#25 — BONBONÉ, de Rakan Mayasi
Ou: "direitos humanos para humanos direitos" é a regra em Israel
Tem muita gente boa que discute as relações paralelas socio-históricas entre o Brasil e Israel, notadamente entre a forma como a população negra brasileira é tratada pelas forças policiais em comparação com a que os palestinos são tratados pelo Estado israelense. Lá1, como cá, normalizou-se táticas fascistas de controle social: tanto instituições de investigação e controle externo, como MPs, Corregedorias, Ministérios e Secretárias de Defesa, quanto a sociedade aprovam métodos de tortura, execuções sumárias e todo tipo de abuso contra quem as polícias e as FDI elegem como inimigos na nação.
Uma dessas pessoas é o Bruno Huberman, que se dedica a escrever sobre a Palestina (e coordena um podcast excelente feito por estudantes da PUC-SP, o Palestina em Transe — mesmo nome do Substack do Bruno). Seu texto sobre a chacina tutelada pelo Estado no Rio de Janeiro, fato que dominou a semana aqui no Brasil, é exemplar das relações do capital com a política de promoção da morte (e é claro que o Mbembe tá permeando o texto do Bruno) e as consequências que, invariavelmente, respingam nos povos racializados e nas populações subalternas, sempre suspeitas, sempre bandidas, sempre sem história, sem contexto, sem nada.
Começo esse texto com estes dois parágrafos sobre um fato que aparentemente não tem nada a ver com Bonboné (2017), dirigido por Rakan Mayasi, porque é sempre importante lembrar que pessoas encarceradas, pelo motivo que for, ainda são, pasmem, pessoas. O crime mais odioso, mais hediondo, mais asqueroso, ainda é um crime passível de punição através das vias legais. No Brasil, não temos (e não teremos, se depender da tão maltratada Constituição Federal — chamada, hoje meio ironicamente, de Constituição Cidadã) prisão perpétua ou pena de morte, para desespero de boa parte de cristãos e homens de bem que gostam de arrotar virtude em redes sociais e jornais Brasil afora.
Em Israel, pena de morte existe e sua aplicação é um tanto restritiva, quase sempre adotada em casos extremos2 — como foi o julgamento de Adolf Eichmann, uma das únicas execuções realizadas legalmente por Israel. O uso do termo não é à toa: observando a história do Estado sionista e da Palestina e seu povo, é um tanto óbvio que, tal qual no Brasil, há uma legislação não-oficial que permite que alguns corpos sejam assassinados independentemente de se encaixarem nos casos previstos em lei, e que seus assassinos saiam impunes, sem sequer um julgamento de fato. Palestinos não precisam muito mais do que ser palestinos para se tornarem pessoas matáveis…
Prisão perpétua também existe em Israel, e por lá há uma quantidade razoável, ainda que indistinta, de pessoas encarceradas nessa categoria. Um exemplo é Abdullah Barghouti, que coleciona diversas condenações para cumprir sob este regime extremo, já que era um dos líderes das Brigadas Al-Qassam, o braço armado do Hamas. As visitas íntimas são proibidas nestes casos (e, não raro, em qualquer outro caso, já que o tratamento dado por Israel aos prisioneiros palestinos não é lá muito respeitoso); assim, muitas mulheres palestinas contrabandeiam esperma de seus maridos encarcerados em Ofer ou Ramon, por exemplo, para tentar engravidar através de uma inseminação artificial já em território palestino. As chances, como se pode imaginar, não são as melhores, mas, em pouco mais de uma década, 120 bebês foram concebidos utilizando o método de contrabandear sêmen.
Outro exemplo é o Homem interpretado por Saleh Bakri (já falei de filmes dele aqui e aqui) em Bonboné: somos apresentados a ela já encarcerado, após um banho coletivo com outros colegas de prisão, um tanto decepcionado porque não consegue sequer ter uma ereção. Sua esposa faz uma visita no dia seguinte, e a conversa ao telefone que começa protocolar logo logo se transforma num sexting excitante. O sêmen é transportado num papel de bala, que ela guarda na bolsa.
O filme é curto e muito potente, pois condensa em dois ambientes o suplício que é tentar engravidar num cenário em que um Estado ocupante — Israel, obviamente — não faz nenhum esforço para garantir os mínimos direitos para a população encarcerada, que está tutelada por este mesmo Estado. No caso israelense, é um tanto mais grave, já que a existência de aberrações jurídicas como as prisões administrativas impõem encarceramentos que sequer passam por julgamentos: palestinos são detidos em prisões longe de suas famílias indefinidamente, ao sabor das vontades de juízes e secretários de Estado.
O final de Bonboné retoma imagens comuns em filmes palestinos e em reportagens sobre o massacre diário a que este povo está submetido desde, pelo menos, 1947: barreiras militares impedem o livre trânsito de pessoas pelo território ocupado, transformado uma simples visita ao marido na cadeia em uma odisseia perigosa e, às vezes, fatal.
