#24 — GAZA MON AMOUR, de Tarzan & Arab Nasser
Ou: o amor nos tempos da colonização (e no meio do tiroteio)
Quão possível é viver uma história de amor em meio à violência de uma ocupação colonialista? Amar, o maior imperativo da humanidade, poderia — deveria? — ser suficiente, bastar. Pelo menos é o que Issa e Siham, com suas gargalhadas contagiantes vindas do fundo do coração que encerram Gaza Mon Amour, parecem nos fazer acreditar. Amar sem nenhum compromisso com nada, a não ser à pessoa amada.
Dirigido pelos Nasser Brothers, Tarzan e Arab, o filme foi lançado em 2020. Pra variar, como toda obra palestina tem a ocupação militar sionista (colonialista e ilegal) no pano de fundo. Nessa ficção, mais do que nunca: Israel é uma sombra, que toma uma forma mais definida lá pelos finais de tudo, quando, após um pronunciamento de um líder do Hamas, atacam com bombardeios o povo palestino. Mas Gaza Mon Amour não é um filme sobre o sionismo, ao menos não como tantos outros filmes palestinos: seu nome entrega suas intenções, e é impossível não se apaixonar.
Não ter como foco a violência colonial não significa que não vejamos Israel fazendo o que sabe de melhor contra a Palestina. Depois de um pequeno prólogo, que mostra Issa em seus afazeres de pescador em alto mar (e ele é bom nisso!), já nos vemos guiados por lanternas, nobreaks e luzes de celulares: é o regime sionista que controla o fornecimento de energia. Não começou após os ataques do Hamas em 2023, nem em 2020, nem neste século: controlar as fontes energéticas é crucial pro sucesso do projeto supremacista israelense. E não importa quão bom pescador Issa é: sua área de atuação está limitada a 10 quilômetros da costa, mais uma cortesia do fascismo de Israel.
Outros sinais do cotidiano marcado pela ocupação se espalham pelo filme de forma sutil e simbólica, como o famoso picho do garotinho Handala na casa do pescador. Criado por Naji al-Ali, Handala era um cartum que tomou as ruas na Palestina e outro lugares mundo afora, símbolo da resistência antissionista. Al-Ali é um dos sobreviventes da Nakba de 1948, quando, juntamente com sua família, foi forçosamente deslocado de sua casa. O personagem se tornou sinônimo de resistência e identidade palestina, fazendo jus ao conceito de sumud que guia esse povo. Handala inspirou uma das flotilhas que tenta, hoje, levar ajuda humanitária a Gaza, durante o genocídio do povo palestino.
Issa é, também, assim como Handala/Naji, um pilar de resistência. Mas ele se complexifica: além de enfrentar o sionismo, precisa também combater as arbitrariedades do governo local, que gerencia a vida no campo de refugiados onde vive. Não se trata de comparar o grau de perversidade de Israel e da polícia local, mas a vida de pessoas como o pescador só fica mais e mais difícil quando precisam confrontar julgamentos e acusações injustas que partem de seu próprio povo. A opressão atua de todos os lados, e saber navegar entre eles é algo que Issa desenvolve ao longo da vida.
(Neste ponto, é notável a crítica à burocracia policial que, além de tudo, vive muito mais confortavelmente que as pessoas que pretende defender. Enquanto o povo sofre para conseguir comida, emprego e dignidade, os policiais são representados comendo bem, vivendo tranquilamente, tirando cochilos durante o expediente…)
A co-protagonista do filme, Siham, precisa lidar com o impacto de um bloqueio terrestre, aéreo e marítimo na loja onde vende vestidos, com muita ênfase nos que chegam da Turquia. Gaza Mon Amour é o reencontro da sempre maravilhosa Hiam Abbas, que interpreta Siham, a musa de Issa, com a talentosa Maisa Abd Elhadi, que interpreta Leila. Novamente, as duas são mãe e filha, respectivamente, e quem viu In vitro, de Larissa Sansour, vai se lembrar da boa química entre as duas. Mais: de novo, estão numa relação conflituosa que envolve crenças e valores da mãe, um tanto quanto conservadora e desejosa que a filha encontre um marido, e desta, jovem e divorciada, estudante universitária, que quer uma vida fora do que lhe foi designado pelo costume religioso.
Por fim, a obra dos Nasser é mais um exemplo do que Sansour preconiza em No futuro… e eu já defendi em outros textos por aqui: ao explorar as potencialidades e as delícias de uma história de amor numa condição completamente adversa, os cineastas exibem orgulhosamente uma narrativa que se opõe ao terror imposto por Israel ao povo palestino. Nem os bombardeios, nem os tiroteios e nem mesmo os avisos em alto mar direcionados ao barco de Issa são capazes de impedir ele e Siham de viver um amor mais bonito que a lua.



