#12 — BYE BYE TIBERIAS, de Lina Soualem
Ou: família não é tudo igual
Quando eu era criança, minha mãe me levou para nadar nesse lago. Como se quisesse me banhar em sua história.
O Lago Tiberíades, ou Mar da Galileia, de fato tem muita história pra contar. Não, muita história não: ele tem a História pra contar, aquela com agá capitular; a História da humanidade literalmente andou por suas águas, e nos diversos vilarejos que bebiam de e navegam por suas águas foram realizadas grandiosas obras de fé por uma das figuras definidoras de nosso mundo. O cristianismo deve ao Tiberíades boa parte de sua iconografia e de sua propagação: dele vieram o mais famoso pescador (literal e simbólico), Pedro, e também seu irmão André, além de João e Tiago, quatro apóstolos de Jesus Cristo em seu evangelismo pela Palestina histórica.
Foi também por ali que Jesus multiplicou pães, peixes e vinho e deu de comer e beber a uma multidão que o seguia quando da morte de João Batista; além disso, acalmou uma tempestade que se aproximava de um barco quando cruzavam o lago, ordenando que as águas e os ventos cessassem e se calassem, causando espanto nos outros marinheiros que o acompanhavam; por fim, andou sobre as águas, logo após ter multiplicado a comida e a bebida, quando se retirou em oração.
Mas o Tiberíades (e a vila que carrega seu nome) também está intimamente ligado às pequenas histórias de gente como Lina Soualem e sua mãe, Hiam Abbas — e também de sua avó, Nemat, e de sua bisavó, Um Ali. Pequenas não porque não importam, mas pela sua frugalidade frente às grandes narrativas religiosas que têm origem no território do lago e suas adjacências. Até porque, no final das contas, é de pequenas histórias como a da família de Lina que se constroem as grandes histórias de povos subjugados pela História. Abusando do conceito benjaminiano que dá nome a este blog (?), Lina criou uma obra que usa do lago como uma grande escova para destrinchar a história de quatro gerações de mulheres de sua família e do seu povo.
Duas dessas mulheres conhecemos essencialmente através do arquivo que Lina e Hiam escavam e reescavam, de frente pra trás e de trás pra frente: Nemat e Um Ali. Esta é a matriarca, que fugiu de Tiberíades após a criação do Estado de Israel em 1948, é uma verdadeira memória-viva da Nakba — e que hoje ganha contornos ainda mais definidos frente à Catástrofe que se perpetua no tempo através dos corpos dessas mulheres em mais uma etapa do genocídio cometido pelo sionismo e seu interminável projeto de colonização. Um Ali saiu com o marido para salvar a própria família da extinção; Lina, ao retornar para o vilarejo de onde saíram suas mulheres há tantos e tantos anos, prova que a extinção, contudo, não depende só da vontade do poder ocupante daquele território. Ela é a própria resistência, como é Hiam, e como foram Nemat e Um Ali.
Ah sim: Nemat morreu. Ou melhor: ela morre. O filme de sua neta é fabricado enquanto acompanhamos a morte dela através de conversas em vídeo mediadas pelos telefones celulares, em que Hiam e Nemat fazem promessas de amor eterno e declamações de poesia de sua filha (vamos voltar nisso já, já). A visita que Hiam e Lina fazem à Palestina agora tem um motivo especial: o luto pela mulher que, de certa forma, criou as duas, e que viu e viveu sob o signo da ruptura e do deslocamento desde sempre. Nemat queria ser professora, e estudava em Jerusalém para se tornar uma; 1948 e a “guerra” avassalaram seus sonhos — foi expulsa de Tiberíades pouco antes de sua formatura, depois de ser levada para a pequena cidade pelo exército britânico, que já vinha abrindo caminho para a concretização dos objetivos sionistas. De Tiberíades a Jerusalém e de volta a Tiberíades: a migração que não cessa, um eterno ir-e-vir, um perpétuo voltar para casa que evoca as imagens recentes do povo palestino andando por entre os escombros da destruição de Gaza.
E como proceder quando enfrenta a morte da mãe? Hiam diz:
Sabemos como nos tornar mães, mas nunca sabemos como nos separar de uma mãe.
