#17 — TELL YOUR TALE, LITTLE BIRD, de Arab Loutfi
Ou: de onde vem a força da revolução palestina? (ou ainda: 9 de abril não é um dia qualquer...)
Este texto é uma singela homenagem à aniversariante da semana (e não é a única estrela palestina deste momento1): a revolucionária e guerrilheira Leila Khaled, militante da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), organização marxista-leninista que desafiou o sionismo durante um bom tempo e que celebrou 81 anos no dia 9 de abril. Nascida na bela e portuária Haifa, cidade que habita o imaginário tanto do colonialismo sionista, quanto dos movimentos de libertação palestinos, Khaled integra a primeira geração da Nakba: quando Israel foi criado, ela tinha três anos de idade — completaria seu quarto aniversário alguns dias após o começo da Catástrofe palestina.
O Pensar a História fez um belo texto contando a vida e obra de Khaled, e minha ideia aqui não é criar mais um memorial sobre a ativista — que, aliás, segue ativa em seu enfrentamento às atrocidades sionistas, principalmente pós outubro de 2023. Por lá vocês encontram bem explicadinhos os contextos da luta armada da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), da qual a FPLP era um partido-membro. Meu ponto aqui é, como sempre, escrever sobre filmes. E nada melhor do que encarar a uma hora e meia de Tell Your Tale, Little Bird (1993-2007), de Arab Loutfi, pra completar mais essa missão.
Pra quem gosta de rodas de conversa, Tell your tale… é um prato cheio: Loutfi se encontra despojada com sete guerrilheiras também muito descontraídas para rememorar suas histórias na luta armada contra o sionismo. Já deixo claro que o filme não vai nos caminhos marcados por narrativas neoliberais do tipo “mulheres empoderadas” ou “#girlpower”. Todas as mulheres encaram a câmera e a cineasta de forma crua, sincera e sensível, narrando fatos e ações durante os finais dos anos 1960 e começo dos 1970, quando participaram de operações clandestinas de sequestros e explosões, como as que atingiram uma rede de mercados em Jerusalém, em 1969.
Mais ainda, as sete mulheres, cujos nomes deveríamos ao menos ter ouvido falar mais vezes (vamos chegar lá), desafiam a lógica ocidental do que é uma mulher palestina, marcada por estereótipos que remontam, pelo menos, ao século XVIII, e que atravessaram o tempo até o XXI quase imútaveis (Said, 2007) graças a um aparato midiático que muito pouco faz para trazer o mínimo de complexidade a esse grupo social (Kellner, 2001). Aliás, é um tanto irônico que Leila Khaled tenha, a princípio, rompido o estereótipo da mulher palestina de hijab que é uma máquina de fazer filhos (ou, como gostam sionistas, pequenos terroristas) e submissa ao Islã e ao homem-da-casa, ignorante e analfabeta — das sete personagens de Tell your tale…, Leila é a mais famosa, e habita o imaginário esquerdista (radical ou não, popular ou não) há alguns anos —, para cair (não por sua vontade, obviamente) em outros dois estereótipos ocidentais em relação aos palestinos e árabes em geral, formidavelmente descritos por Edward Said em seu livro Orientalismo (2007):
da mulher-terrorista, carregando armas e granadas, prontas para explodir inocentes pelas ruas das cidades liberais de Israel e causar o pânico indiscriminado e sem motivo algum no povo israelense — este estereótipo, é claro, está fortemente ligado às imagens de homens-bomba que povoam as telas ocidentais, principalmente pós 11 de setembro de 2001, e é notadamente enraizado nos homens, ainda que pessoas como Khaled nos mostrem que não apenas a eles;
da mulher árabe lasciva, sensual, não-confiável, ardilosa, provocante, traiçoeira, que vai seduzir e matar pela causa bárbara de terroristas ou que deve ser dominada e colocada em seu devido lugar2 — um ciclo que se retroalimenta, como se vê.
O filme está disponível na integra no canal da Arab Loutfi, infelizmente apenas com legendas em inglês (mas é melhor do que nada, já que filmes como este quase nunca chegam a nós, apenas em eventos como a excelente Mostra de Cinema Árabe Feminino, que trouxe o filme na edição do ano passado, quando dos 80 anos de Leila Khaled):
Aisha Aodeh, Aminah Dahbour, Leila Khaled, Rashida Obeida, Rasmieh Aoudeh, Teresa Halassa e Wedad Kamary
são as sete combatentes que marcaram a história de luta por soberania da Palestina. Entre arrependimentos e ações diretas que impactaram as bases do sionismo durante um bom pedaço do século XX, todas apontam que o caminho para se livrar da colonização era a luta organizada de todo o povo palestino — essa era a condição crucial para resistir, sobreviver e, então, fazer nascer uma nação palestina livre da subjugação imposta por Israel. Essa vontade de fazer algo está eternizada numa frase de Rashida Obeida:
Talvez estivéssemos erradas [na forma da ação]; porém, também não tínhamos paciência para não fazer o que fizemos [grifo meu]
É preciso uma breve digressão para entender a urgência que dominava as militantes, a FPLP e a OLP como um todo, e porque algumas ações tomadas resultaram em consequências não muito proveitosas: em 1967, Gamal Abdel Nasser foi humilhado na Guerra dos Seis Dias, juntamente com todo o aparato militar de aliados árabes no conflito contra as forças armadas de Israel. A incursão sionista consolidou as fronteiras atuais do Estado de Israel, anexando Gaza3 e Cisjordânia e desrespeitando a Resolução 181 da Organização das Nações Unidas, de 1947 e que criou o Estado-judeu. Mais da Guerra dos Seis Dias você pode conferir em português no excelente episódio do História FM:
Com a derrota árabe no conflito, os movimentos de resistência tomaram a frente das ações contra as arbitrariedades sionistas. A organização coletiva passou a ser o norte que guiava os passos da OLP e seus partidos-membros — uns mais, outros menos ativos, mas todos com o objetivo único de libertação. Rasmieh Aoudeh, que foi presa e condenada pela sua participação nos bombardeios de Jerusalém, conta que, nos centros de detenção, onde se encontravam entre 50 e 60 mulheres, qualquer ação coletiva era proibida; isso incluía cantar, dançar, produzir peças de teatro… ainda assim, atividades lúdicas eram intercaladas com processos de alfabetização e emancipação política, desafiando a ordem vigente.
Outra guerrilheira envolvida em explosões em Jerusalém é Aisha Aodeh, que reitera a importância da luta armada como facilitadora da divulgação da causa palestina mundo afora: se Israel ignora as vias políticas e diplomáticas estabelecidas em resoluções e legislações internacionais, e, como consequência, abusa de seu poder de Estado ocupante, a resposta da resistência anticolonial deve ser no mesmo tom. As memórias de Aodeh e das outras seis combatentes da FPLP ecoam hoje em posicionamentos públicos de diversos intelectuais, militantes e pesquisadores acerca da legitimidade do uso da força para resistir às expansões e à violência israelense (aliás, é notável o poster que compõe o cenário em que Aisha narra suas histórias, em que se lê “STOP SEPARATING PALESTINIAN FAMILIES” — 1993, 2007, 2023, 2025, a opressão não acaba, o tempo não passa, a Nakba se perpetua…)
O inimigo dos oprimidos é o mesmo (mas e o terrorismo?)
É Aodeh quem se junta a Khaled num questionamento urgente, tanto em 1993, quando Loutfi rodou o filme, passando por 2007, quando ele veio à luz, quanto agora, pós ataques do Hamas no território israelense em 2023 e a resposta genocida de Israel e seu processo de aniquilamento da Palestina: Israel baseia sua política em relação aos palestinos no terrorismo, enquanto acusa-os de serem eles os terroristas — ou, em outras palavras, por que os ataques desmedidos de um são auto-defesa legítima e os do outro são terrorismo? E, aliás, de que terrorismo estamos falando, considerando o que muito bem delineou Reginaldo Nasser (2021) em sua investigação sobre a malfadada Guerra ao Terror?
Ao se colocarem frente à câmera de Loutfi como narradoras dos acontecimentos pós Guerra dos Seis Dias, Aodeh, Khaled e todas as outras militantes também se comprometem a dar um sentido ao próprio trauma palestino, transformando, através da linguagem, os horrores da Nakba que se recusam a se solidificar enquanto passado-de-fato, graças à perpetuação da situação colonial sionista — ao mesmo tempo, recusam-se a serem reduzidas ao papel de exiladas políticas e só, contrapondo suas vidas como palestinas complexas à violência colonial (de gênero, de narrativa, de linguagem etc.).
Por fim, Khaled também faz questão de lembrar que a causa palestina é a causa dos povos oprimidos no mundo todo, assim como a luta por soberania de antigas colônias também inspiraram a OLP e seus membros — uma luta que deve superar os anseios imperialistas e seus braços-direitos, o capital e a colonização (um pensamento compartilhado por Said em seu A questão da Palestina, quando aponta a causa da autodeterminação palestina como o grande ícone da luta por soberania no século XX, justamente por não ter ainda se concretizado).
Seu desejo de retornar à Palestina é o que mantém viva a esperança de que a luta não acaba, pois o povo ainda não se libertou — ainda…
(Deixo aqui o link para o livro My people shall live, a autobiografia de Leila, escrita por ela e editada por George Hajjar. É uma leitura fluida e fácil da vida e obra de uma revolucionária que não se dobrou — e ainda se recusa a se dobrar ao fascismo sionista)
Referências bibliográficas
Butler, Judith. Caminhos divergentes. Judaicidade e sionismo. São Paulo: Boitempo, 2017.
Kellner, Douglas. A cultura da mídia. Bauru: EDUSC, 2001.
Nasser, Reginaldo. A luta contra o terrorismo: os Estados Unidos e os amigos talibãs. São Paulo: Contracorrente, 2021.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Said, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Coincidentemente, o dia 9 de abril marca o aniversário de nascimento de duas figuras importantíssimas da luta palestina antissionista: a já citada e tema do texto de hoje, Leila Khaled, e Ghassan Kanafani, um dos mais proeminentes escritores da Palestina, covarde e precocemente assassinado pelas Forças de Defesa de Israel em 1972, aos 36 anos, juntamente com sua sobrinha, Lamees Najim, de 17. Na época, Kanafani era um dos líderes da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), que reivindicou um atentado no aeroporto internacional Ben Gurion. A vida de Kanafani foi também marcada pelo exílio, já que sua família teve que abandonar sua casa em Acre, na Palestina, quando da criação de Israel. Suas obras, como Umm Saad, Retorno a Haifa e Homens ao Sol, são extremamente populares e influentes, principalmente na defesa da autodeterminação do povo palestino. No final do mês, volto à obra de Kanafani, com a devida reverência.
Neste sentido, é importante ressaltar como a violência sexual acompanha, lamentavelmente, não apenas mulheres da luta armada contra regimes autoritários/colonialistas/fascistas, mas principalmente prisioneiras de guerra/conflitos (ou prisioneiras administrativas, com é o caso de Israel e suas milhares de pessoas em centros de detenção sem nenhum processo judicial) e outras mulheres em geral. A violência de gênero é um componente fundamental de qualquer política genocida ou de ocupação/colonização, materializada na guerra ou não. Na Ditadura Militar brasileira são inúmeros os exemplos desse tipo de violência contra grávidas, menores de idade, idosas etc.; durante a invasão do Iraque e a destruição deste país, os Estados Unidos da América cometeram todo tipo de atrocidade contra mulheres — e ainda documentaram seus próprios crimes, orgulhosos; agora, pós outubro de 2023, não é diferente, mas a situação talvez tenha apenas se agravado, conforme uma das personagens de Tell your tale… deixa claro em um de seus depoimentos (uma parte considerável do filme é dedicada às memórias de Rasmieh Aoudeh e a violência sexual a que foi submetida enquanto esteve presa).
Em 2005, Israel anunciou sua retirada da Faixa de Gaza, colocando o território novamente sob governo árabe/palestino; em 2006, o Hamas venceu eleições para ser o representante político em Gaza — até hoje, foi a única eleição de fato realizada por lá, o que gera conflitos entre a população palestina e o próprio Hamas. A desmobilização de assentamentos de colonos judeus sionistas em Gaza foi tratada por parte da população israelense como um novo Holocausto — uma comparação absurda e descabida, conforme nos mostra Judith Butler em Caminhos divergentes (2017).



