#27 — COM HASAN EM GAZA, de Kamal Aljafari (outro texto em construção)
Ou: o filme de um filme jamais feito
Hasan, desligue a câmera. Aperte o botão vermelho.
O Hasan menino se mistura ao Hasan homem que guia Kamal Aljafari por Gaza, perto de sua terra natal, Ramla, uma cidade a 15 quilômetros de Tel Aviv, obviamente dominada pelo sionismo. A câmera, este dispositivo com poderes mágicos, une no tempo do filme os dois Hasan que acompanham o cineasta palestino numa viagem pelo tempo da vida. Em Gaza com Hasan é, visto hoje, como uma retrospectiva sobre a destruição quase total de uma cidade, a aniquilação de um povo e a morte de um modo de vida peculiar.
Vi o filme na abertura do 29º forumdoc.BH, um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil, focado em filmes etnográficos. Pelo segundo ano consecutivo, a curadoria, numa certo brilhante, traz um filme Kamal Aljafari para exibição publica e gratuita, numa sessão comentada por Carla Italiano e Soraya Misleh — que, de forma franca e contundente, conclamou a plateia à luta contra o sionismo, da forma que cada um possa oferecer.
Com Hasan em Gaza é um filme cru, direto, intercalado em alguns momentos pela belíssima poesia árabe, como na declamação que abre o longa com e dita o ritmo das próximas quase duas horas, ou nas canções entoadas durante passagens que contemplam de dentro do carro ou das ruas uma Gaza que, hoje, parece residir num passado longínquo, guardada na memória dos escombros que hoje se tornaram sua paisagem. Suas imagens são como uma súplica pela luta contra o apagamento da Palestina, eternizada nos insistentes (e muito afetuosos) pedidos de crianças para serem filmadas. Uma delas, aliás, está escondida, e chama pelo fotógrafo varias vezes: ela quer ter uma imagem:
(Essa sequência, inclusive, é, nas palavras de Kamal, uma das mais tocantes do filme e a que fez ele chorar revendo a obra em testes de exibição, quando ele refletiu sobre a dificuldade de encontrar a garotinha escondida atrás da barreira: “Isso diz muito sobre as pessoas de lá, que foram esquecidas. Hoje, o público em geral sabe mais sobre Gaza e a Palestina, mas o povo de Gaza vive nessas condições há quase 77 anos e foi completamente esquecido. Quando filmei em 2001, Gaza já era uma prisão a céu aberto e é chocante que o mundo tenha permitido que isso continuasse. Em última análise, foi isso que levou os israelenses a cometerem o genocídio e o que lhes permitiu sair impunes até os dias de hoje. Acho que o mundo inteiro é responsável por isso, não apenas os países que os apoiam militar e economicamente.”)
A menininha ecoa o clamor que vemos diariamente de palestinos e palestinas para que o mundo não pare de falar sobre o genocídio. É um gosto estranho que dá na boca, um aperto diferente no coração: sabendo hoje o que houve com Gaza, depois de assistir nos telejornais e ver em redes sociais as imagens cada vez mais grotescas e violentas do genocídio perpetrado por Israel, o que sobra é apenas a imagem de um povo, dessa garotinha e de seus amigos e colegas, e das pessoas que ela ama (ou amou). Sobre apenas o registro de um modo de vida peculiar, do tipo que não pode se afastar muito em águas oceânicas para pescar, ou que não pode transitar livremente sobre o próprio território entrecortado por postos de controle sionistas, sob pena de morte.
Em 2001, quando as imagens de Com Hasan… foram produzidas, a situação em Gaza era consideravelmente diferente. Pra começar, a Segunda Intifada estava em seu auge: iniciada em 2000, encarnou a insatisfação palestina com os Acordos de Oslo, de 1993, e com a Cúpula de Camp David, realizada em julho do mesmo ano e que serviu apenas para que Bill Clinton saísse bem numa foto ladeado por Erhud Barak, então primeiro-ministro israelense, e Yasser Arafat, ja bastante desmoralizado depois de Oslo e sob forte crítica de palestinos quanto a sua atuação na Autoridade Palestina.
Gaza era, então, um território ocupado militarmente por Israel. Desde 1967, o sionismo, de forma ilegal e desrespeitando resoluções das Nações Unidas (o que não é nenhuma novidade), expandiu seu plano colonialista e anexou a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, territórios outrora definidos como de autonomia palestina, e também parte de Jerusalém. Assim, alguns milhares de colonos judeus/sionistas começaram a montar assentamentos na Faixa, protegidos por postos de controle, muros de concreto, concertinas, tanques militares e soldados das FDI — um cenário muito parecido com o que vemos hoje na Cisjordânia, que ainda sofre com a ocupação ilegal de colonos judeus.
É neste contexto que Aljafari vai a Gaza em busca de um amigo que conheceu na prisão, onde esteve por sete meses durante a Primeira Intifada. Ele não sabia o endereço e nem muitas informações, apenas que estiveram juntos nas cadeias sionistas e que o amigo morava em Gaza. As imagens gravadas permaneceram esquecidas por mais de 20 anos, quando, agora, Aljafaria reencontrou as fitas miniDV com quase três horas de registros de norte a sul de Gaza. Uma pequena edição para dar ritmo e pronto, ele tinha um filme.
Este é o meu primeiro filme, que eu nunca fiz antes.
O filme-que-nunca-foi-feito é, pra mim, o mais potente, justamente porque (e isso Kamal realiza magistralmente, seja através de costuras com arquivos revolucionários e ficções israelenses, como em A Fidai Film, seja através de reencenações das expulsões forçadas a que os palestinos estão submetidos por Israel, como em Porto da Memória) aposta no registro do cotidiano simples e carinhoso de um povo como forma de resistir à brutalidade sionista. Pra cada tentativa de desumanização levada a cabo por Israel, Kamal tem uma sequência de afetos e memórias palestinas, seu povo, que insistem em se resistir. Pra cada tentativa de aniquilação, um sopro de vida, um sorriso que pede uma foto, um reencontro entre ex-presidiários que pagaram uma pena simplesmente porque existem — e eles existem!
A poesia-filme construída por Kamal responde à altura mais uma tentativa de solução final sionista. A esperança representada pelas inúmeras crianças registradas por Hasan e pelo cineasta ainda pulsa forte nos corações palestinos, dando forma e voz ao sumud do povo que insiste em resistir. São lições de vida, de fato, lições de quem desde 1948 é alvo da política de morte de Israel, alvos dispensáveis da colonização. Porém, ainda estão ali, entre os escombros da cidade milenar que os acolheu antes de qualquer projeto imperialista tomar conta do território, como um lembrete.
Gaza já não tem nenhuma universidade, como a que vemos imponente logo nos minutos iniciais. Sua infraestrutura de saúde, de cultura, de política, de vida, já está quase completamente comprometida. O registro do cotidiano palestino que se eterniza num filme, portanto, é o registro da própria vida palestina, que enfrenta hoje a mais cruel e violenta forma de apagamento perpetrada por Israel. A expulsão iniciada em 1948 e o processo ainda em curso de limpeza étnica e genocídio andam lado a lado com os dispositivos de assassinato da memória deste povo.
Aljafari e Hasan, juntos, abalam a narrativa sionista tal qual a terrorista-narrativa de Larissa Sansour. Fincam a bandeira palestina no território que tentam tomar, insistem em viver.
Para uma bela conversa acerca de Com Hasan em Gaza, sugiro a leitura do catálogo do forumdoc.BH, em que Carol Almeida e Carla Italiano tecem alguns comentários sobre o filme.



