#10 — O PRESENTE, de Farah Nabulsi
Ou: "sempre há sofrimento" (Hiam Abbas, em "Bye Bye Tiberias")
Logo no primeiro terço de O Presente, dirigido por Farah Nabulsi, Yasmine (Mariam Kanj), uma garotinha que acompanha seu pai numa trivial visita ao mercado em Belém, se sente absolutamente desconfortável enquanto caminha com ele após a passagem por um dos tantos checkpoints das Forças de Defesa de Israel que controlam o ir-e-vir do povo palestino na Cisjordânia — diferentemente do que fizeram em Gaza, onde obliteraram o território, por essas outras bandas Israel ainda mantém ares de normalidade (não sabemos até quando). O desconforto é porque ela fez xixi na própria roupa. “Tudo bem, papai, não tinha o que você fazer”, é o que ela diz quando o pai também sente a humilhação, após ser desengaiolado para seguir seu caminho. Essa sequência encontra um paralelo mais à frente, quando já na loja de destino Yasmine se diverte com um pássaro engaiolado, num encontro entre aprisionados. Mas, vamos sem atropelos…
Não sabemos exatamente onde a família mora, nem pra qual cidade estão indo. Sabemos, contudo, que não há nada na Cisjordânia como uma simples caminhada: segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, em inglês), existem 645 “obstáculos físicos” a movimentação na Cisjordânia; destes, 49 são “[…] constantemente ocupados por forças israelenses ou empresas de segurança privadas1, 139 postos de controle ocasionalmente ocupados, 304 bloqueios de estradas […]” (OCHA, 2023). Yusef (Saleh Bakri) e Yasmine encaram dois tipos de bloqueio: um dos 49 permanentemente vigiado e um bloqueio de estrada, que controla o tráfego de veículos entre os enclaves palestinos na Cisjordânia.
Os postos de controle definem muros de exclusão, domínio e encruzilhadas de humilhação e morte para quem se arrisque a “evadir” as fronteiras de sua estreita prisão comunitária. Essas estruturas concretas criaram parâmetros finitos para nossos relacionamentos, emoções, esperanças, sonhos e ambições (Jabr, 2024, p. 36)
É assim que a psiquiatra Samah Jabr define a experiência de pacientes que precisam encarar os postos de controle todos os dias, seja para uma simples consulta médica, seja para ir trabalhar, seja para procurar emprego ou tomar um rumo qualquer. Essas verdadeiras câmaras de tortura, que começam com a organização em fila de pessoas como se prestes a entrar num abatedouro (ecos de Eisenstein) e revistas e achincalhamentos os mais variados e constrangedores, são um terror na vida de Yusef e Yasmine. Sua experiência é marcada pelo cotidiano da opressão em forma de restrição do ir-e-vir livremente num território que até poucas décadas atrás seria chamado de seu.
Yasmine não conseguiu segurar o xixi porque Yusef precisava servir de exemplo para as constantes demonstrações de força e poder das Forças de Defesa de Israel: ele vai para uma gaiola depois de se desfazer de seus pertences para uma averiguação dos soldados que vigiam o posto de controle. Não há nenhuma suspeita além do único fato de ser palestino — aliás, preciso refazer essa frase: é justamente por ser palestino que ele é suspeito, como todo palestino. Yusef não está em lista de procurados, não tem nenhuma acusação contra si, não é um militante de nenhum grupo armado (ou terrorista, como preferem chamar os sionistas) ou desarmado: Yusef, e Yasmine, que também é humilhada, são apenas palestinos. E isso basta, é esse o crime-em-potencial (Said, 2012).
