#2 — ZONA DE INTERESSE, de Jonathan Glazer
(Ou: como se filma o Mal?)
É impossível analisar e/ou criticar um filme como Zona de Interesse apenas levando em conta a gramática da linguagem audiovisual/cinematográfica (e não apenas porque o filme de Jonathan Glazer carregar alguns experimentalismos difíceis de encaixar nas predefinições que aprendemos) — aliás, este tipo de análise/crítica pouco (ou melhor, nada) me interessa, considerando o potencial que a crítica tem de despertar sentimentos que sequer poderíamos saber que existiam quando vemos um filme (ou qualquer outra obra de arte).
Além de tudo, é notável (e um tanto inócuo) o esforço que Glazer faz de se afastar de convenções dessa gramática para que jamais se cogite afirmar que o filme humaniza nazistas e suas atrocidades, notadamente em Auschwitz, tema do filme. É notável pois temos inúmeros exemplos de filmes que, em nome de uma suposta proteção à memória de quem sofreu ataques, torturas e assassinatos crueis como os perpetrados por nazistas, acabam dando uma volta de 360º e transformando seus agentes em gente-como-a-gente, que apenas seguiram ordens da mente maligna e nefasta de Adolf Hitler1. Para não cair nesse buraco, Glazer literalmente afasta sua câmera da família Höss, cujo patriarca é um alto-oficial da SS alemã e tem como incumbência principal otimizar a produtividade do campo de concentração de Auschwitz — tarefa que ele cumpre com perfeição.
Por outro lado, é um tanto inócuo, ou talvez um tanto ineficaz, pois hoje, quando o filme sobre um passado terrível que está cada vai mais distante nos chega, uma parte da audiência sabe e se opõe veementemente contra a ideologia nazista, enquanto uma parte (que talvez nem tenha visto e nem vá ver o filme) está cada vez mais tranquila com a possibilidade de valores fascistas serem novamente naturalizados em nossa sociedade (e tem uma parte também que já vê a Segunda Guerra e seus acontecimentos como um evento muito longínquo na História da humanidade, principalmente se considerarmos a compressão cada vez maior do tempo).
(Aliás, sobre a renaturalização do nazifascismo hoje em dia é preciso escrever um pouquinho mais, e Jonathan Glazer foi muito certeiro quando de seu discurso vencedor no Oscar 2024 — mas isso é já já).
De toda forma, Zona de Interesse é um filme do que não é visto: nem por nós, espectadores, que por ventura, já nos momentos finais, somos confrontados pelo olhar de Höss, como numa espécie de epifania do horror do que ele mesmo gerencia enquanto tenta vomitar suas entranhas; nem pelos personagens que a câmera segue em movimentos laterais ou em jogos de plano-e-contraplano dentro de casa, sempre distante, apartada, como que registrando burocraticamente a própria burocracia da família cujo pai é um gestor… de quê mesmo?
Rudolf Höss (interpretado por Christian Friedel) comandava o campo de concentração como se gerenciasse uma empresa. É, portanto, natural que, quando dois engenheiros o visitam em sua casa, vizinha de Auschwitz, o tema fosse como manter os fornos que queimavam prisioneiros e prisioneiras em funcionamento constante, aumentando a produtividade da empreitada sem comprometer o projeto nazista. A vida de Höss se resumiu a gerenciar o horror como uma corporação familiar, e por isso mesmo contava com a fiel esposa ao seu lado (Hedwig, interpretada por Sandra Hüller) junto com as crianças. Uma típica família cristã, nazista, de margarina: branca, numa confortável casa, com piscina e ampla área verde e de jardinagem, com direito até a uma estufa, num paralelo macabro com as chaminés do campo de concentração que divide o muro cinza. Não é à toa que Rudolf e Hedwig lamentam enfaticamente quanto ele é transferido para outra cidade (um fato revertido no final, quando seu substituto em Auschwitz não consegue impor a mesma escala de eficiência que o antecessor).
De um lado, a manifestação, conforme Hedwig explicita, do lebensraum-nazista: a vida pulsante e idílica de uma família que fez por merecer a terra que vai colonizar, uma família não miscigenada, pura, dando vazão ao projeto de expansão nazista; do outro, o que se conformou como a antítese da vida: o lugar da morte, provocada pelas mais atrozes e violentas ações dos agentes do Terceiro Reich. É para esse lugar que o olhar de Rudolf se projeta, agora no futuro, encontrando uma equipe de limpeza do Memorial e Museu Auschwitz Birkenau. Ainda que o vômito aparentemente inexplicável atrapalhe seus passos, ele segue sua descida rumo ao encontro com sua família após recuperar o posto de comandante de Auschwitz.
