#1 — A FIDAI FILM, de Kamal Aljafari (um texto em construção...)
Ou: quantas voltas o tempo dá? (ou: 7 de outubro de 2023 jamais será um marco zero)
Não sei bem por onde começar a escrever acerca de A Fidai Film, do palestino Kamal Aljafari…
Começo pela interferência do artista nas intervenções sionistas nas películas dos filmes que saquearam de arquivos da Organização pela Libertação da Palestina (PLO, em inglês)? Começo pelas assombrosas imagens das décadas de 30, 40, 70, 80 e 90 do século passado, que hoje ecoam, numa espécie de anacronismo perverso, os ataques das Forças de Defesa de Israel (FDI) no território de Gaza e da Cisjordânia (e do Líbano, e da Síria…)? Ou pelo choro das mulheres que sequer têm direito ao luto de seus queridos e queridas e que atravessam como uma melancólica trilha sonora todo o filme? Ou pelas ficções israelenses que Aljafari usa como links narrativos que nos fazem refletir sobre quem nota e quem é notado neste “conflito”1, sobre as quais o cineasta também exerce influência direta ao pintar, borrar, riscar, como se interferir no filme também interferisse na realidade, do presente e do passado?
O filme contrarquivista de Kamal poderia render um ano inteiro de textos — e ainda seria pouco. Sua obra é como um portal que dobra o espaço e o tempo palestino em diversas seções que dialogam entre si e com a realidade fora da tela, ontem, hoje e com certeza no futuro, através de uma constelação de imagens, sons, textos e intervenções. A Fidai Film é certamente uma materialização do que Edward Said (1999) chamou de tempo perturbado, um conceito de temporalidade tipicamente palestina, atravessada pelos horrores do sionismo e da resistência do povo à colonização/colonialidade, tão bem notado por autores como Badra El Cheikh (2021) e Soraya Misleh (2017).
Tempo e temporalidade são duas categorias de análise primordiais para nos aproximar do sentimento que a Palestina guarda em relação ao que foi, quando ainda sob o Império Otomano e o Mandato Britânico havia um certo grau de convivência entre as mais diversas etnias e religiosidades em seu território; ao que se tornou, uma espécie de protetorado-potencial que desde a criação de Israel jamais gozou de autonomia política, social, cultural e histórico; e ao que está se tornando, terra exclusivamente sionista, destinada apenas a poucos eleitos sob a égide colonialista que ora toma a forma do governo de Benjamin Netanyahu, notadamente de extrema-direita, ora segue os auspícios de gente “progressista” como Golda Meir, a dama de ferro sionista para quem não exista algo como povo palestino2.
É necessário ressaltar que A Fidai Film reforça um ponto central acerca de narrativas jornalísticas, analíticas e de discursos políticos, principalmente de Netanyahu e seu governo de terror (e aqui destaco notadamente Itamar Ben-Gvir, um facínora impiedoso, Bezalel Smotrich, racista de marca maior, e os porta-vozes das FDI — estes sem distinção, todos comprometidos com a violência mais abjeta contra o povo palestino)3: o 7 de outubro de 2023 não é (e nem pode ser) um marco zero das relações entre o sionismo e a Palestina. Israel tem cometido regular e sistematicamente crimes contra o povo palestino desde antes mesmo de sua fundação como Estado independente, em 1948 (Pappé, 2016; Said, 2012). O projeto sionista atravessou o século XX partindo do final do XIX, e chegou ao XXI da mesma forma como começou: violento, colonial, assassino e genocida — não é à toa que o Tribunal Penal Internacional emitiu os mandados de prisão de Netanyahu e Yoav Gallant, ex-Ministro da Defesa de Israel4.
Para além do clichê
Apesar da violência de imagens que sempre nos chocam, Aljafari também nos mostra uma Palestina diferente do estereótipo orientalista que domina o imaginário ocidental. É costume pensar na Palestina quase sempre sob dois conjuntos de imagens preponderantes: o primeiro é de um lugar-que-não-foi, interrompido pela criação de Israel, pastoril, idílico, imaculado, onde havia a mais pura harmonia, bagunçada pela violência do projeto sionista; o segundo, o próprio inferno na Terra, nascedouro de terroristas atrozes, poeirento, amarelado, triste, um barril de tensão prestes a explodir. Pouco se fala dos palestinos enquanto povo, cultura, história, agentes de seus destinos, com agenda própria e bem definida do que desejam, do que almejam, do que sonham e do que imaginam
(Neste sentido, é notável a iniciativa Palestine +100, editada por Basma Ghalayini, no qual uma questão aparentemente simples desencadeou um livro potente e provocante: como a Palestina será em 2048, cem anos após al Nakba? A partir daí, narrativas sci-fi, noir, distopias e muitas outras se sucedem, se complementam e se atravessam, dando-nos também um rico panorama da produção literária contemporânea de autores palestinas e palestinos).
