#22 — A CHAVE, de Rakan Mayasi
Ou: eu sei o que vocês fizeram no verão passado (e também no de 1967, e no de 1948, e em 1897...)
Suspense instigante, guiado principalmente por uma criança amedrontada, o fator crucial de desestruturação do filme: é ela quem começa a ouvir pela primeira vez os barulhos vindos da porta. Não deixa de ser um tato irônico: é uma menina israelense, bem-nascida e criada numa família típica, de manual, que sofre com o tormento do trauma fundante do Estado sionista: a invasão de casas palestinas durante a “independência” de Israel.
A Chave (2023) está disponível na FILMICCA, junto com outros dois filmes de Rakan Mayasi, seu diretor, e ainda algumas outras obras palestinas. E se você precisava de um incentivo para assinar uma das melhores plataformas de streaming por aí, aí vai: cupom CONTRAPELO25 te dá 25% de desconto no Passe Pix 12 Meses — 1 ano de acesso à FILMICCA por R$ 150,00. Pra usar é bem simples:
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Bom demais, né? Plataforma brasileira, com conteúdo de primeiríssima linha, por um precinho camarada! Então, compartilhe esse post para mais gente acessar às pérolas do catálogo da FILMICCA, incluindo alguns filmes palestinos que tanto gosto de comentar neste blog…
Vamos ao filme da vez, A Chave.
"Tem alguém na porta", diz a menina.
"É um pesadelo, querida", responde a mãe.
Não deixam de estar corretas. Sim, tem alguém na porta, ainda que seja apenas uma presença espectral; é , também, um pesadelo, criado pela história de seu próprio povo quando decidiu tomar à força as terras e casas de quem habitava Israel em meados do século XX. O pesadelo também é um tanto irônico, né? O monstro que amedronta a menina não é nada além dos ecos da história sionista/palestina; o pesadelo não é nada mais que a própria realidade se impondo. Espectros que ganham materialidade quando situados no tempo e espaço adequados.
É por isso que, a despeito do que digam por aí, a distopia cai tão bem em A Chave: o sonho utópico sionista de estabelecer um Estado exclusivo para judeus — um etno-Estado, portanto, a manifestação nacional do fascismo sionista — é o pesadelo distópico palestino, sua Catástrofe, al Nakba, que volta agora, no futuro, para atormentar aqueles e aquelas que se beneficiaram do extermínio palestino. Esse jogo duplo que opõe a distopia palestina e a utopia sionista ecoa os ensinamentos de Fredric Jameson (2021), ainda que de forma meio avessa: não há que se falar em caráter revolucionário quando olhamos para os crimes do sionismo, perpetrados para levar à cabo um projeto colonialista.
Assim, a alienação do povo palestino e árabe das inúmeras possibilidades de imaginar um futuro próprio começa a cobrar a conta quando o espectro desse povo procura retomar aquilo que perdeu; ou melhor: aquilo que lhe foi tomado à força, saqueado, vilipendiado. Vejamos, por exemplo, como a maquete arquitetônica da idílica comunidade sionista contrasta com a realidade histórica. O deleite do pai da família, passeando pela sua criação perfeita, o lar seguro, moderno e bonito, casas, pessoas e natureza em plena harmonia, é bagunçado com a perspectiva que o assombra desde o primeiro pesadelo da filha. Seu paraíso supremacista é permanentemente chacoalhado pela presença, ainda que apenas memorial, dos que habitavam a terra e foram aniquilados de lá. O que parecia ser a materialização de um sonho ganha contornos borrados, remexido pela exposição das feridas abertas há tanto tempo, que agora voltam a sangrar.
Cotidiano da ocupação militar
Ainda nos minutos iniciais do curta, durante a consulta médica da menina, é possível ouvir o barulho de um caça cruzando o céu, fora do plano. A rotina israelense é marcada pelo militarismo — ainda que de uma forma muito menos destrutiva do que a rotina palestina. Vejamos, por exemplo, quando a família sai de uma outra consulta, quando os pesadelos se tornam mais intensos e atormentadores: ela literalmente marcha, o desenho do som complementa a postura marcial do pai e da mãe, que arrastam a filha pelas mãos, cada um de um lado da pequena menina. As cores frias, esverdeadas e azuladas, remetem às Forças de Defesa de Israel. A sincronia da família deixando o consultório médico remete à sua condição de reservistas da colonização: a qualquer momento podem ser convocados para defender as cores do genocídio.
É uma fortaleza, senhor
É assim que o chefe de segurança do condomínio utópico caracteriza a edificação. Construída no topo de um morro, conforme manda o manual, a família vive enclausurada para dar concretude à utopia supremacista. A fortaleza, afinal, os protege de quem? Ou do quê? Ou a fortaleza apenas ressalta o caráter eternamente bélico e opressivo das relações entre Israel e seus vizinhos? A construção no terreno escarpado não é à toa: do alto, o projeto sionista de ocupação do território palestino, principalmente na Cisjordânia, garante visão expandida por quilômetros e mais quilômetros do que se passa na região. Junto com o desmembramento de caminhos e estradas palestinas e o controle dos recursos naturais, esses assentamentos logo se transformam em vilas como a que o pai constrói em A chave.
Ele, aliás, acredita que pode matar o espectro que atormenta sua família com uma pistola. Ela dorme ao seu lado, na gaveta de um pequeno móvel. Está sempre preparada, engatilhada; atirar primeiro para saber o que se passa depois é a regra. O dr. Naftali, por sua vez, também sabe como se livrar dos invasores que voltam do passado para tentar tomar sua casa. Mas ele é mais experiente que Mote, o pai da família: sua arma é muito mais poderosa, seu poder de fogo vem de anos e anos de labuta contra o retorno de palestinos a suas terras. O fuzil estadunidense está pronto para matar, pronto para dar guarida aos anseios colonialistas israelenses, exaltando a longa parceria entre um Estado abertamente fascista e seu fiador no Ocidente, capaz de passar por cima de todo o regramento internacional para dar segurança ao projeto sionista.
Os tiros de Mote e Naftali não encontram alvo, é claro. Não há como simplesmente matar um fantasma com armas reais. Contudo, o silêncio depois dos tiros não deixa sombra de dúvida sobre quem vence o direito de retorno palestino. Ainda que paire sempre como uma chaga prestes a sangrar novamente, os direitos palestinos ainda são controlados pelos mesmos personagens que tentam aniquilá-los há quase um século.
(Uma curiosidade sobre a produção do filme: Frank Barat assina como um dos produtores executivos do filme. É um francês ativista e escritor, envolvido com a causa palestina há alguns anos, e autor de uma obra essencial para quem quiser compreender mais sobre essa história: On Palestine. Nele, debate com o incontornável Ilan Pappé e o sempre crítico Noam Chomsky a situação palestina e os reflexos da colonização sionista.c)
Este filme é uma adaptação do conto homônimo que integra a coletânea “Palestine +100”, que já indiquei certa vez aqui no blog. Em breve, comento especificamente A chave-conto, focando na forma como Mayasi adaptou para vídeo.
Referências bibliográficas
Jameson, Fredric. Arqueologias do futuro. O desejo chamado Utopia e outras ficções científicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.


