#11 — PATRIMÔNIO NACIONAL, de Larissa Sansour
Ou: é o capital, estúpido! (parte 2, ou ainda: liberalismo, capitalismo e sionismo juntos pelo genocídio do povo palestino)
Este texto é fruto da minha pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto, sob orientação gentil e atenciosa de Karina Gomes Barbosa, publicada em 2024. É a segunda parte dedicada a três filmes de ficção-científica de Larissa Sansour, que são analisados em outros dois textos
Parte crucial de todo empreendimento colonialista é, obviamente, seu financiamento — ou, como gostam de dizer por aí na língua de Whitman, follow the money, se quiser de verdade descobrir quem está por trás de empreitadas que enriquecem meia dúzia de pessoas-empresa enquanto condenam milhões de outras pessoas a um martírio sem-fim. Pois uma empreitada colonialista não termina-quando-acaba, isto é, não cessa caso os colonizadores ocupantes e/ou exploradores abandonem ou terminem seu serviço colonial; pelo contrário, como Achille Mbembe (2018) demonstra sobre a colonização e tráfico de escravizados para as Américas sob jugo europeu, e Edward Said (2007) discorre sobre as especificidades da colonização do assim chamado mundo árabe (ou Oriente Próximo, conforme disciplinas do passado e do presente que se debruçam sobre os assuntos árabes): a colonização se perpetua pelo tempo através de consequências nefastas, um fenômeno que Rita Segato (2021) retoma da teoria de Aníbal Quijano, que este muito acertadamente o classificou como colonialidade.
Não é mera retórica: a colonialidade representa uma temporalidade diferente da simples colonização. Seus efeitos durante e depois são cruciais para compreender tanto os contextos da época em que processos coloniais são iniciados, quanto os contextos atuais, que refletem as marcas do colonialismo através de traumas compartilhados e transmitidos em diferentes comunidades. O caso palestino é tristemente exemplar, principalmente pois, como defendemos aqui e no texto anterior, ainda é uma colonização em curso. E, para retomar a abertura desta crítica, não há como desvencilhar o empreendimento colonial de seus financiadores. As empresas mudam, os políticos também, mas um ator continua a dar sentido à colonização palestina: o capital.
Chegamos, então, a Patrimônio nacional (2012) — ou, mais acertadamente, a solução de Um Estado da utopia sionista1. São nove minutos praticamente sem nenhuma fala humana (há burburinhos aqui e ali e instruções gravadas de robôs-atendentes), que se passam dentro de um enorme arranha-céu dentro do Estado de Israel. O prédio confina toda a indesejada população árabe/palestina, um problema demográfico apontado por Ilan Pappé (2016) que ainda hoje causa arrepios em sionistas (basta ver as declarações de ministros israelenses pós 7 de outubro que falam em limpar a terra de Gaza, por exemplo — do que será que esta terra está suja?).
Os primeiros andares do edifício concentram os serviços públicos: atendimento médico, paisagismo, abastecimento de água etc. Acima deles, estão as cidades e as moradias. É pra lá que a protagonista, sem nome, se dirige: ela é a feliz dona de um moderno studio com vista para o Mar Morto. Lá ela pode cultivar sua oliveira em paz, estabelecendo uma conexão com seus ancestrais, sem incomodar a vida dos donos-de-direito-e-de-fato (e também de acordo com as leis da religião) das terras que circundam o edifício: eles, os sionista. Voilà!
O capital sionista
Se em No futuro… temos um exemplo de ação direta como forma de marcar posição contra a violência da colonização sionista, em Patrimônio Nacional o gosto da narrativa é mais agridoce: o conflito foi solucionado, sim, mas o custo dessa solução se reflete num verdadeiro Estado de apartheid clássico, confinando todos os problemáticos palestinos (e palestinas) num só lugar, com acesso restrito aos serviços públicos, mercados, fontes de água etc. A vida palestina passa a ser controlada pela direção do gigantesco e moderníssimo empreendimento imobiliário, que reflete o que há de mais avant-gard no ramo (pelo menos na limitada visão de barões dos imóveis por aí…): prédio espelhado, climatizado, escadas rolantes, leitores biométricos, sistemas integrados de avisos, segurança minuciosa e tudo o que mais se tem direito neste tipo de condomínio.