Ainda que os registros rurais da Palestina que compõem o filme de Kamal nos mostrem, sim, um território um tanto idílico, tais imagens nos mostram o cotidiano de pessoas que usam da terra como qualquer outro povo: dali tiram a subsistência, os recursos necessários a uma vida. Contrastando com rios caudalosos e planícies verdejantes, vemos cidades modernas, agitadas, com sedes de jornais diários, automóveis, cinemas etc. Ilan Pappé (2022), em Dez Mitos Sobre Israel, é didático ao desmontar a crença que atribui ao sionismo o desenvolvimento da região: a Palestina, até mesmo por sua condição geográfica privilegiada, era (e ainda é) um entreposto comercial importantíssimo que ligava a Europa ao continente asiático; antes da fundação de Israel, havia lugares com níveis de desenvolvimento tão diversos quanto é possível encontrar em qualquer outro Estado/território com características parecidas. O desenvolvimento sionista que vemos hoje, aliás, é basicamente destinado a garantir a securitização da vida israelense/sionista, conforme aponta Stephen Graham (2017) em Cidades Sitiadas5: um estilo de vida marcado pela preocupação extrema em garantir a segurança dos cidadãos e das cidadãs de primeira classe — israelenses sionistas. Assim, o planejamento urbano, por exemplo, é uma mistura entre oferta de serviços de conforto de excelência com todo tipo de dispositivo de vigilância (câmeras, cercas, checkpoints etc.) e segurança (armas, principalmente, conforme vemos no cotidiano de Israel, como parte da paisagem colonial).
Contrarquivos do terrorismo-narrativo
Fidai é um filme que remexe nos arquivos imagéticos palestinos e israelenses — principalmente deste último, imbricando filmes oficiais, registros das FDI em ação e também de obras de ficção de diretores de Israel. A primeira intervenção de Kamal já se mostra cheia de simbolismo: com uma caneta, ele interfere diretamente nos filmes, criando rasuras e apagamentos que nos fazem refletir quem, ou o quê, deve ser apagado, considerando, obviamente, o contexto primordial da relação Israel-Palestina: o projeto de invasão e colonização sionista do território palestino. A caneta atua de suas formas:
cria marcas sobre textos sionistas que, à sua maneira, explicam as imagens às quais se sobrepõem, ressignificando as filmagens originais através da montagem arquivística, em que se chocam na colagem de outras fontes audiovisuais e cinematográficas;
pinta de vermelho-vivo pedaços de filmes israelenses, também chocando-os com outras fontes imagéticas, mas agora chamando atenção através da cor para o que não-se-vê pela rasura.
Este tipo de intervenção narrativa é visto também na obra de Larissa Sansour, notadamente No futuro, eles comiam da melhor porcelana (2015), em que a personagem principal e narradora do filme se autodeclara uma terrorista-narrativa. Vejo este conceito como uma chave crucial para entendermos o que Aljafari realizou em seu filme, distorcendo o tempo que o sionismo tenta a todo custo roubar da Palestina, trazendo-o novamente para um campo aberto em que é possível se imaginar possibilidades diferentes de interpretação da realidade do “conflito” e da Palestina em si — sua história, sua cultura…
O choque provocado pela caneta de Kamal e pela sua montagem contrarquivista funciona também como uma espécie de terrorismo-narrativo: um tipo de ataque contra a instituição colonial-sionista que atua na significação das palavras, das imagens e dos sons; um ataque simbólico e radical, no sentido que procura (e acha!) a raiz da questão Palestina6, e que, ao atacar essa raiz, transforma a violência dos invasores em uma obra ela mesma transformadora (Mondzain, 2022) — A Fidai Film não tem fim, nem começo, ele é a própria História palestina fora da violência e das arbitrariedades da colonialidade sionista: é o próprio tempo palestino.
(Este texto continua em algum momento no futuro… — para um excelente aprofundamento na obra de Aljafari e de A Fidai Film, veja essa conversa de Carol Almeida e Carla Italiano no forumdocBH 2024, quando da exibição do filme em Belo Horizonte; a última pergunta do vídeo, aliás, é minha, quase ininteligível)
Referências bibliográficas
El Cheikh, B. Quando é a Palestina? O tempo palestino através da ficção científica de Larissa Sansour. Orientador: Fernando Antônio Resende. 2022. 124 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2022.
