#20 — MINHA GAZA ONLINE, de Mohamed Jabaly
Ou: este não é um filme pandêmico (ou ainda: o Hamas ainda não havia atacado Israel quando este filme foi produzido) — este post contém uma agradável surpresa para você, leitor!
É um espetáculo em modo de espera.
É igual ao vento antes da tempestade.
A qualquer momento, tudo pode virar de ponta cabeça
(Parece poesia, mas é só um retrato da realidade palestina sob colonização sionista.)
Mohamed Jabaly faz questão de iniciar seu filme com um aviso: os próximos 20 e poucos minutos que veremos foram filmados antes da pandemia do Covid-19, que paralisou o mundo e inundou as telas com produções realizadas à distância — pois é exatamente assim que Mina Gaza online (2020) se desenrola: recortes de ligações de vídeo entre Jabaly, vivendo seu exílio na Noruega, e amigos e parentes que ficaram em Gaza, e que em breve enfrentariam uma das maiores catástrofes de saúde da nossa história enquanto enfrentam a Catástrofe-que-não-termina do povo palestino.
Mina Gaza online está disponível na FILMICCA, junto com outros dois filmes de Mohamed e ainda algumas outras obras palestinas. E se você precisava de um incentivo para assinar uma das melhores plataformas de streaming por aí, aí vai: cupom CONTRAPELO25 te dá 25% de desconto no Passe Pix 12 Meses — 1 ano de acesso à FILMICCA por R$ 150,00. Pra usar é bem simples:
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Enfim, à Gaza online.
O compasso de espera de novas atrocidades marca a experiência palestina desde a criação de Israel, conforme vemos muito bem teorizados por Vadasaria (2018) e Pappé (2022), entre outros autores e autoras do tema. A condição de refugiado/exilado dentro de seu próprio território é definidora da forma como o povo se relaciona com este mesmo território: onde não está ocupado ou sitiado, sequer tem direitos, ou são tratados como cidadãos e cidadãs de segunda classe.
A vida em Gaza, portanto, é mediada pelos ventos que viram tudo de ponta cabeça. Não basta o isolamento a que Israel submeteu o enclave, deixando-o à própria sorte para conseguir recursos sabe-se lá de onde, já que bloquearam terra, água e mar (com uma ajuda crucial do Egito); não basta interferir ferozmente no cotidiano das pessoas através de proibições à livre circulação, militarizando as fronteiras do pequeno espaço ao qual palestinos vivem confinados; não basta: Israel, ainda por cima, bombardeia, atira, humilha impiedosamente Gaza.
As ligações entre Jabaly, então, são quase sempre interrompidas por algum evento externo, desde cortes sumários no fornecimento de energia à instabilidade constante da conexão de internet, que vira-e-mexe trava as imagens dos amigos e da família em Gaza. Um amigo, numa rara conexão estável, informa que só tem eletricidade durante quatro horas no dia; em outros momentos, as ligações são iluminadas pelas telas dos celulares ou por luminárias ou faróis de automóveis. Numa dessas ligações, quando informados por Jabaly que os invernos chegam a durar três meses sem sol, uma fina ironia na resposta conecta duas realidades absurdamente distintas e contrastantes: “Você não vê o sol”.
(Um outro amigo questiona se Jabaly é visto como uma pessoa de fato ou apenas um estrangeiro qualquer, enquanto o cineasta exibe orgulhosamente seu passaporte com o brasão da Palestina, com quem diz sim, eu sou palestino — um palestino em exílio, como boa parte de seu povo, e em segurança, diferentemente de boa parte dele).
Jabaly costura suas ligações com imagens que ora retratam uma Gaza “normal” (é possível sequer algum senso de normalidade sob uma ocupação colonial?), um cotidiano reconhecível por qualquer um de nós: crianças brincando numa praia, pessoas indo e vindo em ruas movimentadas também por carros, ônibus e caminhões (que inclusive fazem um buzinaço), panorâmicas de prédios e construções; ora transmitem em tempo real os abusos e a violência colonial sionista, incursões das Forças de Defesa de Israel em diversas localidades, bombardeios e tiros em todas as direções.
Um interlocutor intervém, ecoando o sumud palestino: “Eu sou otimista, espero que melhore”. Mais que viver em resiliência, está sempre no horizonte quais formas de resistência e luta anticolonial estão disponíveis ou serão necessárias — em geral, pequenos atos, como o print de uma conversa que reúne Jabaly e um punhado de amigos iluminados pelo farol de uma caminhonete, os sorrisos eternizados na foto e no filme, passando, também, pela cobertura jornalística no front de conflitos entre as FDI e palestinos (aqui temos uma imagem clássica do “conflito”: um jornalista registra um jovem que atira uma pedra em direção às FDI; a resposta é o esperado de sempre: tiros, bombas… o curioso conflito em que um lado está sendo aniquilado, e o outro está aniquilando).
Aliás, Minha Gaza online tem momentos cruciais do tratamento à imprensa dispensado pelo sionismo: se hoje vemos mais fartamente documentados os assassinatos de mais de 240 jornalistas que cobrem a guerra, invariavelmente uniformizados com seus coletes azuis em que lemos PRESS, Mohamed nos mostra, num registro que captura uma transmissão ao vivo, o assassinato de Yaser Murtaja, a quem homenageia à distância. O jornalista testemunhava a Grande Marcha do Retorno, em 2018, um dos mais tensos momentos recentes da história de destruição do povo palestino, quando Israel violentamente coibiu o protesto que exigia o direito de retorno aos palestinos exilados em 1948 e seus descendentes. A imprensa é um alvo deliberado do sionismo, ontem, hoje e amanhã.
Novos horizontes do exílio
Duas danças tradicionais dividem a tela: uma na Noruega e outra em Gaza. A catarse da dança e sua liberdade ecoam num diálogo a propósito de um encerramento:
Amigo: — Poste umas fotos novas.
Jabaly: — Eu tenho ficado longe do Facebook, tenho essa sensibilidade com as pessoas.
Amigo: — Esqueça as pessoas.
Não é num tom desrespeitoso; o amigo quer fotos de Jabaly, que vive longe da violência colonial que afeta todas as experiências de vida de seus amigos e antepassados desde a criação de Israel. Ele ainda é palestino, um palestino no exílio, como tantos milhões ao redor do mundo. É como se o amigo dissesse: sua vida não pode — melhor, sua vida não deve — ser subsumida ao que o sionismo permite. Até porque, o que o sionismo permite é única e exclusivamente a morte e a aniquilação, simbólica e física, de todo o povo palestino.
O amigo é, também, um companheiro de trabalho: dividiam um escritório em Gaza. Jabaly pergunta se quer ver a vista, e ao virar o celular para a janela, coloca o amigo na Noruega, na neve, também longe da Palestina; por um breve momento, alguns segundos apenas, seu amigo também pode abstrair-se da violência do cotidiano, para logo em seguida voltar à matéria crua da realidade. O cineasta pergunta se sua digital ainda funciona no registro do ponto, e é assim que o filme acaba: Jabaly estende sua digital para a tela, como se fosse bater o ponto no dispositivo do outro lado do mundo. As inscrições em hebraico do dispositivo controlador da frequência não deixam dúvidas a quem pertence o controle do tempo e da vida no território ocupado...
Referências bibliográficas
Pappé, Ilan. Dez mitos sobre Israel. São Paulo: Tabla, 2022.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.


