisas, mas dá pra curtir bastante):
Aqui no Brasil, o livro de Kanafani ganhou uma edição caprichadíssima da editora Tabla, que há alguns anos se dedica a difundir a literatura árabe (e em especial a palestina) em nosso país. Recomendo fortemente para quem curte livros que passeiem pelo catálogo da editora, tem verdadeiras pérolas por lá que nos fazem imergir num universo maravilhoso.
Kanafani era o escritor da resistência palestina. Foi covardemente assassinado por Israel em 8 de julho de 1972, aos 36 anos, como é praxe na história do sionismo pós-1948: em seu carro foi instalada uma bomba no para-choque, que explodiu e incinerou assim que ele entrou no veículo. Sua sobrinha, Lamees Najim, também morreu no atentado terrorista israelense, reivindicado pelo Mossad.