É o dinheiro que jorra do Estado sionista que permite aos palestinos do prédio viverem com um certo conforto — desde que, é claro, se contentem em viver contemplando réplicas de seus monumentos culturais, como a Igreja da Natividade ou a Mesquita Al-Aqsa, ou admirando a vista panorâmica de seus flats envidraçados para o resto do território, ocupado pelos invasores de 1948. O sci-fi de Sansour, contudo, não é tão distante da realidade do povo palestino, que vive privado de suas liberdades mais essenciais tanto em Gaza (hoje, terraplanada pelas bombas de Israel e prestes a se tornar oficialmente um território do sionismo), quanto na Cisjordânia, que desde a Guerra dos Seis Dias vê os assentamentos judaicos aumentarem com apoio irrestrito do governo israelense (uma situação que se agravou conforme o avanço das Forças de Defesa de Israel dizimou Gaza, voltando-se agora para o recrudescimento da colonização de judeus no território palestino da Cisjordânia).
A protagonista de Patrimônio Nacional precisa a todo momento passar por escaneamentos biométricos para acessar sua casa; sua comida é entregue em recipientes prontos para consumo; seu jardim, reduzido a uma única oliveira2, é cultivado num canto porcelanado do apartamento em que vive. Toda a sua existência é reduzida ao controle sionista, mediado pelo dinheiro investido na manutenção do edifício, que também sequer tem um nome. Sua vida, enfim, emula a vida real do povo palestino, reprimida pelo aparato tecnológico-militar de Israel que não permite a livre circulação, a livre manifestação, o acesso a bens e terras e por aí vai…
Se o filme reflete o passado e o presente, representando as formas de vida confinadas e controladas do povo palestino, também profetiza e projeta um futuro que, no atual contexto da aniquilação desse povo, parece inescapável. Essas dobras das temporalidades reflete, por sua vez, tanto o que Fredric Jameson (2021) caracteriza como a formação da utopia (e sua contraparte, a distopia), quanto o que Edward Said caracteriza como o “tempo perturbado” da Palestina3 — um tempo que não passa, pelo menos não conforme os padrões ocidentais, um tempo marcado pela suspensão, pelo aprisionamento de um certo presente mediado, conforme defendo neste texto, pelo poder do capital. Ainda neste sentido, Sansour evoca o que Ursula K. Le Guin (2014) define como sendo a ficção científica por excelência: mais do que uma extrapolação imaginativa, o sci-fi é um diagnóstico de uma sociedade, de uma visão de mundo.
Não é à toa, então, que hoje, já no segundo ano do genocídio palestino, ouvimos, lemos e vemos sionistas escancararem suas intenções para o futuro da Cisjordânia e, principalmente, da Faixa de Gaza. Como se fosse absolutamente natural, companhias imobiliárias, empreiteiras, incorporadoras etc. fazem eco às declarações devastadoras de membros do governo israelense e/ou de líderes de assentamentos judeus, e tocam seus projetos de criações de vilas judaicas no que ainda é, de acordo com todo o ordenamento jurídico, território palestino. Os anúncios são especialmente sádicos, na linha quer morar de frente pro mar?, enquanto maquetes 3D ignoram completamente a situação da população de Gaza, atualmente vivendo em tendas — tal qual em 1948, n’al Nakba. Bairros planejados para sionistas convenientemente esquecem que tal planejamento significa a aniquilação literal e simbólica do povo palestino, além do descumprimento (corriqueiro) das leis internacionais.
Choque, reconsctrução e o capital, pra variar
Enquanto boa parte do mundo continua a se perguntar como isso é possível?, Israel segue seus planos de devastação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia — agora, somadas ao Líbano e à Síria —, tudo em nome da construção da Eretz Israel4. O mesmo choque que guia a personagem de Patrimônio Nacional pelo seu pequeno apartamento enquanto contempla a vastidão do território que lhe é negado também orienta os apelos da Organização das Nações Unidas, do movimento Boicote, Desinvestimento & Sanções e de muitas outras organizações e entidades civis para que Israel interrompa o genocídio e, como consequência, sofra punições pelos crimes de guerra que tem cometido.