É um recado a si mesma e à própria filha, é claro. Ela quer chorar e não consegue, logo ela, logo neste momento. Está de volta ao passado-presente (Vadasaria, 2018; Said, 1999), à constante impermanência de onde saiu há cinco décadas, e o luto atravessa todas essas temporalidades e questões abertas e precisa conviver com as burocracias pós-morte. A casa foi vendida; a casa é a mãe, Nemat, e sem Nemat a casa também está morta — apesar de Lina ter reconectado sua mãe à própria família. O trauma da família é o trauma do povo, e o trauma do povo é o trauma da família.
As memórias de Hiam são costuradas por reencenações de acontecimentos familiares, como quando contou ao pai que iria se casar com um inglês (para desgosto do patriarca, que ansiava por um casamento tipicamente muçulmano) ou quando foi pedir uma vaga numa escola de fotografia sem fazer a mínima ideia de como fotografar (e aqui há um momento cômico pois não há lugar melhor para aprender a tirar fotos do que numa escola de fotografia). Em outros momentos, e aqui estão as partes mais potentes de Bye Bye Tiberias, Hiam declama poemas que escreveu ao longo dos anos, desde menina em Deir Hanna até adulta e já consolidada como uma importante atriz palestina em diáspora na França1. A poesia palestina, seja de quem fica ou de quem se refugia, sempre desempenhou um importante papel na resistência do povo contra a colonização sionista — o que não significa afirmar que toda ela é explicitamente militante, mas, ao contrário, que a liberdade micropolítica dos versos, ligada aos anseios e angústias pessoais, sempre se imbrica e se imbricou nas questões macropolíticas que norteiam a vida de suas poetas (Figueiredo, 2024).
Logo de cara, ainda nos primeiros cinco minutos de filme, Abbas, respondendo a um carinhoso pedido da filha, canta um emocionante poema:
Leve o rebanho para o pasto / Vá em direção ao verde da planície
A alvorada realça seus olhos / Com vislumbres de luz tremulante
Seus cabelos ondulam / ao ritmo das lufadas
Oh, morena / Oh, canção da floresta
Quimeras das planícies
Oh, morena / Oh, canção da floresta
Oh, canção da floresta / Oh, canção da floresta
A poesia sempre foi parte da família de Lina — ela mesma uma poeta. Seu avô, pai de Hiam, também deixou versos em homenagem à sua avó, Nemat. Uma singela carta de amor em forma de versos, que inclusive se chocam com os estereótipos ainda hoje exaltados de homens árabes como perigosos, lascivos e violentos, incapazes de demonstrações de afeto. Em outro momento do filme, ela lê mais um poema, agora em homenagem à sua avó, Um Ali, que é, ao fim e ao cabo, uma exaltação da resiliência e da resistência encarnadas nas mulheres palestinas2, poesias que ecoam e são ecoadas na obra de Fadwa Tuqan, Dareen Tatour, Asma Tubi — ou, mais recentemente, Annemarie Jacir, Marwa Atiya e Hiba Sabri, dentre muitas outras. Os versos de todas elas, inclusive Hiam, costuram a história palestina marcada pela ruptura e pela busca pela identidade, ao mesmo tempo que refletem as intimidades de cada uma — intimidades que insistem em viver contra o projeto de aniquilação em curso.
Mais alguns pequenos parágrafos para encerrar, mas prometo voltar a Tiberíades ao longo deste ano:
O registro da infância de Lina, eternizado em vídeo, feliz, tenra, contrasta com a realidade de seu próprio povo, sempre prestes a desaparecer. Suas mulheres também: elas estão desaparecendo pouco a pouco. Vítimas do genocídio de Gaza, hoje, vítimas da expulsão de Tiberíades e Deir Hanna, ontem — temporalidades que se sobrepõem e se misturam numa Catástrofe sem fim. Os arquivos do filme mostram uma Tiberíades destruída pelas forças do exército israelense (não sabemos de quem ou de quê são essas imagens): palestinos subjugados, carregando seus pertences na beira da estrada, os homens alinhados, humilhados, enquanto o exército faz sinais para a câmera. Está tudo normal, ontem e hoje3.