Cruzar um posto de controle israelense/sionista é sempre um martírio: “Mais da metade dos obstáculos (339 de 645) foram avaliados pelo OCHA como tendo um impacto severo sobre os palestinos, impedindo ou restringindo o acesso e o movimento às estradas principais, centros urbanos, serviços e áreas agrícolas.” (OCHA, 2023). Yusef passa por esse martírio diariamente, já que trabalha em Israel — é lá também onde consegue remédios para uma crônica dor nas costas, metaforizando sua missão sísifa agravada por diversos obstáculos que impedem sua subida cotidiana. A cena de abertura do curta condensa essa missão: filmada no estilo guerrilha, já que Fabulsi pesou quanta burocracia seria necessária para conseguir sua cena de poucos minutos. Somos jogados dentro da passagem do posto de controle junto com centenas de trabalhadores que precisam cruzá-lo todo santo dia, torcendo para que o soldado esteja num bom dia para não causar mais transtorno do que o que “naturalmente” já enfrentam.
(A sequência da massa de trabalhadores se espremendo num espaço confinado em busca do ganha-pão ecoa A greve, clássico de Sergei Eisenstein, com a diferença singela e crucial que palestinos não precisam estar em greve para serem abatidos).
Todo o esforço de Yusef e Yasmine tem um objetivo nobre: é o aniversário de casamento dos pais. Noor (Mariam Basha) ficou em casa, esperando o retorno de pai e filha com as compras da lista (coisas ordinárias: carne, leite, cereais etc.) e o presente que Yusef prometeu à esposa: uma geladeira nova, que ela ainda não sabe que vai chegar. Se a passagem a pé já foi um transtorno quase sem fim, quando Yusef pega a geladeira já se imagina que tipo de problema enfrentará no checkpoint da volta. Soldados em seus postos de controle extraem das humilhações cotidianas sua própria força vital, ainda que haja exceções — em O Presente, Avi, um dos soldados, pede a seu companheiro de serviço que deixe a família passar em paz, ainda que sem sucesso e também sem muita convicção, a não ser um mínimo de empatia (o deboche do soldado a quem Avi suplica é um exemplo, em outro tempo, do que Golda Meir, Moshe Dayan e tantos outros líderes sionistas consideram acerca da impossibilidade da vida palestina: não é concebível que um palestino seja amigo de um israelense — ainda mais de um soldado israelense; essa ideia, partindo de um chamado de Yusef para que Avi interceda na sua liberação no posto, é simplesmente impossível na cabeça do sionista).
O momento final repleto de tensão em que Yusef ousa levantar a voz e questionar o que os soldados querem dele parece caminhar para o desfecho que nos acostumamos ver nos últimos tempos: alguém qualquer das Forças de Defesa de Israel assassinando a sangue frio um palestino porque é um palestino e ele, graças ao sionismo, pode e deve fazer isso. O pequeno trecho de estrada que o pai solicita percorrer com a geladeira, que não cabe na catraca do posto de controle na passagem de pedestres, é simbólico do que as forças sionistas podem fazer: o controle sobre um dos mais essenciais direitos humanos. Quem ousa ainda mais desafiar a ordem colonialista é Yasmine: enquanto seu pai discute com soldados, ela mesma dirige o carrinho da geladeira pela estrada proibida, onde horas e horas antes viu um carro de judeus passar tranquilamente. É da criança (e aqui evoco o grande trabalho de Ghassan Kanafani, Palestine's Children) que vem uma possibilidade real de se desvencilhar do destino traçado para o povo palestino há mais de sete décadas — e que parece inescapável
De toda forma, comprar um presente é um martírio perigoso — pelo menos para um palestino qualquer.
Referências bibliográficas
Jabr, Samah. Sumud em tempos de genocídio. São Paulo: Tabla, 2024.
Kanafani, Ghassan. Palestine's Children: Returning to Haifa & Other Stories. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 2000.
OCHA. Fact Sheet: Movement and access in the West Bank. Online, 2023.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Já escrevi brevemente em outros textos sobre o encontro da securitização privada e das políticas públicas de segurança do Estado de Israel, tomando como base principalmente o livro de Antony Loewenstein, Laboratório Palestina. Em O presente, vemos soldados das forças armadas de Israel operando o checkpoint.