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Bom demais, né? Plataforma brasileira, com conteúdo de primeiríssima linha, por um precinho camarada! Então, compartilhe esse post para mais gente acessar às pérolas do catálogo da FILMICCA, incluindo alguns filmes palestinos que tanto gosto de comentar neste blog…
Cidadãos de segunda classe
A situação do Homem de Bonboné seria muito, mas muito diferente se ele fosse israelense. Afinal, a despeito dos esforços da Hasbara em nos convencer que tudo em Israel vai bem, obrigado, a proibição de visitas conjugais se aplica única e exclusivamente aos prisioneiros árabes e palestinos. Aos israelenses, a regra não se aplica. Vejamos o caso de Yigal Amir, um nome conhecido em terras israelenses e mundo afora por ser o assassino de Yitzhak Rabin. Em 1994, após a assinatura dos Acordos de Oslo3, Rabin discursou em praça pública celebrando a paz entre palestinos e israelenses; logo em seguida, quando ia embora, foi alvejado por dois tiros disparados por Amir, que foi sentenciado à prisão perpétua.
Na prisão, contudo, seu tratamento é bem diferente do que o que recebem os palestinos sob mesma pena — em que pese que Amir assassinou o primeiro-ministro sionista, algo que nenhum palestino jamais fez. Vejamos como, em 2013, o The Guardian relatou sua relação com a esposa numa visita conjugal em 2006:
Embora as visitas conjugais sejam proibidas para prisioneiros palestinos, elas são permitidas para alguns prisioneiros israelenses. Yigal Amir, que cumpre pena de prisão perpétua pelo assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin em 1995, casou-se na prisão e teve permissão para uma visita conjugal de 10 horas em 2006, seguida de visitas conjugais mensais regulares. Sua esposa, Larisa Trombobler, deu à luz um menino em outubro de 2007.
Amir não só pode se encontrar com a companheira durante 10 horas, como ele se casou na cadeia. Quando o Estado quer, ele sabe cuidar dos seus tutelados, não é mesmo?
Para encerrar este texto, deixo uma reflexão trazida por Tithi Bhattacharya sobre um das formas de aniquilação empregadas pelo sionismo: o controle de natalidade e das técnicas de reprodução de mulheres palestinas. Se, por um lado, o Estado sionista garante às mulheres judias gratuidade e estrutura para expandirem a prole4, por outro faz de tudo para restringir a gravidez de mulheres palestinas e árabes.
Assim, a engenharia sionista garante o extermínio do povo palestino numa atuação em todas as frentes: simbólico, ao destruir e/ou renomear espaços, vilas, cidades etc. palestinos; físico, como vemos agravado desde outubro de 2023, com bombardeios incessantes em Gaza e assassinatos na Cisjordânia; e na perspectiva de um futuro, seja ele qual for, ao fazer de tudo para impedir que mulheres palestinas engravidem, seja de cidadãos livres, seja da população carcerária que mantém sob seu domínio em condições desumanas.
Referências bibliográficas
Bhattacharya, Tithi. Esqueci de morrer — pensando a reprodução social da vida palestina. Margem Esquerda, São Paulo, n. 43, p. 56-65, 2024.
Ben-Natan, Smadar. The shadow of the death penalty in Israel: Why is a legal punishment never used? Disponível em: Stroum Center for Jewish Studies
O caso do apoio da população judaica israelense às práticas violentas das forças armadas sionistas é um tanto curioso, ainda que explicável: o povo se divide em pedir a cabeça de Netanyahu, pois entendem que ele estava fazendo muito pouco para resgatar os reféns ainda sob domínio do Hamas, ao mesmo tempo em que exaltavam os bombardeios e os assassinatos de palestinos indiscriminadamente, sob a desculpa de combater o terrorismo que ameaça a integridade do etno-Estado judeu.
A história da pena de morte em Israel é complexa, remontando ao período antes da criação do Estado israelense de fato. O Mandato Britânico utilizava uma legislação própria que permitia execuções de tribunais militares julgando crimes civis. Após al Nakba, Israel manteve alguns dispositivos legais da época do Mandato, principalmente referentes à segurança nacional; contudo, aboliu a pena de morte para crimes como homicídio. Para mais detalhes, ver A sombra da pena de morte em Israel: por que essa punição legal nunca é aplicada?, citado nas referências.
Como quase todo acordo celebrado para “resolver” ou “apaziguar” a situação Palestina-Israel, os de Oslo também não serviram para muita coisa. Sem nenhuma eficácia, apenas desmoralizou a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) sob o comando de Yasser Arafat, acusado pelos palestinos de trair os auspícios emancipatórios de todos eles. Oslo criou a Autoridade Palestina para gerenciamento da autonomia da Palestina, bem como previa um resolução para os assentamentos ilegais de colonos judeus e também a situação de Jerusalém. Nunca foi, de fato, implementado, e Israel desrespeitou completamente seus dispositivos.
Tithi explicita inclusive como o sionismo adota táticas eugenistas para garantir que um certo tipo de judeu seja o exemplo a ser perpetuado — mas isso é uma conversa pra outro momento. De toda forma, a leitura do artigo da pesquisadora é essencial para se compreender as formas de controle de reprodução empenhadas por Israel na Palestina.




uau, Rodrigo, ainda nao tinha escutado falar desse filme, parece bem interessante. obrigada pela recomendaçao!