Lina sabe muito bem que o lago Tiberíades já não é mais o mesmo. Hiam, idem: na sua época de menina e de jovem-mãe, o lago era silencioso, bucólico, era convidativo para um bom mergulho e diversão em família; agora não se sabe se se deve nadar nas suas águas, e ele está barulhento, como barulhento é o cotidiano das vilas e dos céus que o cercam: os aviões são uma constante lembrança da ocupação sionista do que outrora foi um espaço de convivência e comunhão (seja há 2000 mil anos, seja nos tempos pré-Israel).
O luto é uma forma de reunião e rememoração para uma família fragmentada, como é fragmentada a história de seu próprio povo — frente à tristeza da perda da matriarca, as irmãs cantam enquanto veem fotos antigas, novamente embolando as temporalidades através dos registros memoriais. É assim que a parede da casa de Nemat começa a se transformar num grande museu da família, enquanto chega um banquete. A foto final desse encontro celebra as quatro gerações de mulheres e ainda se posiciona frente ao “[…] imaginário orientalista de harém” (Shohat, 2020, p. 81, tradução minha), reiterando o papel peculiar que elas têm na construção do imaginário da identidade palestina através de suas histórias pessoais que, a partir de 1948, são totalmente engendradas pelo sionismo — mas, é sempre importante lembrar, jamais subjugadas. As fotos e o filme de Lina — uma exilada de terceira geração para quem o trauma foi transmitido, mas não vivido — são uma lembrança da complexidade e da multifacetação do trauma palestino e da formação de seu caráter em relação ao sionismo, uma lembrança do que é ser palestina enquanto se viveu (e vive) sob um projeto colonial (Shohat, 2020).
“Sempre há sofrimento”, diz Hiam, mas elas vivem.
Referências bibliográficas
Benjamin, Walter. Notas sobre o conceito de história. São Paulo: Alameda, 2020.
Figueiredo, Carolina Ferreira de. Discutindo nação e gênero a partir de Fadwa Tuqan: memória e escrita de uma poetisa palestina. História e Cultura , v.13, n.2, dezembro/2024. Online.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.
Shohat, Ella. The cinema of displacement: gender, nation, and diaspora. In: Dabashi, Hamid (org.). Dreams of a nation — on Palestinian cinema. Londres, Nova Iorque: Verso Books, 2020.
Vadasaria, Shaira. Temporalities of ‘Return’: Race, Representation and Decolonial Imaginings of Palestinian Refugee Life. Orientadora: Carmela Murdocca. 2018. 211 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Faculdade de Sociologia, York University, Toronto, 2018.
Hiam Abbas integra o elenco de diversos e importantes filmes da cinematografia palestina e árabe, como Limoeiro (2008), Bab el Shams (2004), A noiva síria (2004) e muitos outros, além de protagonizar um importante filme para minha pesquisa, In vitro (2019), dirigido por Larissa Sansour e que em breve contará com um texto publicado aqui. Abbas também esteve em Munique (2005), Blade Runner: 2049 (2017) e Hellraiser (2022), demonstrando sua versatilidade e penetração na indústria mainstream do cinema estadunidense. Um outro trabalho marcante foi como Marcia Roy em Succession (2018-2023). Sua carreira de atriz começou como integrante do Hakawati, uma importantíssima trupe de artes cênicas de Jerusalém Oriental, ainda hoje em atividade.
Em minha dissertação, Resistência anticolonialista na ficção científica de Larissa Sansour, parte importante das reflexões vão ao encontro de mulheres que insistem em resistir e, justamente por isso, garantir a existência de seu povo. Isso não significa jogar nas costas das mulheres toda a responsabilidade da construção de uma identidade antes fragmentada e até mesmo proibida, como é o caso da Palestina; contudo, é inegável que elas desempenham um papel crucial na transmissão da memória e na manutenção do povo. Em Patrimônio Nacional (2012), a sequência final desvela ao público que a protagonista está grávida, num misto de preocupação e determinação frente ao que a espera vivendo num arranha-céu que confina seu povo.
É óbvio que um artigo de 2010 não é exatamente um “hoje”, um atualíssimo artigo sobre a situação atual do “conflito” entre Israel e o Hamas, que devastou Gaza. Uso-o aqui propositadamente como demonstração do sadismo sionista: tal qual em 2010, hoje, agora sim, soldados sionistas insistem em posar para câmeras em situações que humilham palestinos e árabes — seja usando roupas íntimas de mulheres, seja confiscando e criminalizando a infância, seja orgulhosamente queimando comida.


