#13 — A PLATE OF SARDINES, de Omar Amiralay
Ou: um brevíssimo texto sobre peixes e pescadores
Essa é um indicação 2 em 1 expressa, tentem aproveitar pois o filme vai sair do ar muito em breve: A Plate of Sardines (1997), de Omar Amiralay, de graça-na-faixa no site Palestine Film Institute. Um documentário que bagunça a cinematografia de Omar e seu amigo Mohammad Malas, autor de, entre outros, Quneytra 74 (1974). Os dois revisitam a cidade de Quneytra, nas Colinas de Golã, devastada após a Guerra do Yom Kippur. Devastada é pouco: sionistas das forças armadas israelenses fizeram da vila um exemplo de seu poder de destruição e aniquilação. Quneytra fica pertinho do Mar da Galileia, tema do texto anterior, e era um importante entreposto comercial e cultural na Síria. Foi tomada à força (é claro!) por Israel na Guerra dos Seis Dias, quando também tomaram o Sinai. Posteriormente, os territórios foram devolvidos à Síria e ao Egito, respectivamente. Mas a Guerra dos Seis de fato redesenhou as fronteiras sionistas — Cisjordânia e Gaza são fruto direto deste “conflito” dos anos 1960.
Irônica e simbolicamente, no filme, um dos únicos prédios remanescentes é um antigo cinema da cidade, de onde Amiralay realiza experimentos em A Plate of Sardines.
Mas por que sardinhas, então?
Omar reativa uma de suas memórias a partir do cinema (coisa linda, né? O cinema é assim mesmo…): toda vez que visitava a vila de sua tia, havia uma grande travessa repleta de sardinhas para comer. Na visão do cineasta, as sardinhas eram um símbolo da condição precária em que seu povo foi obrigado a viver frente à ameaça sionista. Quando entrevista sua tia, no entanto, tem uma surpresa.
Esse filme me remeteu rapidamente a um episódio da AJ+ que segue abaixo, em que Laila El-Haddad, chef de cozinha, prepara um banquete enquanto rememora as tradições culinárias palestinas em meio ao genocídio de seu povo em Gaza.
Mas o que tem a ver sardinhas de 1997 com o genocídio em 2023 (e seguindo)?
É que se lá, nos últimos suspiros do século XX, sardinhas era o que dava pra pescar ou comprar em Quneytra — e Omar tinha péssimas lembranças disso —, em 2025, dois anos após os inícios dos massacres que Israel vem cometendo em Gaza, nem sardinhas tá sobrando; aliás, Leila faz questão de enfatizar como o exército israelense sempre tentou obstruir o acesso de palestinos à pesca — num território que tem uma pequena fronteira de marítima. A pescaria era (e ainda é, mesmo com todas as dificuldades impostas pelo sionismo) um fonte de renda e de alimentação para palestinos da região, que desde 2006, quando Israel abandonou oficialmente a ocupação de Gaza, são metralhados em alto-mar.
A ironia final é que na terra onde Jesus Cristo multiplicou o peixe para dar de comer à população, Israel impede que as pessoas comam peixe — ou lhes deixam peixe como única alternativa proteica.
(Quneytra não existe mais: a cidade é uma lembrança do que Israel é capaz, mantida como uma memória fantasmagórica nas Colinas de Golã)


