contra o quê?
Dizem muita coisa a respeito do papel da crítica, mas a verdade é que ela tem só uma função, simples e eficaz: fazer você se convencer que acabou de ver algo sobre uma obra que jamais teria imaginado — ou que imaginou, mas achou que era viagem e guardou lá no fundo da cabeça…
A contrapelo é uma homenagem aos ensinamentos de Walter Benjamin (e um pouquinho do Edward Said): a gente deve ver o mundo que nos cerca atenta e criticamente, para não arriscar se alinhar com quem prega a destruição. O que isso tem a ver com filmes e outras coisas mais? Talvez essas publicações vão te ajudar a descobrir.
Pelo menos uma vez por semana, comento filmes, séries e tudo mais que couber nesta caixinha de obras-de-arte sob a perspectiva dos derrotados: aqueles a quem foram designados a subjugação às vontades do Império — nós, o Terceiro Mundo, o sul-global!
a crítica dos vencidos
Isso não é uma ode ao derrotismo, por favor!
Eu já escrevi pra blog quando estava na faculdade de Jornalismo lá na Universidade Federal de Viçosa; ainda por lá, escrevi o que achava ser uma crítica numa mal-fadada revista que fundei com alguns amigos (e alguns ex-amigos); anos depois, embarquei no fantástico universo da crítica no YouTube, com direito a todas aquelas loucuras que passamos pra tentar angariar um minuto de atenção de quem tá do outro lado da tela sem se render a títulos click-bait ou bajulações de marcas (não deu certo também).
Aliás, tem uma anedota muito boa dessa época — e vou fazer uma grande digressão logo de saída: em 2020, participei de um programa de aceleramento de creators de uma empresa famosa — sim, exatamente essa que você tá pensando (e nada contra ela, pelo amor de deus). A participação nesse programa rendeu um encontro com brands (já perdemos muitas batalhas da língua, né?); a nossa (o canal foi criado por mim e minha companheira, Bia Amaral) foi com um canal de TV que tem um serviço de streaming de filmes. No pitching, nossa proposta foi um vídeo apresentando uma volta-ao-mundo só com obras do catálogo desse serviço — que, pra ser justo e honesto, é bem bacana e diversa, dentro dos limites de uma grande plataforma de filmes ligada a um conglomerado de mídia gigantesco (ou seja: não é o Mubi, pra deixar bem claro). Na minha cabeça, e na da Bia também, era uma proposta bem daorinha: apresentaria filmes não-tão-óbvios, do tipo que não ficam sempre em destaque na tela inicial ou nas cinelistas propostas por influencers que sequer são especializados em cinema. No fim da apresentação veio a lapada seca, direto da representante da plataforma: quem vai ver isso? Eu fiquei meio revoltado…
A verdade é que hoje, de fato, quem vai ver isso? Pra quê se dedicar a escrever, refletir, pensar sobre obras que ninguém tá muito afim de ver? Deve tá no catálogo porque veio num combo, sei lá. Faz sentido gastar tempo pra comentar assuntos fílmicos e televisivos que ninguém dá muita atenção?
Faz, ô se faz. Estar do lado de quem perdeu essa disputa é minha vitória — e espero que seja a de quem vai ler a contrapelo também. Ou, como diria o professor Darcy Ribeiro: eu detestaria estar no lugar de quem venceu. Aqui, a perspectiva é daqueles que foram subjugados: os filmes e séries que não chegam, que não vingam, que ninguém quer ver, por vontade própria ou não, ou daqueles que chegam e vingam, e que todo mundo quer ver, mas que precisam ser vistos de uma outra forma.
Espero, pra isso, que os fantasmas de Walter Benjamin e Edward Said nos ajudem a fazer travessias e atravessamentos com firmeza.
Afinal, é por isso que a gente faz crítica.
meu nome é rodrigo,
sou servidor público desde 2014 — analista de TV — e produtor e crítico de cinema & séries de TV desde antes de começar a ser servidor público. já tive canal no youtube, já escrevi em blog, já fiz uns curtas que ninguém viu (e longas também), já dirigi programa, já fiz reportagem de TV, já, já já.
Prometo apenas uma coisa: cabeça aberta para seguirmos juntos vendo coisas maravilhosas por aí…