Nosso contato com o cotidiano de um nazista não permite ver o que acontece do outro lado do muro, nem o que está fora das salas onde conselhos tomam decisões que envolvem assassinatos em massa e um genocídio. As visitas do comandante de Auschwitz ao campo de concentração não pertencem ao filme, sequer pertencem a sua família: ela também vive apartada do que se passa do outro lado do muro2, ainda que tenha plena consciência do que se passa por lá — afinal, se não vemos os horrores cometidos pelos nazistas, ouvimos plenamente tudo o que eles fazem3.
O som é crucial para o efeito do filme, pois é dele que vem todo o choque entre o cotidiano ordinário da família Höss e os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas — e notadamente pela própria família. Se em várias obras podemos falar de paisagem sonora para descrever como o som se integra à narrativa, em Zona de Interesse o som é a própria narrativa, e não por acaso o filme abre com mais de um minuto de tela preta ao som de passarinhos e uma trilha dissonante. O horror ganha materialidade através do som, que atormenta a todos, espectadores e personagens (a filha sonâmbula é a corporificação dessa tormenta). A imagem é a paisagem: o campo de concentração é quase uma distração para a família Höss, um detalhezinho que compõem o cenário de sua espaçosa casa, com seus jardins pujantes de solo fértil, com suas abelhas polinizadoras.
Banalidade do mal não é uma mão única
Finalmente, se é impossível criticar/analisar um filme como Zona de Interesse sob uma perspectiva meramente técnica, também é impossível deixar de fora o contexto em que o filme é lançado, pós ataque do Hamas e pós resposta de Israel contra Gaza e Cisjordânia (e, mais recentemente, Líbano e Síria). Glazer, aliás, acertou em seu discurso vencedor no Oscar: não só confrontou as ações em curso de sionistas contra palestinos, como recusou enfaticamente que o judaísmo seja usado como ferramenta para justificação de crimes contra a humanidade e o genocídio do povo palestino.
Confrontar o passado é sempre uma ação tomada pelo presente, e é no presente que vivemos e nos manifestamos. Olhar hoje para as atrocidades nazistas não deve, conforme Glazer afirma, servir como um alerta distante do que foi feito na história, mas sim como um alerta contemporâneo do que estamos fazendo — e o gerúndio cabe mais do que nunca. Walter Benjamin (2020, p. 37) nos lembra, sempre:
“Apenas tem o dom de atiçar no passado aquelas centelhas de esperança o historiógrafo atravessado por esta certeza: nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
Assim, enfrentar o nazifascismo e seu projeto totalitarista é um dever de agora, como o foi antes. Glazer, ao apontar sua câmera para o passado de violência nazista, que buscava expandir suas fronteiras na criação de um Estado exclusivista para arianos, sabe muito bem que ela também está apontada para o agora, e também reflete na tela as atrocidades sionistas cometidas ao longo dos últimos 15 meses na Palestina.
Carol Almeida escreveu o que, pra mim, é o melhor texto sobre Zona de Interesse, inclusive ao comentar as imagens grotescas de soldados sionistas que hoje divulgam vídeo e fotos com roupas de mulheres árabes de casas que destruíram, num paralelo com os carregamentos de roupas que chegam para Hedwig e sua família com roupas de judeus massacrados em Auschwitz.
Referências bibliográficas
Benjamin, Walter. Notas sobre o conceito de história. São Paulo: Alameda, 2020.
Essa ideia está muito melhor desenvolvida no clássico Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt — não à toa, várias e várias e várias críticas de Zona de Interesse foram pelo caminho filme-retrato-da-banalidade-do-Mal, da qual tentei me afastar.
A figura do muro é recorrente neste tipo de obra, e também recorrente no mundo real quando temas como este vêm à tona. Uma das piores obras sobre nazismo, O menino do pijama listrado, tem como ponto de partida justamente o encontro mediado por uma cisão física entre o garoto judeu e o garoto alemão, filho de nazistas. Este tipo de segregação também é vista na Faixa de Gaza, separada de Israel por grades enormes fixadas a muitos metros de profundidade, e na Cisjordânia, onde imperam assentamentos ilegais de sionistas e as barreiras hoje fazem parte da paisagem local.
Apenas uma imagem, quase um lampejo, é capaz de identificar explicitamente a violência que Höss e os nazistas cometem diariamente em Auschwitz: ainda no começo do filme, o comandante volta do campo e retira as botas antes de entrar na casa; então, rapidamente um empregado doméstico pega as botas na porta e as leva para um canto no quintal, onde as limpa. Num plano zenital, vemos rapidamente uma grande quantidade de sangue que escorre da limpeza (Carol Almeida bem lembra que, se o espectador piscar, perde o sangue). Benjamin (2020, p. 34) nos alerta para a fugacidade dessas imagens do passado: “Só podemos apreender o passado como imagem que, no instante de sua cognoscibilidade, relampeja e some para sempre”. Esta cena se complementa quando os engenheiros nazistas vão à casa da família Höss e perguntam se precisam retirar as botas, ao que o pai responde que não — afinal, eles, os engenheiros, não participam do dia-a-dia da matança.


