#14 — PORTO DA MEMÓRIA, de Kamal Aljafari
Ou: o que resta da cidade e das pessoas?
Volto a Kamal Aljafari — pra mim, uma tarefa sempre muito difícil, pois seu cinema é impossível de ser resumido, sintetizado ou criticado como uma obra qualquer. É sempre necessário uma dose a mais de paciência para encarar as maravilhas que Aljafari nos faz enfrentar quando vemos um filme seu.
Por falar em paciência, me lembrei que Porto da Memória (2010) carrega em si um conceito fundamental da experiência palestina no mundo: sumud, uma daquelas palavras difíceis de definir para quem não sente e vive o conceito de fato, no cotidiano, na lida diária com as intempéries de uma ocupação colonialista e ilegal que atravessa toda a existência da pessoa. Sumud é, com o perdão de estar cometendo uma simplificação de seu significado, o poder de resiliência do povo palestino frente ao sionismo (Zahra, 2024). Taí, talvez seja um bom resumo.
Kamal Aljafari, então, parte dessa resiliência cotidiana através de uma família prestes a perder sua casa para que o projeto expansionista de Israel também continue o seu cotidiano: destruir lares palestinos, construir lares para sionistas (ou um parque de pinheiros europeus bem frondoso, típicos do Oriente Médio, como bem nos lembra Ilan Pappé…). Mas, diferentemente do que vemos agora, em Gaza, quando Israel simplesmente bombardeia1 tudo que pode e aniquila toda possibilidade de vida palestina, em Porto… as pessoas são devidamente avisadas que, por força da lei, aquela casa, em Jaffa, onde se enraizaram por 40 anos (como é o caso da família de Salim, protagonista do filme e tio de Kamal), agora não lhes pertence mais.
Enraizar-se é uma atitude que pode se confundir com e fortalecer o sumud: ao permanecer, aquelas pessoas dizem não ao processo/progresso sionista, ainda que seja uma luta um tanto inglória. De um lado temos famílias que sequer conseguem recuperar os registros oficiais que atestam sua propriedade; de outro, um Estado que cria e modifica leis conforme lhe é conveniente, e que não se acanha nem se envergonha em nenhum momento quando precisa extinguir a população indesejada para concretizar a colonização iniciada em 1948. Não são forças correlatas, mas ainda assim Salim e sua família decidem resistir.
Jaffa foi um importante polo palestino até a criação de Israel, mesmo que enfrentando problemas durante o Mandato Britânico. Sua população cresceu vertiginosamente ainda nos anos 1920, e sua posição à beira-mar logo transformou a cidade num importante posto comercial e político. Tudo mudou em 1948, como tudo mudou em todas as outras cidades palestinas, quebradas, demolidas, aniquiladas e reconstruídas (algumas) sob o sionismo (Qato; Shirazi, 2020, online).
Apagamento demográfico (e outros mais)
A Jaffa que vemos em Porto… já se encontra com a demografia invertida, tal qual os desejos de Moshe Dayan, Ben Gurion, Theodor Herzl e tantos outros profetas do sionismo: os árabes tornaram-se uma minoria bem pequena, e a cidade integrou Tel Aviv; ficou conhecida como um porto seguro para artistas e profissionais liberais judeus israelenses, iniciando, junto com o expansionismo colonial, a gentrificação do território.
Expansão e gentrificação caminham juntos. É o capital, o aliado para toda hora do colonialismo…
Salim vê sua casa ser escolhida, dentre tantas outras, para ser desocupada. Lembremos: é tudo legal. O sistema judiciário israelense permite, é claro. Não há nenhum abuso de poder, nem nenhum desrespeito aos direitos dos palestinos: está tudo na lei. Um panfleto em árabe alerta: não vamos embora. Mas o recado não é da resistência de palestinos: é um recado da força das escavadeiras, um outro sinônimo de Israel. Seu trabalho é ininterrupto, 24h por dia, destruindo tudo o que a lei lhe permite destruir. De 2010 até hoje, os panfletos continuam a informar, na língua do povo palestino, sua sina sacramentada pela destruição sionista.
Os escombros são um trágico lembrete para Salim e sua irmã: sua casa é a próxima. O advogado que Salim visita não está adiantando muita coisa, a casa está marcada com um X vermelho, vai ser demolida como tantas outras no bairro (é Ajami? Afinal, ali ainda se concentram árabes em Jaffa…). Salim caminha por ruínas e locais ermos — é o território esperando a ocupação. Os escombros e o mar marcam a paisagem: é pro sol se pondo que ele olha, enquanto sons de construção misturam-se com sons de tiro (a britadeira também metralha).
Um movimento pan para a esquerda revela panfletos em árabe colados numa parede arruinada: sentimos sua falta, lê-se. O barulho do mar acompanha o cair da noite, a escavadeira-Israel continua sua rotina. Salim vai caminhando pela cidade como se recolhendo ele mesmo as memórias que nomeiam o filme de Kamal. Vive no presente, mas sempre também atado a um passado atribulado, não-resolvido (Vadasaria, 2018; Said, 1999). As obras de demolição e construção continuam tão naturalmente como é a vida da família de Salim e de outros palestinos em Jaffa.
É essa naturalidade (de coisas às vezes nada naturais) que a câmera de Aljafari acompanha, sempre estática, fincada e enraizada fortemente, como uma oliveira — ou como a família que não abandona seu lar para ver nascer mais um condomínio segregado.
Em algum momento mais oportuno, escrevei mais sobre um brilhante projeto que se utiliza do sumud para dar voz à questão palestina sob diversos vieses: científico, histórico, sociológico, jornalístico etc. É um podcast, em inglês, de nome Sumud. O episódio linkado aqui também se conecta com o filme de Kamal Aljafari, e serve, de toda forma, como uma bela introdução às arbitrariedades da ocupação sionista, desde al-Nakba até os tempos atuais.
Referências bibliográficas
Qato, Mezna; Shirazi, Sadia. A spectral sumud: Jaffa in Kamal Aljafari’s Port of Memory. Online.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.
Zahra, Rima Awada (org.). Sumud em tempos de genocídio. São Paulo: Tabla, 2024.
Antes que alguém aponte para os panfletos espalhados pelas FDI ao longo dos diversos bombardeamentos realizados na Faixa de Gaza: isso não passa de uma piada de péssimo gosto. Jogar panfletos de aviões orientando as pessoas a se deslocarem de lá-pra-cá indiscriminadamente é uma forma de tortura psicológica e física que deveria ser mais repudiada pelos órgãos de defesa dos direitos humanos. Israel conseguiu transformar todo o território de Gaza em uma zona de insegurança: não se sabe quando, nem qual parte será bombardeada. Os panfletos são praticamente uma forma de se eximir da culpa pelo horror causado pelas ações terroristas do Estado de Israel.