O que está cada vez mais claro, no entanto, e conforme defendo aqui, é que o projeto sionista não é apenas um devaneio megalomaníaco que hoje encontra força nas mãos de Benjamin Netanyahu e seus amigos facínoras; sequer é apenas um devaneio restrito a políticos de extrema-direita simpáticos a Netanyahu e ao sionismo (as eleições estadunidenses deixaram isso claro e cristalino); o projeto sionista é, desde sua raiz, um projeto capitalista, e como tal ele depende da crise e da destruição para sobreviver e florescer, tal qual demonstrado por Naomi Klein (2008) em A doutrina do choque. Não há cenário mais vantajoso para que o capital se multiplique do que uma guerra tal qual a que se desenrola neste momento na Palestina, e não é coincidência que todos esses empreendimentos imobiliários e tantos outros que virão a ser implementados encontrem tanta força e apoio para se concretizarem.
O choque causado tanto pelo ataque do Hamas quanto pela resposta das FDI fazem convergir duas pontas que andavam levemente soltas: de um lado, a política sionista e sua ideologia de substituição demográfica dos palestinos (seja através do aniquilamento, seja através da expulsão forçada); de outro, o capital — neste caso, também alinhado ao sionismo — e sua busca incessante por novos mercados, novas oportunidades, novas crises.
Assim, mais uma vez o livre mercado salvou a civilização e resolveu de forma simples um problema complicadíssimo, provando que basta querer, ter força de vontade e o correto mindset para se livrar de questões complexas! O sionismo, então, e conforme o que preconiza Jameson (2021), implementa sua tão sonhada e desejada utopia: viver num território livre do povo palestino, num Estado exclusivo para os escolhidos de Deus, que se colocam como o clarim jamesoniano que extirpa a raiz do Mal que condena este território a tantos outros males. Que este Mal seja um povo com história, cultura, agenda e direito à sua própria autodeterminação, pouco importa…
Para um olhar um pouco mais aprofundado acerca de Patrimônio Nacional, você pode ler o capítulo 2 da dissertação Resistência anticolonialista na ficção científica de Larissa Sansour, e também o artigo indicado na nota 1.
Referências bibliográficas
Jameson, Fredric. Arqueologias do futuro. O desejo chamado Utopia e outras ficções científicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
Klein, Naomi. A doutrina do choque. A ascensão do capitalismo do desastre. Sâo Paulo: Nova Fronteira, 2008.
Le Guin, Ursula K. A mão esquerda da escuridão. São Paulo: Aleph, 2014.
Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 Edições, 2018.
Pappé, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2016.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.
Said, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Segato, Rita. Crítica da colonialidade em oito ensaios e uma antropologia por demanda. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
Este é quase o título de um artigo de minha autoria, mais um em parceria com Karina Gomes Barbosa, publicado na revista Rebeca, ele também fruto de um dos capítulos da minha dissertação na UFOP (citada acima).
As oliveiras são tradicionais símbolos da resistência palestina, por motivos inclusive econômicos: o azeite é um importante produto local. Neste tempo marcado pelo genocídio, teve sua colheita proibida em vários lugares por determinação sionista (aliás, um fato que sequer é novo), que também destruiu milhares de hectares de terra produtiva, agricultável — o que mostra as intenções genocidas de Israel, conforme publicação do Euro-Med Human Rights Monitor. Bisan Owda, jornalista palestina que cobre diariamente o genocídio de seu povo em Gaza, tem um belo relato acerca da relação dos palestinos com as oliveiras.
Shaira Vadasaria (2019) também reflete sobre a temporalidade palestina em sua tese de doutorado, dedicada à situação dos refugiados: as diversas gerações encaram o tempo pessoal e o tempo histórico de maneiras distintas, mas todas sofrem do mesmo mal — o de estar constantemente num entre, numa situação indefinível, borrada. Essa impressão acerca da temporalidade dos palestinos também é o mote central da dissertação de Badra El Cheikh, que parte de sua própria experiência como descendente de refugiados da Palestina para questionar a sensibilidade temporal de seu povo — inclusive utilizando os filmes de Larissa Sansour.
Eretz Israel, em tradução livre Grande Israel, é uma referência à Israel bíblica, um território consideravelmente maior do que hoje é de fato o Estado israelense. Benjamin Netanyahu já apresentou em algumas ocasiões um mapa do “novo Oriente Médio” em que esse desejo se mostra concretizado (uma das ocasiões foi no dia 23 de setembro de 2023, numa das Assembleias da Organização das Nações Unidas, duas semanas antes do ataque do Hamas). É uma conveniente mistura entre sionismo e religiosidade, evocada sempre que necessário para que o projeto colonial sionista ganhe força.