Graham, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo, 2016.
Misleh, Soraya. Al Nakba: um estudo sobre a catástrofe palestina. São Paulo: Sundermann, 2017.
Mondzain, Maria José. Confiscação das palavras, das imagens e do tempo: por uma outra radicalidade. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2021.
Said, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.
Said, Edward. After the Last Sky: Palestinian lives. Nova Iorque: Columbia University Press, 1999.
No próximo texto, explico com mais precisão porque não considero a situação Israel-Palestino um conflito; por ora, basta considerar que, desde os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, sionistas devastaram Gaza e pretendem anexar o território (um plano que é, na verdade, um antigo sonho de Israel e seus governos, de esquerda ou de direita). Não há nenhuma razoabilidade na resposta do exército israelense ao ataque sofrido em 2023, apenas a manifestação da vontade expansionista do projeto colonial sionista.
O artigo linkado é de 1976, quando Meir tentou se explicar: “Eu supostamente disse: ‘Não há palestinos’. As minhas palavras reais foram: ‘Não existe povo palestino. Existem refugiados palestinos.’ A distinção não é semântica. A minha declaração baseou-se numa vida inteira de debates com nacionalistas árabes que excluíram veementemente das suas formulações um nacionalismo árabe palestiniano separatista.” Apesar dos esforços de Golda, ao fim e ao cabo a diferença é praticamente zero. Pappé (2016), Khalidi (ANO) e Marsalha (ANO), dentre tantos outros pesquisadores, intelectuais, historiadores e escritores palestinos e israelenses, deixam claro que os desejos sionistas para o território de Israel sempre convergiram para um sentido: apagar a presença palestina. É por isso que Meir se sente à vontade para afirmar que não existe povo palestino, pois assim o caminho está livre para a realização do objetivo final do sionismo: dominar 100% do território antes ocupado por árabes, judeus, palestinos, cristãos, muçulmanos etc. Sua tentativa de se explicar apenas reforça seu apego à ideologia ligada ao colonialismo sionista. Não é coincidência que Bezalel Smotrich, Ministro das Finanças de Israel do governo de Netanyahu, afirmou praticamente o mesmo em 20 de março de 2023 — sete meses antes do ataque do Hamas.
É óbvio que o governo israelense-sionista não está sozinho em sua batalha de desumanização do povo palestino e sua consequente aniquilação, seja literal, seja simbólica: Ursula von der Leyen, Olaf Scholz e Emmanuel Macron são alguns dos nomes de líderes ocidentais de potências também colonialistas que, em maior ou menor grau, explicitaram apoio a Israel. É óbvio também que não preciso ressaltar, aqui, o papel fundamental dos EUA no genocídio palestino, através de uma política externa de apoio incondicional a Israel que perpassa os programas de democratas e republicanos (e que, nas eleições de 2024 para presidente deste triste Estado, foi tema de debates acalorados e declarações desastrosas como a de Kamala Harris censurando vozes palestinas durante um comício).
O mandado do TPI também incluiu Mohammed Deif, comandante do Hamas, declarado morto pelas FDI em julho de 2024, o que criou uma situação no mínimo inusitada: como prender alguém que já foi declarado morto?
Sobre este tema, duas importantes notas se fazem necessárias: 1) Ilan Pappé (op. cit.) é categórico ao afirmar que Israel funciona como um farol europeu/ocidental no Oriente Médio, o que se materializa, dentre outras formas, no mito desenvolvimentista que ele desmonta e também, inclusive, no projeto urbanístico escolhido pelos governos israelenses para arborização de suas cidades: invariavelmente, as árvores trazidas e plantadas são coníferas, tipicamente europeias e sem nenhuma ligação com a vegetação nativa da região. 2) Stephen Graham (op. cit.) trata da questão securitária israelense em boa parte de seu livro, e mostra como o desenvolvimento da indústria bélica e de segurança interna recebe boa parte dos recursos de financiamento israelense, seja do Estado, seja privado; assim, o desenvolvimento high tech que tanto orgulha Israel é praticamente todo relacionado a formas de vigilância, punição e ataque contra o povo palestino segregado, garantindo uma vida confortável aos cidadãos sionistas/israelenses.
Esta expressão é obviamente uma referência a uma das principais obras de Edward Said, A questão da Palestina (op. cit).


