#21 — PEQUENO MANUAL PARA OCUPAÇÃO MILITAR, de Avi Mograbi
Ou: Gaza, ontem e hoje
Como pode uma ocupação durar tanto tempo?
Essa pergunta deveria atormentar o “mundo civilizado” com mais força.
O Hamas não existia em 1967 (assim como não existia em 1948). O que justificaria, então, a ocupação sionista dos territórios palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia? Bom, nunca é demais relembrar: c-o-l-o-n-i-z-a-ç-ã-o. E colonização significa, antes de tudo, violência. “Como uma ocupação pode durar tanto tempo?”, pergunta a narradora. Como se permite a criação de um etno-Estado no rescaldo de uma das piores experiências de supremacismo étnico que já vimos na história? Como um Estado de apartheid encontra tantos aliados mundo afora enquanto humilha, expulsa, assassina e aniquila toda uma cultura indesejada?
Avi Mograbi tem a resposta. Ou melhor: Avi Mograb tem um manual. Melhor ainda: um Pequeno Manual Para Ocupação Militar. Um guia para quem está se lançando agora nesse negócio tão lucrativo quanto racista.
Os Primeiros 54 Anos — Pequeno Manual Para Ocupação Militar (2021) expõe os crimes contra a humanidade cometidos ao longo de mais de meio século pelo Estado de Israel — ou seja, pelo sionismo. A partir de testemunhos de soldados das FDI, Mograbi remonta um aterrorizante histórico de atrocidades levadas a cabo contra a população palestina sob ocupação militar israelense.
(O filme está disponível no canal de Mograbi no YouTube, com legendas em inglês — infelizmente não achei legendas em português online. Lembrando sempre que dá pra conseguir o filme pelos canais menos ortodoxos por aí...)
Atualização: a Malu comentou o post com um link para o filme com legendas em português, publicado pelo canal do Avi; então, nada melhor que linkar o filme completo aqui também
Os depoimentos chocam pela crueldade e pela crueza. Os homens que toparam falar integram a ONG Breaking The Silence. O nome já indica do que se trata, né? Antes, para quem não conhece, um pequeno contexto das forças armadas sionistas: homens e mulheres têm que, obrigatoriamente, servia ao exército genocida. São dois ou três anos de serviço compulsório, e depois todo mundo fica à disposição na reserva até os 40 anos. Quem se recusa sofre diversas sanções que passam, inclusive, por uma temporada no sistema carcerário de Israel.
(Hoje, frente à escalada da violência e o caráter claramente genocida das incursões militar sionistas, um bocado de jovens em idade de serviço militar compulsório está se recusando a servir aos planos israelenses. Eles enfrentam temporadas na cadeira e algumas outras punições, além, é claro, de, atualmente, serem considerados Hamas. Tudo o que Israel não gosta é Hamas: jovens que não prestam o serviço militar, jornalistas, o Papa, crianças...)
Então, esses homens, reservistas, ex-chefes de Seções ou Diretorias ou Departamentos das brutalidades das FDI, descrevem, às vezes minuciosamente demais, como transformaram a vida palestina num inferno, como subjugaram todo um povo em nome de um projeto supremacista, de um projeto fascista. O gosto do filme é agridoce: ao mesmo tempo que sentimos uma raiva, um incômodo crescente e arrebatador, vendo um enorme número de homens que se dedicaram aos objetivos sionistas falarem abertamente sobre seus crimes, sabemos que quebrar o silêncio é fundamental para combater a narrativa vitimista do sionismo. Vejamos o que diz Shlomo Gazit, Coordenador de Operações Governamentais nos Territórios Ocupados:
A Faixa de Gaza foi um problema desde o primeiro dia. Havia uma grande concentração de campos de refugiados. Se, quando chegamos lá, a população era de cerca de 400 mil pessoas, mais ou menos 250 mil eram refugiados. Houve o surgimento muito sério de atos de terrorismo em Gaza. Os principais problemas eram os oito campos de refugiados. Decidiram, então, romper as rotas de acesso aos campos. Essa decisão gerou novos refugiados, ou seja, refugiados que perderam suas casas mais uma vez. Quando você derruba uma fileira inteira de casas, o que faz com as pessoas
Avi costura esses depoimentos de forma irônica, debochada e sutil. Seu papel de guia da ocupação militar é desempenhado com um humor ácido afiado, apresentando os problemas e soluções, sempre pensando na Grande Causa do etno-Estado judeu sionista. As pessoas começam a se revoltar? Esmague os focos de Resistência! Estão insatisfeitos com as condições de vida? Dê a elas alguma coisinha para se apegar, de forma que tenham algo importante a perder se se recusarem a ceder à violência colonial! E assim o cineasta apresenta seu Manual para o sucesso colonialista:
Você usa a vulnerabilidade dessas pessoas a seu favor. Na ausência de inteligência capaz de ser acionada, uma das formas de coletar informações é promovendo a prática da denúncia. Sob o regime de ocupação, pessoas são presas frequentemente interrogadas, processadas e encarceradas com base em informações anônimas. Não se trata de localizar criminosos. Isso é sobre triturar e destruir a estrutura social.
