#23 — AMBULÂNCIA, de Mohamed Jabaly
Ou: ele filmou a própria morte e sobreviveu
Um filme que incorpora a urgência do atendimento médico durante uma “guerra” que dizima o povo palestino: este é Ambulância (2016), de Mohamed Jabaly, que está disponível na FILMICCA, junto com outras obras palestinas (aliás, um dos filmes de Mohamed, Minha Gaza online, já tem texto aqui, além de A chave, também disponível na FILMICCA). E se você precisava de um incentivo para assinar uma das melhores plataformas de streaming por aí, aí vai: cupom CONTRAPELO25 te dá 25% de desconto no Passe Pix 12 Meses — 1 ano de acesso à FILMICCA por R$ 150,00. Pra usar é bem simples:
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Agora vamos embarcar n’Ambulância.
O ano é 2014, e é importantíssimo que você guarde essa data. Eu sei que às vezes é repetitivo demais e talvez tenha quem já não aguenta mais falar disso, mas pouco me importa: 7 de outubro de 2023 não é, e jamais poderá ser considerado, o marco zero das relações violentas entre Israel e a Palestina. O ano é 2014, Mohamed Jabaly está em sua casa, em Gaza, e sionistas bombardearam o território palestino durante 51 dias, desrespeitando vários cessar-fogo e deixando um rastro de 18 mil casas destruídas e 500 mil pessoas desalojadas.
Para quem escolheu não virar o rosto pro outro lado e fingir que tudo voltou ao normal, as imagens de Jabaly — diretor, roteirista, cinegrafista e, em Ambulância, assistente de paramédico — vão ter um gostinho muito familiar. Elas ecoam, quando vemos o filme hoje, as mesmíssimas imagens que nos chegam de Gaza via telejornais, documentários ou registros em redes sociais de palestinos e palestinas vivendo sob o genocídio. É claro que, temporalmente, seria impossível que um filme de 2014 ecoasse, de fato, acontecimentos futuros; talvez seja melhor dizer que as imagens de Jabaly prenunciam o que vemos hoje numa escala ainda mais terrível e grotesca.
A câmera-testemunha treme e queima no ritmo do cotidiano que registra praticamente em tempo real. É uma extensão do cineasta, que se acostumou a fotografar o dia a dia palestino desde muito cedo. Ele diz que a câmera lhe dá segurança em meio ao pânico que a vida sob ocupação militar e colonização lhe causa. Ela, a câmera, registra a vida de Jabaly e a do seu povo, vive suspensa como o próprio tempo palestino, anda trêmula, errática, às vezes sem foco, às vezes sem enquadramento inteligível, perturbada — porém, sempre firme, segura.
São imagens do passado que parecem saídas… do presente? Mas o que é o presente palestino? E o que foi (ou é) o seu passado?
O filme se desenrola quase em tempo real: a rotina de paramédicos do Crescente Vermelho marca o ritmo da câmera de Jabaly; sentimos o cansaço e a resiliência de quem dirige as ambulâncias de um lado para o outro da cidade, resgatando feridos e não feridos, e mortos, muitos mortos. Mártires assassinados por mísseis, drones e metralhadoras israelenses. A urgência dos atendimentos passa pelo dispositivo que o cineasta carrega o tempo todo, acompanhando ora de muito perto os socorristas, ora em planos contextuais que exibem a enorme destruição causada pelo sionismo. A crueza dos acontecimentos se enreda com a narrativa de Jabaly.
Como rotina, ele, o filme, também se repete: bombardeios, morte, sangue, pessoas despedaçadas, tiros, ambulâncias em resgate, sirenes, gritos, ambulâncias em limpeza, mais bombas, mais morte, mais tiros, mais sirene, mais ambulância… o ciclo do extermínio perpetrado pelas forças sionistas se perpetua na vida/morte palestina.
O silvo dos mísseis israelenses é a trilha do filme, como acontece em tantas outras obras audiovisuais palestinas. O assobio alto, agudo e ensurdecedor prenuncia outro barulho, mais grave, tão alto quanto, ainda mais assustador: não há prédio, casa e gente que sobreviva aos massacrantes e repetidos ataques das Forças de Defesa de Israel.
Cada dia que Jabaly passa na ambulância parece repetir o anterior, mas sempre pior.
Todo mundo é Hamas — então todo mundo é alvo
Ver Ambulância em 2025 traz ainda um outro gosto estranho, uma sensação de onde já vi isso antes? Bem, como falei, o filme é de 2016, então teríamos visto antes na própria obra. Mas o contexto pós outubro de 2023 legou ao mundo e à história da cobertura jornalística de guerra imagens terrivelmente inesquecíveis — ainda que para parte de líderes do jornalismo ocidentais tenham pouco ou quase nenhum significado de fato, a não ser para divulgação de meia dúzia de nota de repúdio e algumas reportagens um tanto cínicas em veículos que prezam muito pela liberdade de imprensa e do homem, desde que ele não seja um árabe.
Em abril deste ano, Israel atacou deliberadamente uma equipe do Crescente Vermelho e um funcionário da Organização das Nações Unidas que estavam fazendo seu trabalho humanitário ao sul de Gaza. Os sionistas assassinaram 15 pessoas, profissionais da saúde, que estavam devidamente uniformizados em veículos identificados, com sirenes ligadas. Como é praxe na história do Estado supremacista de Israel, algumas mentiras correram soltas, incluindo a clássica e que já não surpreende (e nem convence) ninguém: aquelas pessoas eram Hamas.
A mentira durou pouco (aliás, gostaria de entender porque sionistas mentem tanto e tão descaradamente, usando inclusive a religião como âncora das farsas): um dos paramédicos filmou a própria execução e a de seus amigos e colegas de trabalho.
A indignação tomou conta de muita gente: como é possível atacar deliberadamente uma equipe de socorristas, que desempenham um trabalho humanitário essencial em territórios em conflito/em guerra? Fica o convite para, então, ver um filme de onze anos atrás e compreender como é possível que Israel, através de suas forças armadas, crie tantas armadilhas mortais para profissionais de saúde palestinos.
4 minutos sobre 2014 e a produção de Ambulância
Mohamed Jabaly deu uma entrevista ao Middle East Monitor em 2018, em que comenta brevemente alguns detalhes da produção do filme e o contexto da “guerra” de 2014 que Israel causou:


