#15 — A STONE'S THROW, de Razan AlSalah
Ou: como combater a invasão sionista do imaginário palestino?
A vida não é só matéria. Tem coisas como a imaginação, o pensamento, princípios, valores, emoções, sensações, impressões — nós experimentamos tudo isso como uma coletividade, não apenas como indivíduos. Estamos lutando contra uma potência nuclear; como planejamos lutar contra isso, com quais armas? Então, é necessário inventar algo mais poderoso que a militarização, algo maior que o poder material.
Precisamos libertar o imaginário, precisamos de algo irresistível, algo que armas nucleares não podem mudar. Como uma criança palestina, de 7 ou 8 anos, com um estilingue, que atira uma pedra num tanque.
Amine apela diretamente para o poder da imaginação como forma de resistir às arbitrariedades coloniais porque sabe que os efeitos da ocupação sionista, como tão bem já nos mostraram neste caso, principalmente, Mbembe (2008) e Said (2012), se perpetuam no tempo para além da destruição física de seu povo e de seu território. “Algo irresistível” é algo que suplante os limites impostos pelo sionismo à possibilidade palestina de requerer para si o controle da narrativa sobre seu próprio destino — político, social, histórico, econômico e cultural.
A câmera que treme enquanto acompanha os fluxos de pensamento de Amine treme de um jeito diferente do que tentam nos acostumar a ver quando pensamos vemos a Palestina ou outros países da região: AlSalah segue o ancião pelas ruas do Líbano enquanto ele desempenha atividades corriqueiras e relembra seu passado na indústria petroleira em Haifa, incluindo as diversas vezes em que explodiram o oleoduto que ligava Kirkuk, no Iraque, à belíssima cidade praiana no norte da Palestina. O mar é uma constante em suas lembranças, e é uma constante nas imagens trêmulas e no desenho de som de A Stone’s Throw (2024), com tudo o que ele carrega de simbolismo.
Ah sim: o filme de Razan AlSalah está disponível de graça no site do Palestine Film Institute.
AlSalah ficou conhecida pelos seus experimentalismos e hibridizações de imagens; em A Stone’s Throw (2024) não poderia ser diferente. Seja através de recursos de animações tridimensionais para reconstituições de passagens contadas no filme; seja pelas inserções de linhas de programação que sugestionam nosso olhar sobrepostas às investigações sobre mapas 2D que dão sentido à narrativa; seja acompanhando Amine, o personagem principal da obra, numa caminhada pelas ruas do Líbano, como se fosse uma documentarista que segue seu objeto; ou, por fim, seja interferindo nos arquivos da história sionista na região: o filme traz um misto de linguagens e suportes que, ao fim e ao cabo, nos lembra, novamente, o poder da poesia como elemento de resistência aos crimes sionistas.
Em determinado momento, Amine diz: “42 dias trabalhando, 28 dias no Líbano”. Mas ele é expulso do seu local de trabalho, também. A planta industrial de óleo e gás é sua casa/trabalho durante muito tempo, e de lá ele é expulso, como também foi expulso de Haifa para o Líbano. Haifa, a cidade portuária que habita o imaginário imagético palestino e que ainda antes da criação de Israel foi palco de boicotes organizados por trabalhadores e membros da resistência contra o Mandato Britânico em seus oleodutos. Colonização britânica, colonização israelense, atores distintos de um mesmo projeto de aniquilação de um povo e roubo de suas terras.
É um lugar lindo. As pessoas amam os rebeldes palestinos [e palestinas].
O protesto da época do Mandato Britânico é exemplar da força de vontade de resistir aos desmandos colonialistas, como prova este artigo de Elia El-Khazen e Charlotte Rose no MERIP:
Na Palestina, a ação direta contra infraestruturas energéticas tem sido um método de luta anticolonial desde o período do mandato. Durante a Revolta Árabe de 1936-1939 contra o Mandato Britânico, seguidores do grupo guerrilheiro Red Hand explodiam regularmente seções do oleoduto Kirkuk-Haifa, que pertencia à Iraq Petroleum Company, de propriedade britânica. O oleoduto foi finalmente desmantelado em 1948 [quando da criação de Israel]. Um membro proeminente da Red Hand, Ali Khulqi, relembrou a reunião do grupo em sua casa em Irbid durante a Segunda Guerra Mundial e a decisão de atacar os oleodutos e cortar os fios telefônicos. A Mão Vermelha inspirou grupos palestinos posteriores, incluindo guerrilheiros da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), que alvejaram oleodutos israelenses em Haifa e Naqab (Negev), e o Oleoduto Transárabe da Aramco através de Golã após a Guerra de 1967.
É claro que só a imaginação a que se refere Amine em suas lembranças não seria (e nem será) capaz de derrotar um projeto estruturado pelo tripé capital-colonização-imperialismo. As ações diretas do passado encontram eco nas ações do presente/contemporaneidade, como as Intifadas dos anos 1980 e 2000, focadas em responder à violência desmedida do exército sionista de ocupação, ou os ataques recentes de houthis aos cargueiros israelenses que atravessam os mares do Iêmen.
Esse projeto remonta há um bocado de tempo antes mesmo das primeiras explosões do oleoduto Kirkuk-Haifa: Andreas Malm (2024) traça os paralelos entre os imperialismos de antes e de agora, e como o petróleo e outros minerais — os mesmos que rasgavam o território palestino no Mandato Britânico — abasteceram o desenvolvimento do imperialismo do Reino Unido e depois o imperialismo estadunidense, todos apoiando o desenvolvimento do sionismo na região.
A junção de ação direta com o poderio de uma imaginação que não se deixa subjugar pelo sionismo — subvertendo a lógica colonial da colonialidade do saber, tal qual apontada por Rita Segato (2021) a partir da obra essencial de Aníbal Quijano —, permite a todos e todas envolvidas na resistência palestina acreditar num futuro que não seja marcado exclusivamente pelo temor da limpeza étnica e do genocídio.
O sionismo tentou acabar com o brilho da região: al Nakba é palestina, tanto quanto síria, libanesa e de todo o mundo. A Palestina pré-destruição sionista pulsava vida, encontros, desencontros, trocas e memórias; hoje, há um esforço para que ela seja reduzida ao trauma imposto pela criação de Israel, que não se contenta mais em manter as aparências do Estado de apartheid: seu desejo agora é a aniquilação total.
Referências bibliográficas
El Khazen, Elia; Rose, Charlotte. Routes to Disruption — Supply Chain Sabotage and Israel’s War on Gaza. Online.
Malm, Andreas. A destruição da Palestina é a destruição do mundo. São Paulo: Elefante, 2024.
Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 Edições, 2018.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.