Como se vê, a prática segue firme e forte: boa parte do que chamam de "prisioneiros palestinos" mofando em cadeias israelenses é composta por pessoas em prisão administrativa, sem acusações formais, que vai se prorrogando indefinidamente com a conivência do Poder Judiciário sionsita. Assim, mantém-se pessoas presas — ou, como prefiro, sequestradas — a fim de quebrar sua moral, sua identidade. Enquanto não entregar um suposto terrorista, vai ficando na cadeia.
O fator demográfico é outra chave crucial no filme, já que está no cerne do próprio sionismo. Ilan Pappé aponta sua centralidade no discurso colonialista em Dez mitos sobre Israel (2021):
O sionismo é, portanto, um projeto colonialista de povoamento ainda inconcluso. A demografia palestina não é de todo judaica, e embora o Estado de Israel tenha controle político sobre todo o território por diversos meios, ainda está colonizando — construindo novas colônias na Galileia, no Neguev e na Cisjordânia com o intuito de aumentar o número de judeus lá —, desalojando palestinos e negando o direito dos nativos à sua pátria." (pos. 1.421)
Ou, ainda dele:
A Palestina sempre foi a terra entre o rio e o mar. Ainda é. A guinada em seu destino se deve não à geografia, mas à demografia. O movimento colonizador que começou ali no final do século XIX corresponde hoje àmetade da população e controla a outra metade a partir de uma matriz deideologia racista e políticas de apartheid. A paz não é uma questão de mudança demográfica nem de se redesenhar novos mapas: ela é a eliminação dessas políticas e ideologias. (pos. 3.466)
Avi concorda:
[...] a factualidade da demografia deve ser considerada com atenção. Levando em consideração que você não dá conta de expulsar a população local, a proporção numérica de seus colonos para os habitantes nativos torna-se significativa. Chega o momento em que fica claro que em certas áreas essa balança demográfica não pode ser suficientemente projetada a seu favor. Então, nessas áreas, decisões dolorosas devem ser tomadas.
Essas “decisões dolorosas” estão cada vez mais violentas e desumanas, como vemos desde outubro de 2023. Se para alcançar o equilíbrio da balança demográfica (que na verdade é um desequilíbrio, posto que o objetivo final é se livrar de toda a população palestines) for necessário matar as pessoas, uma por uma, então que matem; se for necessário desabastecer qualquer ajuda humanitária do território ocupado/aniquilado, causando deliberadamente e matando as pessoas de fome, que assim seja. A naturalização da colonização sionista passa por naturalizar este redesenho demográfico criado à base de destruição: basta ver como a mídia anuncia os planos de expulsão de palestinos como "anexação de território".
Antes que este texto se alongue demais, chamo atenção para dois pontos que não podem passar sem comentários:
O trabalho contrarquivístico de Mograb é fundamental para o sucesso do filme. Recorrer à oficialidade da Breaking The Silence e aos registros oficiais em vídeo da ocupação contribui para fortalecer o caráter anticolonial e antissionista de Os Primeiros 54 Anos. É um vasto material testemunhal que dá conta dos horrores cometidos ainda hoje pelo Estado de Israel contra palestinos, num exercício de contra-ataque à narrativa oficial sionista; neste sentido, o trabalho de Mograb ecoa (de uma forma muito diferente, é bom ressaltar) a genialidade de Kamal Aljafari, que também se utiliza de arquivos oficiais e obras israelenses para destruir o simbolismo sionista;
Justamente por sua riqueza arquivística, em vídeos históricos da ocupação, as imagens do filme também nos transmitem uma ironia sobre o momento atual, embaralhando esses tempos perturbados palestinos de que fala Edward Said (1999). É comum vermos, lermos e ouvirmos coisas como "é o genocídio mais documentado a história e ninguém faz nada", como se a cobertura atual do massacre de palestinos fosse algo absolutamente novo. Pequeno Manual... mostra que não: os arquivos da aniquilação palestina estão aí, crepitando no ar, pegando fogo desde, pelo menos, 1948.
Referências bibligráficas
Pappé, Ilan. Dez mitos sobre Israel. São Paulo: Tabla, 2021.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.



Com subtítulos em Português: https://youtu.be/qPb2wAy-vBo?si=rEA2OXQBOajrGUc9